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Revista L Educação

O poder transformador da Educação

Em entrevista, professor Celso Antunes aponta caminhos para escolas e famílias na busca por uma aprendizagem significativa

Por Isabella Holouka

16 Novembro 2021, às 08h10

Nascido em 1937 em São Paulo, o professor Celso Antunes é formado em geografia, especialista em inteligência e cognição, e mestre em ciências humanas pela USP (Universidade de São Paulo). Merece o título de Professor – com a letra maiúscula – com sua extensa trajetória como educador, autoria de mais de 60 livros didáticos e outras 200 obras sobre educação, traduzidas em diversas línguas, além da realização de palestras em todo o Brasil, e contribuição em entidades importantes.

Ativo on-line, principalmente pelas redes sociais e blog, ele usa uma linguagem simples e objetiva para refletir sobre a importância da educação e o papel dos educadores diante dos desafios da atualidade.

Em entrevista à Revista L Educação, Celso ressalta o poder transformador para crianças e adolescentes de uma aprendizagem significativa, e disserta sobre a relevância dos professores enquanto agentes transformadores. Também defende mudanças para que os educadores continuem preparando os cidadãos para o futuro e incentiva as famílias e escolas na busca por se complementarem e traduzirem.

Ativo nas redes sociais, Celso Antunes usa uma linguagem simples e objetiva para refletir sobre a importância da educação – Foto: Divulgação

Do que é feita uma aprendizagem significativa e realmente transformadora?
Uma aprendizagem mecânica é apoiada na memorização, na decoração, na capacidade de repetir e, naturalmente, propor respostas para a conclusão de perguntas. Mas uma escola que segue uma linha significativa nos leva a compreender a significação. Não é apenas repetir como um papagaio ou um gravador, mas interpretar, perguntar, ter curiosidades, se relacionar, estabelecer a descoberta do mundo, que sempre começa no lar e em uma escola. Não é apenas ser um coadjuvante desse ambiente.

E como proporcionar isso aos estudantes no contexto que estamos vivendo, com as dificuldades trazidas pela pandemia?
Eu creio que o primeiro passo seja refletir o estado em que estamos, e como vivíamos antes da pandemia se instaurar. Reparar que não é apenas o temor pelo vírus fatal, mas há toda uma mudança de contextos, de lugares, de ambientes, de comidas e relacionamentos. Isso é suportável porque é um momento, há uma transição, ninguém está sugerindo que a partir de agora o mundo vai mudar e as frias relações convencionais continuarão a existir. Levando isso para o plano da escola, compreender que ela não é apenas um espaço onde a criança aprende, mas é um espaço onde a criança compreende e se transforma. E fazer nesse espaço o desenvolvimento das interrogações, das perguntas, da busca, mesmo quando não nos pareçam óbvias as respostas.

Quais qualidades definem uma boa escola para a criança?
Uma grande escola é uma escola que tem excelentes professores. Agora, excelentes professores são profissionais atentos ao processo de desenvolvimento de uma criança, atentos ao processo de ganho da significação, ao processo de compreender que um diálogo não é apenas uma frase para se memorizar, mas uma maneira de se estabelecer a vida. E quando se criam professores com este viés – seja na educação infantil, no ensino fundamental ou médio – se está buscando aquela grande escola, que sonhamos um dia ter em nosso País.

E quando nos voltamos ao adolescente, que outras características devem ser procuradas pelas famílias?
Eu creio que a adolescência é uma fase maravilhosa da vida, porque é uma fase em que qualquer contexto em que estejamos implica em mudanças comportamentais. O adolescente não está ali para responder ordens, mas para refletir, pensar, argumentar, deduzir, relacionar. Se a escola, e também a família, não vão progressivamente preparando ele para isso, nós teremos seres quase robotizados. Precisamos de transformação nas suas perguntas, buscas nas suas respostas e afeto nas suas procuras.

