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DENÚNCIA

Defensoria Pública apura suposto racismo na Festa Confederada em Santa Bárbara

Alegação da deputada Erica Malunguinho (Psol) é que uso da bandeira confederada no evento seria uma apologia ao racismo

Por Heitor Carvalho

27 nov 2020 às 09:09 • Última atualização 27 nov 2020 às 11:52

O Núcleo Especializado da Defesa da Diversidade e da Igualdade Racial, da Defensoria Pública de São Paulo, vai apurar uma denúncia da deputada Erica Malunguinho (Psol), contra a Festa Confederada realizada anualmente no Cemitério do Campo, em Santa Bárbara d’Oeste.

Segundo a assessoria da deputada, o motivo da denúncia, seria “apologia aos símbolos ligados a grupos racistas e supremacistas brancos nas cidades Santa Barbara d’Oeste e Americana, relacionados a organização do evento”, como a bandeira confederada.

Danças típicas sobre a bandeira confederada: festa deste ano foi adiada por conta da pandemia – Foto: Prefeitura de Santa Bárbara / Divulgação

Paralelamente, foram solicitadas informações das secretarias de Cultura e Fazenda do governo paulista sobre investimentos públicos na realização da festa. O requerimento também questiona quais políticas públicas para promoção da igualdade racial já receberam ou têm, atualmente, financiamento público nas duas cidades.

“A História oficial do Estado brasileiro ainda reproduz narrativas que excluem as experiências das populações negras e indígenas. Esta manifestação do racismo estrutural cria barreiras para a efetivação plena da democracia”, diz a deputada.

A Festa Confederada, cuja 32ª edição ocorreria em abril, foi adiada devido à pandemia do novo coronavírus (Covid-19).

O evento reúne centenas de pessoas e celebra a tradição dos primeiros imigrantes vindos dos estados do sul dos Estados Unidos após a guerra civil ocorrida naquele país entre 1861 e 1865, também conhecida como Guerra de Secessão, visto que a região sul estadunidense, os chamados Estados Confederados da América, buscava independência do restante da União.

Bandeira
A bandeira que causa controvérsia, no entanto, nunca foi a bandeira oficial dos Estados Confederados. A versão questionada por grupos antirracismo, conhecida como “Cruz sulista”, foi rejeitada como a bandeira nacional da confederação em favor de outra, conhecida como bandeira das “barras e estrelas”.

Entretanto, ela acabou adotada como uma bandeira de guerra pelo Exército da Virgínia do Norte, a principal força militar confederada, tornando-se um símbolo do nacionalismo sulista.

Depois do final do conflito, ela passou a ser usada em celebrações e encontros de soldados, mas também foi adotada por grupos racistas de supremacistas brancos, como o Ku Klux Klan.

Desde então, a bandeira passou a ser relacionada com o racismo e a ser alvo de protestos. Recentemente, por exemplo, depois de 126 anos, o Mississippi, o último estado que ainda ostentava o símbolo, aprovou uma nova bandeira em um referendo realizado em paralelo com as últimas eleições presidenciais norte-americanas.

O evento é alvo de críticas por parte da Unegro (União dos Negros e Negras Pela Igualdade) há quatro anos, justamente pelo uso do estandarte. Para a historiadora, pesquisadora e integrante da Unegro, Cláudia Monteiro da Rocha Ramos, os símbolos confederados têm enorme conotação racial.

“A causa da Guerra Civil nos Estados Unidos foi a manutenção do regime escravista sulista. A bandeira e os trajes da vestimenta confederada usados na festa causam um grande desconforto à população negra que tem nesses símbolos uma carga de dor e descaso para com a memória dos seus antepassados”, afirma.

Procurada pelo LIBERAL, a FDA (Fraternidade Descendência Americana), associação que organiza o evento, não deu indícios de que pretende abolir o uso da bandeira.

O presidente da entidade, João Leopoldo Padoveze, não quis comentar o assunto.

“Neste momento não temos nada para dizer sobre a festa. Não posso opinar [sobre a denúncia] porque desconheço essa acusação. Não fui notificado para poder me posicionar sobre”, escreveu.

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