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ALÉM DO ESPECTRO

Número de alunos autistas quase triplica na rede estadual de Americana

Quantidade de estudantes diagnosticados subiu de 73 para mais de 200 desde 2020; entenda possíveis motivos

Por Ana Carolina Leal

04 de abril de 2024, às 09h20 • Última atualização em 04 de abril de 2024, às 09h53

Emerson e a mãe Marcia (à dir.) encontraram inclusão em escola estadual de Americana - Foto: Marcelo Rocha/Liberal

O número de alunos autistas matriculados na rede estadual de ensino de Americana quase triplicou nos últimos cinco anos. De acordo com a Seduc (Secretaria de Estado da Educação), a quantidade saltou de 73, em 2020, para 207, neste ano.

Um deles é o menino Emerson Coelho do Amaral, de 8 anos. Ele estuda na Escola Estadual Professora Maura Arruda Guidolin, no bairro Campo Limpo. Diagnosticado com TEA (Transtorno do Espectro Autista) nível de suporte 2 aos 5 anos, Emerson também tem paralisia cerebral.

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“Ele frequenta escola regular desde a Emei [Escola Municipal do Ensino Infantil]. Hoje está na escola Arruda Guidolin com auxiliar dentro da sala de aula formada em educação especial”, afirma a mãe do estudante, a vendedora Marcia Regina Ferrer Cantizano, de 45 anos.

A secretaria estadual foi questionada pelo LIBERAL sobre se via alguma explicação no aumento, mas não respondeu.

O defensor público federal e especialista em direitos humanos e educação inclusiva André Naves cita, inicialmente, o crescimento no número de diagnósticos, mas atribui também à visibilidade.

“As pessoas, hoje em dia, estão conhecendo um pouco mais sobre autismo. Antes, o autista ficava escondido da sociedade. A mídia está dando mais espaço para causas autistas”, disse.

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André aponta também a questão da inclusão. “São garantidos o plano educacional individualizado, acompanhamento terapêutico. Isso tudo é possível hoje em dia. É lógico que às vezes é tudo muito precário, mas já existe essa possibilidade. Antes, a escola era um ambiente hostil, exclusivo”, comentou.

O menino Emerson com a mãe, profissionais da escola e a turma que o acolheu – Foto: Marcelo Rocha/Liberal

A legislação assegura aos alunos autistas a presença de um profissional de acompanhamento – também conhecido como auxiliar de educação inclusiva e tutor – junto ao estudante em sala de aula. No caso das escolas particulares, é proibido cobrar qualquer valor a mais nas mensalidades.

A Seduc afirma que, para os estudantes que necessitam de apoio a higiene, locomoção, alimentação e nas atividades escolares, são disponibilizados profissionais de apoio escolar. “O objetivo é garantir o bem-estar do estudante com deficiência ou TEA durante a rotina escolar e fortalecer a autonomia e a liberdade do aluno no ambiente escolar”, informa a pasta.

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Emerson, por exemplo, não consegue se alimentar nem fazer a higiene sozinhos. Aos oito meses, descobriu-se a paralisia cerebral, que afetou a coordenação motora dos membros inferiores. Por conta disso, começou a andar com dois anos e meio.

Além da escola, ele frequenta a Apae (Associação dos Pais e Amigos dos Excepcionais) de Americana desde os quatro meses de vida.

“Ele começou a ir na Apae porque nasceu prematuro, de 29 semanas. E a prematuridade desencadeia várias sequelas. No caso do meu filho, foi a paralisia cerebral e hipermetropia. Também teve hérnia umbilical e inguinal, mas já passou por cirurgia”, conta a mãe.

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Foi durante os exercícios de estimulação na Apae que começaram a surgir algumas dúvidas em torno do comportamento do Emerson. Ele não abria as mãos. Mas as terapeutas acreditavam que era por conta da paralisia. No entanto, conforme ele foi crescendo e desenvolvendo, outros sinais chamaram a atenção, até que veio o diagnóstico de autismo.

Na escola onde Emerson estuda, a mãe diz que o filho é bem acolhido pelos professores e amigos. No entanto, ela diz temer o futuro.

“As crianças o amam, respeitam, dão amor, carinho, atenção. São anjos que acolhem. Mas o adulto, não. Portanto, tenho medo de quando meu filho chegar na fase adulta”, desabafou. Marcia destacou, no entanto, que não medirá esforços para prepará-lo.

Na rede municipal, secretário destaca esforço para inclusão

e Americana tinha até o dia 1º de março deste ano, 286 alunos com TEA (Transtorno do Espectro Autista), 41 a mais que em 2020.

Apesar de a legislação assegurar às pessoas autistas a presença de um auxiliar, o secretário de Educação do município, Vinicius Ghizini, afirma que há casos em que não há necessidade de um apoio exclusivo.

“O TEA é um transtorno de largo espectro, então temos alunos com características diferentes. Eles têm o apoio que os demais alunos também têm, mas é difícil dizer que todos têm um apoio direto porque depende do laudo, do diagnóstico e do tratamento de cada um”, afirma.

Secretário Vinicius Ghizini defende formação sobre o autismo – Foto: Marcelo Rocha/Liberal

O secretário diz que a pasta tem tomado todas as medidas para atender os estudantes com TEA. “Estamos, de fato, nos adaptando porque é o tema do momento na educação e em escala mundial. Tivemos uma formação no ano passado e estamos em tratativa para ter uma formação continuada sobre autismo”, comenta.

De acordo com Ghizini, a Secretaria de Educação dispõe de monitores e cuidadores – número que passou de 15 para 125 – que auxiliam na locomoção, proteção motora, acompanhamento para ir ao banheiro, entre outras necessidades. E também os estagiários de pedagogia, que auxiliam na questão pedagógica, mas não exclusivamente.

“Tem casos mais severos que realmente necessitam [de um auxiliar] e temos atendido. E outros casos em que é possível ter uma responsabilidade compartilhada”, comenta.

Segundo Ghizini, muitas vezes, dependendo do nível de suporte necessário, nem é recomendado um apoio exclusivo. “Temos que trabalhar em uma perspectiva inclusiva e não exclusiva. A perspectiva inclusiva significa trazer para maior normalidade possível garantindo as diferenças”.

Há números sobre o autismo em Americana?

Questionada pelo LIBERAL, a Secretaria de Saúde de Americana informou que por se tratar de um transtorno que não é de notificação compulsória, não é possível saber quantas pessoas autistas há no município.

“Nos Caps (Centros de Atenção Psicossocial), quando o psiquiatra suspeita de TEA, é feito um encaminhamento à Apae para avaliação diagnóstica”, explicou a pasta, em nota.

A Apae de Americana atende, atualmente, 352 pessoas com autismo. Elas chegam até à entidade via Secretaria de Saúde, após decisões judiciais, por meio de convênios médicos ou encaminhadas por serviços como o Cras (Centro de Referência em Assistência Social), Creas (Centro de Referência Especializada em Assistência Social), o Caps (Centro de Atenção Psicossocial), creches e escolas em geral e o Ministério Público.

No SUS (Sistema Único de Saúde) no Estado de São Paulo são tratadas aproximadamente 20 mil pessoas com TEA, de acordo com a Secretaria de Estado da Saúde.

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