Joca: um jornal feito para pequenos leitores

Paixão nascida na infância transforma especialista em finanças na fundadora de um dos únicos periódicos voltado ao público infantil; leia a entrevista


A tragédia que se abateu sobre Brumadinho (MG) no início deste ano chocou o País. O rompimento da barragem causou centenas mortes e devastou fauna e flora. O assunto foi levado às escolas paulistanas nas turmas de 4º e 5º ano.

Em vez de traumas e medo, a notícia lida no Joca (Jornal da Criança e do Adolescente) provocou uma corrente de solidariedade: cerca de três mil cartas foram enviadas às crianças da cidade mineira, com mensagens de apoio.

Foto: Divulgação
Stéphanie Habrich

“Uma dessas cartas continha sementinhas de frutas para que a criança que as recebesse pudesse plantar e comer as frutas de novo”, relata Stéphanie Habrich, diretora-executiva e fundadora do Joca, um dos únicos jornais voltados ao público infantil no Brasil.

O Joca foi criado em 2011 a partir de um desejo de Stéphanie em compartilhar sua paixão pelos periódicos que leu na infância. Com 10 mil assinantes espalhados pelo Brasil, o jornal está em 60 escolas e, este ano, chegou aos alunos da rede pública da cidade de São Paulo.

Na opinião desta especialista em finanças, o Joca é essencial para conectar crianças e jovens à realidade e colaborar com a formação de cidadãos atuantes na sociedade em que vivem. Confira os principais trechos da entrevista à Revista L.

Como nasceu o Jornal Joca?

Sou franco-alemão nascida na Alemanha. Vim para o Brasil com 6 anos e meus pais, para manter a língua, assinavam revistas infantis europeias para mim. Eu adorava aquilo, era o meu tesouro, e até hoje, aos 48 anos, tenho várias guardadas. Quando adulta, fui trabalhar em banco e me mudei para Nova York. Morei lá dez anos e, quando houve o 11 de Setembro [Stéphanie estava em uma das torres quando aconteceu o ataque], caiu a minha ficha. Eu queria fazer algo que tivesse mais sentido para minha vida. Quando eu voltei ao Brasil, em 2006, fundei a editora Magia de Ler e dei início a duas revistas infantis, a Toca e a Peteca. Em dezembro de 2011, com mais experiência, eu fiz o Joca. Comecei pelas escolas particulares. Em pouco tempo, o Joca passou a fazer parte do material obrigatório dos alunos, mas meu maior sonho era levar o jornal às escolas públicas, onde estão 80% das crianças. Consegui incentivo através do ProAC e doei jornais para 50 escolas do Estado de São Paulo. O feedback foi muito legal: as escolas que trabalharam o jornal nas salas de aula relataram melhora de 20% nas notas do Saresp. Em março deste ano, consegui que a prefeitura de São Paulo comprasse 15 jornais por escola, para trabalhar com os alunos. Ainda não é o ideal, mas já estamos caminhando.

Existe algum assunto que o Joca não aborda?

Falamos sobre tudo. Meio ambiente, esportes, política, assuntos nacionais e internacionais. Abordamos de tudo no Joca com a diferença que a linguagem é voltada para crianças. A missão do jornal é contribuir com a formação do aluno enquanto cidadão, naquele que recebe a informação e a transforma em ação. Por exemplo, quando falamos dos refugiados da Síria, uma escola promoveu um brechó e o dinheiro arrecadado com a venda das roupas foi doado aos refugiados que estavam em São Paulo. Quando abordamos obesidade infantil, uma escola promoveu olimpíadas entre os alunos.

Como são selecionadas as notícias que vão para o Joca?

Temos uma equipe de jornalistas e pedagogos trabalhando conosco e cada um traz uma temática, discutimos sua importância para o jornal naquele momento. É importante que sejam notícias atuais, assuntos que os pais conversam em casa, porque desperta o interesse da criança. Muitas vezes os pais evitam falar de certos assuntos por achar que a criança não entende, que vai ficar com medo, mas é justamente por isso que se deve falar com ela. Quando os pais falam com os filhos sobre os assuntos que estão na mídia, eles ajudam a baixar a ansiedade nas crianças, por exemplo, quando teve os atentados na França [2015], muitos pensaram que terroristas poderiam atacá-los a qualquer momento, tiveram medo. Evitar falar sobre algo não é solução quando queremos uma sociedade de cidadãos conscientes e atuantes, e o jornal faz a ponte entre o aluno e o mundo real.

Foto: Divulgação
Crianças com o Joca

O Joca possui versão impressa e virtual. As crianças estão tão ligadas ao universo online, porque investir no papel?

As crianças precisam ter contato primeiro com o físico, ver e pegar o papel, sentir que aquilo é real, para depois migrar para o online, o abstrato. O papel traz a realidade para perto do aluno enquanto na internet, tudo parece tão longe. Outro detalhe é que o Joca é todo pensado para as crianças e elas percebem isso ao pegar a versão impressa. Essa cultura que falta no Brasil, falar com a criança para que ela se sinta valorizada, se sinta parte importante da sociedade e queira agir.

E como incentivá-la a pegar o jornal e ler?

A escola ajuda muito nesse sentido, mas os pais devem fazer isso em casa. Eles são exemplo para os filhos. Se o pai está no celular, o filho vai para o celular. Se o pai lê o jornal, o filho lê o jornal. Não é deixar o Joca aberto na frente da criança e esperar que ela se interesse. É preciso ensinar, sentar e ler com ela. ‘Olha filho, o Trump quer fazer um muro entre EUA e México. O que você acha disso? É justo ou não?’. Temos relatos de pais que se disseram mais próximos dos filhos após o Joca, porque passaram a conversar mais. Isso é carinho e o gosto pela leitura deve ser ensinado, não é milagre.

Como ensinar a criança a identificar uma fake news?

Quanto mais ela lê, mais repertório terá para duvidar de certas coisas que se ouve e lê por aí. É assim que ela se protege contra as fake news. Se ela não se sentiu bem com uma notícia, ela vai buscar referências, ‘Quem falou isso? Um cientista ou um blogueiro? Quem escreveu? Um site qualquer ou um jornal sério?’. É dessa maneira também que evitamos a propagação dessas notícias falsas que só desinformam e causam pânico. Tudo isso é um aprendizado e se faz através da leitura, não há segredo.

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