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Americana e as epidemias

Pandemia da Covid-19 é mais letal que da de H1N1 em Americana

H1N1 chegou a Americana em 2009 e já matou 26 pessoas desde então; semelhante à do coronavírus, pandemia foi menos letal que a Covid-19 na cidade

Por Marina Zanaki

31 Maio 2020 às 08:41

Febre, dor de garganta, tosse e dores no corpo que podem evoluir para um quadro de insuficiência respiratória grave. A descrição dos sintomas e da principal complicação do H1N1 é semelhante ao novo coronavírus, causador da Covid-19.

A empresária Bruna Veronica Cardoso, de Americana, hoje com 33 anos; em 2009, ela passou 10 dias internada em uma UTI com H1N1 – Foto: Marcelo Rocha / O Liberal

Apesar de serem doenças parecidas, há alguns aspectos que as diferenciam. Em uma escala global como a pandemia, esses detalhes podem ser decisivos na dimensão do problema enfrentado.

O H1N1 surgiu em 2009, no México, em uma criação de porcos. Em questão de meses, se espalhou por 200 países e chegou a Americana.

Naquele ano, na cidade, 84 pessoas desenvolveram quadro grave e precisaram ser internadas, e quatro morreram em decorrência da doença.

Atualmente, em dois meses, o coronavírus já matou sete pessoas na cidade, mais do que a pandemia de H1N1 matou ao longo de 2009 inteiro.

Ainda não há estudos conclusivos que indicam qual doença é mais perigosa, mas os indícios apontam que a Covid-19 pode hospitalizar e matar mais porque se transmite mais rapidamente e para mais pessoas.

A história de como a pandemia do H1N1 afetou Americana em 2009 é a primeira de uma série de três reportagens sobre a relação da cidade com as epidemias.

Nos próximos domingos, o LIBERAL reconta o surgimento da dengue e o episódio de impaludismo (malária) no início do século passado.

APARECIMENTO
O primeiro caso de H1N1 em Americana foi confirmado no dia 22 de julho, quando cidades da região já discutiam medidas como a prorrogação das férias escolares. A paciente era uma mulher de 40 anos.

Médico infectologista em Americana na época, Arnaldo Gouveia Junior diz que o H1N1 tem um aspecto cruel pela alta incidência de complicações em gestantes.

e crianças. Ele lembra que chegou a contrair o vírus em 2009 possivelmente enquanto procedia a intubação de uma gestante infectada.

Na época, nenhuma grávida morreu por conta doença, que matou, porém, uma criança de 2 anos e um adolescente de 15 na cidade.

A contaminação dos profissionais de saúde também era uma das preocupações envolvendo a H1N1, assim como hoje em relação à Covid-19.
O infectologista teve apenas uma gripe e precisou ficar alguns dias afastado do trabalho. Contudo, lembra que houve mortes de médicos em cidades próximas.

Além dos efeitos da doença em si, outro aspecto marcante da pandemia de coronavírus tem sido o isolamento social, necessário por conta da alta transmissibilidade da doença. Estima-se que uma pessoa doente possa transmitir o vírus para outras três.

Vacina contra a gripe H1N1 hoje é distribuída em campanhas nacionais na rede pública – Foto: Marcelo Rocha / O Liberal

Durante a pandemia de H1N1, houve interrupção de atividades que promoviam aglomeração, mas o isolamento social não foi uma obrigação.
Isso se explica, segundo a professora do curso de Enfermagem da FAM (Faculdade de Americana), Grace Pfaffenbach, pois a taxa de transmissão do H1N1 é de cerca de 1,5, ou seja, cerca da metade da capacidade de transmissão estimada do coronavírus.

REMÉDIO
“O médico falou que se eu demorasse mais um pouquinho eu morria na minha casa”. O depoimento é da empresária Bruna Veronica Cardoso, de 33 anos, que contraiu H1N1 em 2009.

Moradora de Americana, ela ficou 10 dias internada em uma UTI em Campinas.

Bruna diz acreditar que só sobreviveu à doença porque os médicos foram rápidos no diagnóstico e iniciaram o uso do medicamento Tamiflu imediatamente.

Por ser de grupo de risco, Bruna estava preocupada com a doença e buscou a vacinação logo que ficou disponível. Contudo, dois ou três dias depois de se vacinar, ela começou a apresentar os sintomas, coincidentemente.