O ensino híbrido se mostrou uma maneira de continuar a aprendizagem durante a pandemia da Covid-19. Que outras mudanças as escolas precisarão colocar em prática para continuar desempenhando seu papel, principalmente quanto à maneira de se relacionar com o aluno?
O professor no Brasil é ainda visto como uma enciclopédia ambulante, um depósito de conhecimentos dentro daquela disciplina escolar que, em sequências racionais, ele vai passar aos alunos. Ele não é visto como um agente transformador, assim como a educação não é vista como algo que vai ‘fazer do couro, um sapato’. Então, quando se alcançar essa ideia de que o professor é um agente imprescindível ao processo de transformação, e estiver atento a ele, se perceberão qualidades excepcionais. Grandes professores não são aqueles que ensinam o beabá, a memorização, ou apenas aquilo que os livros trazem, mas que abrem os olhos do aluno para um outro enxergar, um outro perceber e, enfim, uma outra maneira de viver.

E quanto às notas? As avaliações, neste contexto de pandemia e pós-pandemia, ganharam uma importância diferente?
Sim, e talvez possamos um dia pensar que a nota não é a expressão da transformação, apenas um código que vai designar os níveis de ensino que se tem. A verdadeira transformação ocorre no dia a dia, no cotidiano. Todos que estão na escola são educadores, e o fermentar, com entrosamentos e trocas, é que poderá dar o sentido da verdadeira transformação, e formação do caráter do aluno. 

Trajetória do professor Celso Antunes como educador inclui mais de 60 livros e outras 200 obras sobre educação – Foto: Divulgação

Qual é o papel da escola no atual contexto social e político brasileiro?
Uma escola é constituída por um corpo docente, que não é um punhado de profissionais, cada um com um sentido, uma meta e divulgando aquilo que, de certa forma, lhe cabe na programação. A ideia é que o corpo docente seja aquilo que complementa o processo feito por alguns. Essa linha de formação significa preparar os alunos efetivamente para o amanhã, e para os desafios que os tempos nos apresentam, com um ensino mais imparcial e não banalizado pela expressão da nota apenas, mas pela expressão da interpretação dessa transformação, com passo a passo no momento em que ela ocorre. A criança aprende com aquilo que o pai fala, aquilo que a mãe fala, o professor fala, mas ela aprende também com os programas de televisão que ela assiste, o pátio que ela frequenta no intervalo, e quando ela tem ao seu lado alguém que chama a atenção para esses espaços relacionais, está realmente havendo uma aprendizagem significativa – que infelizmente não é tão comum no Brasil, como naqueles países que estão no topo da qualidade mundial de educação.

Como a família pode ajudar em contextos em que o estudante não reconhece a importância da educação, e está desanimado com a escola?
Em toda família deveria existir a hora da conversa, do papo, antes ou depois do jantar, em que se reúnem para conversar sobre o dia a dia, ter as perguntas que naturalmente se levantam, falar sobre amizade, amor, desprezo, as relações humanas. Quando esse espírito estiver presente, a criança estará também diante de grandes professores. Não são os profissionais responsáveis por transmitir conteúdos conceituais em história, geografia, ciências, matemática, mas sim criaturas que estão modelando novas vidas, para seguirem a independência. Nesse papel, escola e família se completam e se traduzem, em momentos cruciais e essenciais do viver. Família e escola não são complementares, mas precisam se manter e ampliar. 

E quando o estudante questiona para que serve a escola?
Os saberes são fluidos. O que sabemos e consideramos válido hoje, provavelmente não será amanhã, ou não será em outra latitude. Mas quando a criança ganha uma perspectiva da transformação que ocorre com ela, em todos os sentidos, e quando isso é explorado pela escola e pela família, você terá realmente uma educação em linhas altamente significativas. Eu não sei como será o nosso amanhã, mas eu sei que ele será no momento em que todos os responsáveis por algum processo educacional – pais e professores – compreendam que o papel deles não é repetir conteúdos conceituais, mas ensinar a viver, ensinar porque a água quente fere a mão, ensinar a se cuidar e fazer de cada minuto da vida um momento de aprendizagem significativa. 

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