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Caminhos para Americana

Especialistas apontam crise de mobilidade em Americana

Cidade vê o crescimento do número de carros nas ruas e a diminuição da quantidade de usuários do transporte público

Por Leonardo Oliveira

11 nov 2020 às 07:40 • Última atualização 14 nov 2020 às 15:11

Americana vive uma crise de mobilidade urbana. A avaliação é de especialistas consultados pelo LIBERAL. Um dos motivos é a mudança no perfil de deslocamento entre os moradores da cidade. Enquanto o número de passageiros atendidos pelo transporte público caiu 37% entre 2011 e 2019, a frota de veículos aumentou 44% nos últimos nove anos.

As estatísticas apontam que as viagens de ônibus têm sido trocadas, principalmente, pelas feitas com carros ou motos. Com isso, as ruas estão sobrecarregadas e pontos de congestionamento são sentidos em diversos locais do município. As vias que dão acesso às rodovias Luiz de Queiroz (SP-304) e Anhanguera (SP-330) são exemplo disso.

Como consequência, transitar por avenidas como a Cillos, Iacanga e Nossa Senhora de Fátima se torna um exercício de paciência, principalmente nos horários de pico. Além disso, especialistas também apontam a falta de ciclovias e ciclofaixas que interliguem bairros do município através de um meio de transporte sustentável, a bicicleta.

O cruzamento da Avenida Nossa Senhora de Fátima com a da Saudade – Foto: Willian Gregio – Divulgação

Para reverter o cenário, duas foram as soluções em comum citadas por profissionais ouvidos pela reportagem: o investimento pesado no transporte público e a construção de viadutos nos acessos às rodovias.

NÚMEROS. O LIBERAL compilou os principais dados sobre mobilidade urbana em pedidos via Lei de Acesso à Informação feitos para a Prefeitura de Americana. O número de passageiros atendidos pelo transporte público, por exemplo, caiu de 14,4 milhões em 2011 para 9 milhões em 2019 – a estatística inclui passageiros repetidos, que pegam ônibus mais de uma vez no ano.

Também houve a diminuição nos ônibus municipais circulando. Em 2011, eram 106 coletivos entre aqueles disponibilizados pelas concessionárias da época. Em 2020, a frota é composta por 58 ônibus da Sancetur – os dados foram fornecidos ao LIBERAL em agosto. A queda na oferta de veículos é de 45%.

Leia as reportagens do LIBERAL da série sobre os caminhos e os desafios para Americana:

Abastecimento de água
O desafio de trocar 500 km de rede

Saúde
Contratação de servidores e pandemia desafiam em Americana

Educação
Melhoria passa por contratação de professores

Economia
A busca pela recuperação na pandemia

Segurança
Delitos em queda, interlocução em falta

Esportes e lazer
Parcerias podem ser ‘ajuda’ para espaços esportivos

Habitação
Apesar de investimentos, fila da casa própria tem 6 mil famílias

Cultura
Sem verbas, prédios históricos estão ocultos

Menos presente no transporte coletivo, o morador de Americana circula em maior número nas ruas da cidade utilizando veículos próprios. Em janeiro de 2011, eram 129,6 mil veículos compondo a frota, número que chegou a 186,7 mil em agosto deste ano, um aumento de 44%. Os dados são do Denatran (Departamento Nacional de Trânsito).

Para João Batista Biagioni, ex-secretário de Transportes e Sistema Viário, o crédito facilitado para compra de automóveis e motocicletas é um dos grandes motivos dessa troca de perfil de deslocamento.

“Se você melhorar o transporte coletivo com ônibus de qualidade, que você tenha coisas como wi-fi, ar-condicionado, essa rede íntegra de transporte de alto desempenho, você faz com que o passageiro volte ao transporte coletivo”, disse ao LIBERAL.

O que é relatado, por enquanto, são diversas reclamações de usuários sobre o serviço ofertado. Redução de linhas e más condições de alguns veículos da frota foram apontados por munícipes durante o período da pandemia.

A Sancetur está em seu quinto contrato emergencial com a prefeitura, que já afirmou que não pretende abrir uma nova licitação de concessão do transporte público. A atual concorrência está barrada na Justiça desde o dia 18 de agosto por conta de uma liminar movida pela VCA (Viação Cidade Americana), antiga prestadora do serviço.