O H1N1 é uma variação do vírus Influenza, para o qual já existia medicamento no mercado e vacina na época da pandemia. O imunizante precisou passar por uma adaptação para incluir a cepa do novo vírus, mas rapidamente foi possível proteger os grupos mais vulneráveis à doença.

“Em alguns meses, já se tinha vacina e medicamento. A pandemia de H1N1 conseguiu ser controlada rapidamente, e mesmo assim ela durou dois anos”, recorda a professora Grace.

Arnaldo Gouveia relembrou sobrecarga de leitos, mas disse que não chegou a ter colapso na cidade – Foto: Prefeitura de Americana – Divulgação

LEITOS
O infectologista Arnaldo Gouveia relembrou ao LIBERAL que, em 2009, houve sobrecarga de leitos de UTI na cidade, mas não houve colapso do sistema de saúde.

A professora Grace atuava na gestão do HC (Hospital das Clínicas) da Unicamp na época da pandemia e viu de perto a sobrecarga no
sistema de saúde.

O hospital, que hoje é referência na região para receber pacientes em estado grave com coronavírus, enfrentou superlotação na pandemia do H1N1.

“Não eram esses números tão grandes na época, e mesmo assim foi bem complicado. O HC ficou lotado, suspendeu cirurgias eletivas e só atendia pacientes na urgência. Não teve colapso, mas houve superlotação. Foi criada uma enfermaria só para as crianças com H1N1”, recorda a profissional.

MUNDO
Não são apenas as doenças que são diferentes – o planeta também passou por muitas transformações nos dez anos que separam as duas pandemias.
Em 2009, o mundo já conhecia a internet, mas em 2020 ela é um dos principais atores sociais, e influencia a forma como a sociedade
lida com a doença.

Gouveia aponta que uma das principais diferenças entre a pandemia do coronavírus e de H1N1 é a velocidade de circulação das informações.
Por um lado, a classe médica atualmente consegue ter acesso a estudos internacionais com mais rapidez.

Por outro, mais negativo, na avaliação do médico, é que muitas informações acabam circulando na internet e gerando discussões entre leigos – o que por sua vez contribui com a desinformação.

“Antes, era mais claro o que era fonte oficial e leiga. Hoje é tudo misturado, e mesmo bate boca dentro de congressos, de mesas redondas, virou debate na internet. Você vê pessoas deixando de discutir aspectos técnicos para entrar em questões pessoais que não têm nada a ver”, criticou o infectologista.

Mais letal, novo surto matou 13 em Americana

Desde seu aparecimento em Americana, o vírus H1N1 já provocou 484 internações e matou 26 pessoas. O ano com maior mortalidade da doença foi 2016, quando 13 pessoas morreram em um novo surto. Entre as vítimas, estava o secretário-adjunto de Educação, Wellington Zigarti.

O ex-secretário-adjunto Wellington Zigarti – Foto: Marcelo Rocha / O Liberal

Formado em direito, geografia, pedagogia e gestão, o professor fazia parte do grupo de risco para a doença – era obeso – e faleceu no dia
28 de março.

Zigarti ficou internado por uma semana em um hospital privado da cidade. Além de H1N1, doenças como pneumonia e leptospirose também foram investigadas. Contudo, um laudo do Instituto Adolfo Lutz comprovou que sua morte foi provocada pelo H1N1.

Ele se contaminou antes mesmo do período considerado crítico para a doença, que são os meses frios, e antes da campanha de vacinação contra gripe.

Irmã do então secretário, a nutricionista Thaisa Zigarti Feltrin diz que Wellington também não havia recebido a dose no ano anterior.

Desde a morte do irmão, a nutricionista conta que a família toma a vacina contra gripe todo ano. Em conversa com o LIBERAL, ela disse acompanhar com preocupação o avanço do coronavírus e se mostra indignada com a falta de cuidados da população frente à doença.

“O coronavírus tem taxa de contágio muito maior que H1N1, mas quando escuto que é só uma gripezinha, que não vai acontecer, que é questão política, eu fico muito brava. Eu vivi isso, sei o que é perder alguém da família para uma doença parecida. É muito rápido. Sei o que é entrar na UTI e não ver melhora, só piora”, disse a nutricionista.

Enquanto ainda não há um imunizante para o coronavírus, ela e a família têm adotado os cuidados de isolamento social, higienização e uso de máscaras.

“Acho que todo mundo devia ter mais conscientização. Não estou no grupo de risco, mas alguém da minha família está, posso pegar e passar para alguém e essa pessoa vir a falecer”, cobrou a nutricionista.

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