Cultura de colônias muda perfil e resiste ao tempo em S.Bárbara

O que já funcionou como uma “minicidade” ainda abriga trabalhadores em um contexto bem diferente


Ainda distante da industrialização e tendo como motor da economia a produção de açúcar, Santa Bárbara d’Oeste viveu no início do século passado a popularização das colônias dentro das usinas existentes no município naquele período. Cada uma delas tinha vida própria e funcionava como uma cidade. Com outras características, a cultura de colônias resiste ao tempo em Santa Bárbara.

A aposentada Edna Antonio Brocatto, hoje com 68 anos, viveu toda a infância dentro das dependências da Usina Santa Bárbara. O pai era maquinista e a mãe atuava no corte de cana.

Foto: Leonardo Oliveira / O Liberal
Edna viveu toda a infância dentro das dependências da Usina Santa Bárbara

A rotina após ir à escola, envolvia andar de bicicleta, ver jogos de futebol do Causb (Clube Atlético Usina Santa Bárbara), brincar e, eventualmente, assistir filmes no cinema local. “Como eu tenho saudade daquele tempo. A tranquilidade, a paz, a beleza, até o mundo ficou diferente, só quem morou lá sabe o que significa isso”, disse.

Aos 2 anos, chegou a vencer um concurso de miss promovido pela direção da usina. Ela lembra ainda a grande oferta de opções comerciais. Açougue, farmácia, bar, dentista, creche e leiteria – tudo isso dentro do local, cercado por muros e monitorado 24 horas por funcionários.

A criação de casas aos trabalhadores das usinas se deu pela dificuldade em conseguir funcionários para a produção. Muitos chegavam de fora e, sem terem onde ficar, ganhavam uma propriedade dentro da usina. Era comum a presença de mais de mil habitantes em cada usina.

O encerramento das atividades da Furlan, em 2018, decretou o fim da era das usinas, mas a cultura de colônia resiste.

Parte das terras da antiga Cillos hoje pertence à Usina Bom Retiro, de Capivari, que adquiriu o espaço nos anos 80. Dez famílias de trabalhadores residem lá. Eles se deslocam diariamente à cidade vizinha para trabalhar.

O mais antigo é o fiscal de mão de obra José Arimatea, de 75 anos. Mineiro, chegou a Santa Bárbara para trabalhar na usina nos anos 80 e desde então mora no mesmo “canto”, como ele mesmo gosta de chamar.

“(Antigamente) a gente tinha dois litros de leite por família por dia, não pagava nem água, nem luz, nem aluguel, todo sábado a condução vinha, pegava uma nota e trazia a compra que você precisava do armazém”, conta.

Hoje os insumos não são mais doados, a segurança inexiste e as opções culturais se foram com a desativação do campo de futebol, escola e até mesmo a capela onde eram celebradas missas semanais. Apesar disso, trabalhadores ainda mantém viva a cultura de colônias.

Na Usina Santa Bárbara, as casas foram cedidas temporariamente àqueles com ligação com o Grupo Bertol, que atua no desenvolvimento de empreendimentos comerciais e é dono do terreno onde cresceram as colônias, mas não há ligação com a usina desativada em 1995. Sete residências estão ocupadas.

Casal unido pela lavoura se mantém na Cillos

Ainda que com uma outra característica, a cultura de colônias também se faz presente nas terras da família Cillos. Apesar da desativação da usina em 1979, membros da família dona do espaço ainda vivem no local, em um condomínio fechado construído para abrigá-los. Os funcionários contratados para atuar na estrutura imobiliária podem ficar nas casas onde os antigos grupos de funcionários moravam na época da produção de açúcar.

É o caso da faxineira Adalgiza Peres, de 53 anos. Ela cresceu trabalhando no corte de cana, nos anos 80, já quando a Bom Retiro era dona de terras da Cillos. Lá, conheceu seu marido, casou e teve filhos. Hoje, familiares trabalham no condomínio. O marido e a filha são os responsáveis pela segurança dos imóveis; o genro, da portaria. “Lá na roça era muito sofrido. Hoje é uma delícia”, conta Adalgiza.

Nascimento e morte das usinas barbarenses:

Santa Bárbara: de 1914 a 1995
Cillos: de 1927 a 1979
Furlan: de 1928 a 2018
Azanha: de 1935a 1972

LIBERAL VIRTUAL Acesse agora