Ex-secretário de Transportes e ex-diretor da Unidade de Sistema Viário da Prefeitura de Americana, José Arnaldo Duarte, entende que a “crise” de mobilidade vivida pela cidade tem origem no passado. Ele aponta que a cidade cresceu de forma “desordenada” e que as consequências são sentidas hoje.

“Americana não teve planejamento nenhum, e o processo de expansão urbana se deu a partir das interferências físicas. Americana demorou muito para ter o seu primeiro plano diretor”, afirmou em entrevista ao LIBERAL.

Como o tráfego de veículos é dificultado nas ruas e avenidas do município, os motoristas usam as rodovias para se deslocar dentro da própria cidade, evitando passar pela região central. Esse é mais um dos fatores que sobrecarregam os acessos a essas vias.

Os congestionamentos já foram alvos de inquéritos civis abertos pelo MP (Ministério Público). Em novembro de 2017, a prefeitura assinou um TAC (Termo de Ajustamento de Conduta) em que se comprometeu a construir dois viadutos sobre a Rodovia Anhanguera.

Em 2020, a situação segue sendo discutida. O LIBERAL mostrou recentemente que a administração sugeriu ao MP que os empresários com empreendimentos na região do Pós-Anhanguera custeiem a construção do viaduto no km 124 da rodovia.

A prefeitura não tem a verba, estimada entre R$ 12 milhões e R$ 25 milhões para essa estrutura, por isso fez a sugestão. O dispositivo viário será construído próximo à Avenida Thomaz Fortunato e teria de ser entregue até novembro de 2022.

Já o segundo viaduto precisa ser entregue até 2027. O ponto selecionado fica na ligação da Avenida Santino Faraone com a Avenida Roma. A ideia é acionar a Artesp (Agência de Transporte do Estado de São Paulo) para que a responsabilidade da construção do viaduto e das marginais ligando às duas transposições seja da concessionária que administra a rodovia. Atualmente, a Autoban é a responsável.

Enquanto isso não acontece, as dificuldades que os veículos encontram para se locomover nesses trechos continuam e não há como desenvolver a região, que concentra os maiores vazios urbanos de Americana.

Na SP-304, a hipótese da construção de um viaduto, na confluência das ruas São Salvador e Izolina Geminiani Rosa, foi sugerida em encontro entre a prefeitura, o MP e o DER (Departamento de Estradas e Rodagem).

O LIBERAL pediu uma entrevista com o atual Secretário de Planejamento do município, Ângelo Marton, para comentar essa obra, mas não houve resposta. O DER também não respondeu a questionamentos feitos por e-mail.

Motos, carros e bicicleta em um dos gargalos do trânsito em Americana, o Viaduto Amadeu Elias – Foto: Marcelo Rocha – O Liberal

Barreiras
Outro desafio da mobilidade é “driblar” o que Biagoni chama de “acidentes geográficos” na malha urbana de Americana: a linha férrea e o córrego do Ribeirão Quilombo.

A Rumo Logística, que administra o trecho ferroviário, assinou em 2011 um termo com a prefeitura para construir um viaduto ligando a Rua Dom Pedro II à Avenida Bandeirantes, o que ajudaria nos deslocamentos.

A assessoria de imprensa da empresa informou à reportagem que a construção da estrutura será feita quando começar a duplicação da via férrea no município.

“O cronograma e os custos da obra do viaduto ainda serão definidos. Conforme previsto no contrato da renovação da concessão da malha paulista, a Rumo irá duplicar a linha férrea na região de Americana, e o prazo de execução das obras é de três anos”, escreveu em nota.

Para os especialistas, pensar em meios sustentáveis de transporte é necessário. “Esquece esse modelo [atual], porque é uma coisa fragmentada. Tem que ter um plano cicloviário para que você consiga sair do Zanaga e ir para o centro. Estudar um plano que tem objetivo não só de passear, mas levar o cara para trabalhar, para estudar”, defendeu Duarte.

O engajamento para tirar do papel a construção desses viadutos e melhorar o transporte público são os principais desafios do próximo prefeito quando o assunto é mobilidade, defende o promotor de Justiça de Americana, Ivan Carneiro Castanheiro, que também aponta a necessidade de um estudo completo de mobilidade urbana.

“Com tais providências será possível reduzir os deslocamentos por meio de transporte individual, reduzindo os congestionamentos em pontos críticos durante os horários de pico”, pontuou o promotor.

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