Cauê Macris, governador de São Paulo: de leste a oeste

Passagem do deputado americanense Cauê Macris pelo governo do Estado teve agenda cheia; LIBERAL acompanhou o último dia


Cauê Macris estava na cidade certa quando o helicóptero Águia 10, da Polícia Militar, em que viajava pousou por volta de 10h da última quinta-feira no gramado do estádio municipal de Cunha, na região do Vale do Paraíba, a 320 quilômetros de Americana.

O município de 22 mil habitantes é considerado a capital nacional do Fusca, uma das paixões da vida fora da política do deputado estadual americanense.

Na saída do campo, porém, nenhum modelo do tradicional Volkswagen o aguardava para levá-lo ladeira acima até a Santa Casa da cidade, onde faria a autorização de uma verba de pouco mais de R$ 600 mil para custeio e compra de equipamentos.

Após cumprimentar aliados, Cauê embarcou com o ex-prefeito do município em um imponente sedã preto, de vidros escuros. Começava ali o último dia de compromissos como governador em exercício.

Foto: Governo do Estado
No domingo (15), Cauê Macris assumiu o governo do Estado em cerimônia

Pela primeira vez, um político natural de Americana estava no mais alto cargo do Estado. Há cerca de um mês, o governador João Doria (PSDB), de quem Cauê se aproximara durante as eleições à Prefeitura de São Paulo, em 2016, lhe telefonou para contar sobre uma viagem que faria ao Japão e a possibilidade de precisar do correligionário na função executiva.

Isso porque, ao mesmo tempo, o vice-governador Rodrigo Garcia (DEM) também estaria em compromissos no exterior. Seriam sete dias de vacância – que acabaram reduzidos a cinco, depois – nos gabinetes do Palácio dos Bandeirantes.

Segundo na linha sucessória do governo por presidir a Assembleia Legislativa, o tucano, de 36 anos, foi chamado a assumir.

“A tendência é o governador e o vice montarem escalas onde um não pega a escala do outro. É claro que minha relação com o João e o Rodrigo fizeram com que eles tivessem certeza de que eu assumo o governo e dou continuidade à política deles”, explicou Cauê. “É um gesto muito grande, para o Legislativo”, opinou.

Entre o último domingo e esta quinta-feira, Cauê Macris foi a 14 municípios fazer anúncios do Governo do Estado. Viajou de leste a oeste paulista com agendas que começavam no início da manhã e iam até o final da noite em bate-voltas entre capital e interior.

O LIBERAL acompanhou seu último dia de compromissos, que incluiu a viagem a Cunha, um almoço a políticos no Palácio e a vistoria a uma obra habitacional ao lado do prefeito Bruno Covas na periferia de São Paulo

VISITA

“Acho bonito isso, rapaz”, disse o diretor de Cultura de Lagoinha, Amarildo Pereira Marcos, enquanto observava a movimentação em torno da chegada do governador em exercício. À reportagem, disse que tinha vindo para Cunha, cidade vizinha, só para acompanhar a visita. “Será que consigo tirar uma foto com ele?”, questionou.

Amarildo era uma das cerca de 70 pessoas que acompanhavam o discurso de Cauê em um palco montado ao lado da Santa Casa, em uma rua de paralelepípedos.

Foto: Governo do Estado
Cauê visita a Santa Casa de Cunha, onde anunciou liberação de verbas na última quinta-feira (19)

O tucano não era um desconhecido na cidade. Árpád Cserép, um fotógrafo húngaro que vive há 10 anos em Cunha, lembrou de ter recebido um aperto de mão de Cauê no ano passado.

Em 2018, o americanense foi o segundo deputado estadual mais votado em Cunha. Dos 16 mil eleitores, 1.393 o escolheram para representá-los no parlamento paulista. Questionado se daria o voto a Cauê, o húngaro, que não é eleitor no País, foi comedido. “Não sei. Preciso ler mais sobre ele”, admitiu.

Na Santa Casa, o governador em exercício visitou as instalações, observou os recém-nascidos na maternidade e orientou os gestores a como usarem o recurso. Também deu entrevistas à imprensa local citando estatísticas que, horas antes, a bordo do Águia, passara a limpo por meio de um boletim preparado pelo governo.

Foto: João Colosalle/O Liberal
O governador em exercício Cauê Macris a bordo do helicóptero Águia, da PM, sobrevoa a cidade de Guarulhos

Entre apertos de mão, pedidos de ajuda e selfies na Santa Casa, Cauê fisgou um pedaço de bolo de milho no banquete oferecido por comerciantes locais antes de voltar ao sedã e rumar ao estádio para embarcar no Água. Às 12h, estava de volta ao Palácio onde uma rede de televisão já o aguardava para uma entrevista.

AGENDA

O roteiro de Cauê como governador uniu o útil ao agradável, segundo o próprio tucano. Nos cinco dias, o deputado visitou ou anunciou verba para 20 das 25 cidades que lhe deram mais votos nas eleições de 2018.

