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VCA 141, DEZ ANOS

Sindicância não identificou responsável por retirada de cancela na Rua Carioba

Dispositivo de segurança foi removido em fevereiro de 2006 após colisão entre trem e ônibus

Por André Rossi

12 set 2020 às 08:51 • Última atualização 12 set 2020 às 08:52

Quatro anos antes da tragédia envolvendo o ônibus 141 da VCA, em Americana, uma outra colisão entre trem e ônibus – sem mortes – fez com que a prefeitura retirasse a cancela do cruzamento na Rua Carioba.

Entretanto, o responsável pela ordem de remover o equipamento jamais foi identificado.

A informação é do ex-secretário de Transportes e Sistema Viário da prefeitura, Jesuel de Freitas, chefe da pasta em 2010 e que conduziu uma sindicância para tentar esclarecer o caso.

A responsabilidade por instalar e manter toda a sinalização, incluindo as cancelas, era da prefeitura, conforme previa convênio assinado pelo ex-prefeito Waldemar Tebaldi (PDT) em 1997.

“Quando eu cheguei [ao cargo] já tinham retirado. Foi anterior à data que eu assumi. Não constava nada na secretaria, de uma determinação ou por que foi retirada”, contou Jesuel.

Depois da noite de 8 de setembro de 2010, que culminou na tragédia do VCA, as autoridades buscavam entender por que a cancela não estava lá. O delegado Claudiney Albino Xavier, responsável pela investigação, cobrava explicações da prefeitura.

Na época, Jesuel dizia que a cancela era uma “medida paliativa” e que oferecia “falsa sensação de segurança”.

Ele defendia a remoção da linha férrea do Centro e pedia a criação um traçado alternativo, o que nunca saiu do papel e hoje surge como alternativa ao Trem Intercidades.

Ao mesmo tempo, o sindicato dos condutores também fazia pressão pela reinstalação da barreira física, pois acreditava que o acidente jamais teria ocorrido caso houvesse o dispositivo no local.

Acidente entre trem e ônibus na linha férrea, em Americana, em 2010, deixou 10 pessoas mortas – Foto: Marcelo Rocha / O Liberal

Relatos de funcionários apontam que a prefeitura retirou a cancela após o acidente envolvendo um trem que fazia manobras.

A composição atingiu um ônibus com 18 passageiros, em fevereiro de 2006, no mesmo local da tragédia.

O veículo tombou e deixou passageiros com ferimentos leves. Porém, quatro anos depois, a prefeitura não conseguiu identificar quem tomou a decisão de retirar a cancela, nem os motivos exatos.

“Eu pedi para instaurar a sindicância, foi instaurado e não chegou a ninguém. Não tem nenhuma pessoa que falou ‘eu retirei porque tal pessoa mandou ou porque eu quis. Não tinha nada que constava”, relatou Jesus.

O secretário de Transportes em 2006 era João Batista Biagioni. Em entrevista ao LIBERAL, ele disse não se recordar da retirada da cancela. Havia um funcionário responsável pelo serviço, mas o ex-secretário também não se recorda quem era.

Dois meses após a tragédia do VCA, em 8 de novembro de 2010, começaram a funcionar os portões de segurança que bloqueiam o trânsito enquanto o trem corta o Centro da cidade.

A promessa é de que seriam automatizados em até 30 dias, mas até hoje eles seguem sendo operados manualmente.

Carros aguardam abertura de cancela manual na Rua Carioba, no Centro de Americana – Foto: Marcelo Rocha / O Liberal

Alternativa

Quando sair do papel, o Trem Intercidades terá de utilizar um traçado alternativo para chegar até Americana.

Isso porque há um entendimento na Secretaria Estadual dos Transportes Metropolitanos de que os vagões não poderão compartilhar do mesmo traçado sob responsabilidade da Rumo.

A informação foi apresentada pelo secretário adjunto da pasta, Paulo Galli, durante reunião no Conselho de Desenvolvimento da RMC (Região Metropolitana de Campinas) no dia 21 de janeiro deste ano.

“O trilho que você tem hoje em Americana não dá para ser compartilhado. Para você viabilizar essa ida até Americana, necessariamente você vai ter que construir um novo viário. E tem que ser um viário que passe fora da cidade”, explicou Galli na oportunidade.

O traçado alternativo era apontado em 2010 como solução para retirar os trens de carga de dentro da cidade, o que acabou não se concretizando.

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O secretário de Planejamento de Americana, Angelo Marton, disse que a questão do novo traçado terá de ser estudada em conjunto com o governo federal

A empresa que vencer a licitação do Trem Intercidades terá de desenvolver o trecho até Americana, o que só está previsto numa segunda etapa do projeto.

Porém, não há prazos para que o processo comece a ser realizado. No início deste ano, havia a expectativa de que o edital fosse publicado em junho – o que não aconteceu – e que o contrato pudesse ser assinado em 2021. 

O primeiro trecho, que ligará Campinas a São Paulo, levaria quatros anos para ser concluído. Só então seriam iniciadas as obras para que o trem chegue em Americana.

Questionada pelo LIBERAL no final de agosto, a Secretaria de Transportes Metropolitanos disse que os estudos de modelagem para implantação do trem estão na fase de conclusão.

Após a aprovação de um conselho que gere as parcerias público-privadas, o projeto deverá ser submetido à pública.

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