Em pelo menos 10 delas, Cauê ficou entre os três candidatos a deputado estadual mais votados nas últimas eleições. Foi o que ocorreu em Itanhaém, Conchal, Lucélia, Santo Antônio de Posse, além de Cunha, por exemplo.

“Não fiz e não executei nenhuma agenda daquilo que não estava programado para acontecer”, respondeu o tucano quando questionado pelo LIBERAL sobre a coincidência.

“Por exemplo: estive em Ibitinga, onde fui bem votado [o quarto mais votado], mas entreguei uma obra de R$ 30 milhões. Ninguém pode dizer que aquela obra foi montada para que eu fosse lá entregar”, justificou.

Como governador, Cauê movimentou mais de R$ 200 milhões em investimentos do Estado nos municípios, com a liberação de verbas, assinatura de convênios e início e entrega de obras. Na RPT (Região do Polo Têxtil), apenas Sumaré não teve anúncios do governador em exercício.

ESTILO

A política municipalista é uma marca do americanense. Na volta para São Paulo, Cauê e o também deputado André do Prado (PL), que viajava no mesmo helicóptero, discutiam sobre a necessidade de se fazer política de “pé na rua”, e não apenas nas redes sociais.

“Sempre defendi a descentralização da política. Defendo, por exemplo, o voto distrital misto, porque ele faz com que você, cada vez mais, tenha o umbigo preso naquela região. A posição do Estado e a descentralização de recursos é muito importante”, explicou o tucano.

O estilo de política rende bons resultados, pelo menos nas urnas. Em 2018, Cauê Macris teve os votos espalhados por 539 dos 645 municípios paulistas após uma campanha em que visitou 87 cidades em 45 dias.

Foto: Governo do Estado
Cauê promoveu almoço com autoridades na ala residencial do Palácio dos Bandeirantes, em seu último dia de governo

Gestos do tipo também se fizeram perceptíveis no curto período de Cauê à frente do governo paulista.

Na quinta-feira, o deputado ofereceu na ala residencial do Palácio dos Bandeirantes um almoço a autoridades – pago do próprio bolso, segundo ele.

Na lista de convidados, aliados políticos, prefeitos e vereadores de municípios de pequeno e médio porte do Estado, “parceiros”, conforme a introdução do menu do evento.

FUTURO

No início da noite de quinta-feira, sentado num dos sofás do gabinete de paredes escuras do vice Rodrigo Garcia, de onde optou por despachar, – “o gabinete do Doria é muito chique”, brincou –, Cauê se preparava para se despedir do governo. Antes, na mesma noite, ainda firmaria convênios com prefeituras do interior.

A rápida ascensão política coloca o americanense, vez ou outra, na especulação de nomes para a sucessão no governo estadual. Questionado sobre se a cadeira no Palácio dos Bandeirantes o atraía, o tucano, com a voz rouca, desconversou. “Cada coisa em seu momento”.

BASTIDORES

O almoço oferecido pelo governador em exercício Cauê Macris na quinta-feira, seu último dia no cargo, teve a presença de velhos aliados dos bastidores da política.

Na ala residencial do Palácio dos Bandeirantes, a mesa principal, onde Cauê sentara na ponta, era ocupada por Cleber Mata, secretário de Comunicação do Estado e ex-assessor de Cauê; Matheus Granato, diretor de comunicação da Assembleia Legislativa; Joel Oliveira, secretário na Assembleia e lideranças do PSDB em Santa Bárbara; Roger Willians, vice-prefeito de Americana e chefe de gabinete de Cauê; e Antonio Carlos Rizek Maluf, o Malufinho, secretário da Casa Civil do Estado.

PERRENGUES

Ainda na quinta-feira, o LIBERAL acompanhou uma visita de Cauê a uma obra habitacional no Grajaú, periferia de São Paulo.

A agenda tinha a participação do prefeito Bruno Covas e não foi das mais fáceis. Para acessar o apartamento modelo, era preciso subir uma ladeira de terra de cerca de 200 metros, úmida por uma chuva fina que caiu sobre a cidade durante a tarde.

Foto:
Cauê Macris e o prefeito de São Paulo, Bruno Covas, visitam obra habitacional na periferia de São Paulo

Cauê e comitiva encararam a subida ao lado de políticos como João Jorge e Ricardo Trípoli, que chegou esbaforido.

Na volta, uma assessora questionou Cauê e Bruno sobre como queriam voltar para a parte de baixo. “Vamos de carro, né, Bruno”, decretou o americanense.

ROTEIRO

1º dia de governo, domingo (15): visita a Itanhaém e Bertioga

2º dia de governo, segunda (16): visita a Americana, Nova Odessa, Santa Bárbara e Hortolândia

3º dia de governo, terça (17): visita a Capivari, Conchal, Aguaí e Santo Antônio de Posse

4º dia de governo, quarta (18): visita a Osvaldo Cruz, Lucélia e Ibitinga

5º dia de governo, quinta (19): visita a Cunha

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