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Série

Debora Bloch vive professora de ensino noturno em ‘Segunda Chamada’

Por Agência Estado

03 set 2019 às 07:00 • Última atualização 03 set 2019 às 10:18

Conhecida por se dividir entre dramas e comédias, entre heroínas e vilãs, Debora Bloch foi presenteada com um novo desafio. Na série da Globo em coprodução com a O2 Filmes, Segunda Chamada, de Carla Faour e Julia Spadaccini, prevista para estrear em outubro, Debora interpreta Lúcia, professora de Língua Portuguesa que dá aulas à noite para jovens e adultos que sonham em terminar os estudos e conquistar uma vida melhor.

Além de enfrentar as adversidades do dia a dia numa escola pública, Lúcia precisa lidar com uma tragédia pessoal. Para isso, encontra forças na relação com seus alunos – e na luta para que eles superem barreiras – e no apoio de outros mestres: o diretor Jaci (Paulo Gorgulho); Sônia (Hermila Guedes), professora de História e Geografia; Eliete (Thalita Carauta), professora de Matemática; e Marco André (Silvio Guindane), professor de Artes.

“Os professores de uma escola junto com a direção são uma equipe de trabalho, como em qualquer outro lugar. Eles estão ali juntos enfrentando os problemas que acontecem na escola”, comenta a atriz, de 56 anos, em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo, em São Paulo, onde as gravações foram realizadas – uma antiga escola que está fechada há anos foi uma das locações usadas na série. Com uma trama realista – assim como a bem-sucedida Sob Pressão -, Segunda Chamada conta histórias de professores e de alunos.

Com direção artística de Joana Jabace, traz também no elenco nomes como Carol Duarte, Felipe Simas, Mariana Nunes, Nanda Costa, Linn da Quebrada, Otávio Müller, Marcos Winter e José Dumont. Debora fala sobre sua personagem e a importância da educação.

Seu trabalho mais recente na TV foi como Rosinete em Onde Nascem os Fortes (2018), e a professora Lúcia, de Segunda Chamada, é completamente diferente dela. São realidades distintas…

Aquela mulher de Onde Nascem os Fortes era de uma outra realidade, casada com um homem rico, que não trabalhava, vivia no sertão da Paraíba. E agora a gente veio para a periferia de São Paulo. E a Lúcia é uma professora, uma personagem que a gente conhece bem, que trabalha muito.

Imagino que para você é recompensador esses saltos de interpretação.

Com certeza, porque a tendência é sempre você ser chamada para fazer papéis parecidos. Vejo as escalações, as pessoas sempre tendem a te colocar em algum formato, em algum tipo de personagem, e o barato do ator é exatamente o contrario: é você poder entrar em peles diferentes, em universos diferentes. E, no caso dessa personagem, que é uma professora de escola pública, da Eja, que é Educação de Jovens e Adultos, de ensino noturno, tem uma realidade diferente. É um papel para o qual normalmente eu não sou muito convidada para fazer. Então, para mim, é muito interessante.

Assim como Sob Pressão, esta é uma série realista também.

É, pode ser primo de uma certa maneira, porque as duas séries tratam de assuntos muito básicos e fundamentais para essas pessoas de baixa renda, que são tão desassistidas nesse sentido. As políticas públicas de educação e de saúde são muito precárias. Não é de hoje que é assim no Brasil. Acho que as séries dialogam nesse sentido, cada uma num assunto. No caso de Sob Pressão, é a saúde, e a gente é a educação mais voltada para jovens e adultos.

Sob Pressão é fiel à realidade, porque tem um consultor que a conhece bem. Em Segunda Chamada também é assim?

Na verdade, não sei como é com as autoras, acho que elas têm um trabalho de pesquisa, sim. Inicialmente, a série surgiu com a peça do Jô Bilac, Conselho de Classe. O embrião foi essa peça, que é sobre um conselho de professores de escola pública. Só que, na série, evoluiu para o ensino noturno, de adultos, e vai para além dos professores, e acompanha histórias dos alunos também. Na minha preparação, visitei algumas Ejas. Primeiro, visitei uma Eja na Maré, lá no Rio, porque tenho uma relação com as Redes da Maré já de muitos anos. Lá, conversei com as professoras, os alunos, assisti às aulas, e depois chegamos a ir a uma outra Eja em São Paulo. Teve um trabalho de se aproximar mesmo dessa realidade que a gente conhece muito pouco. Os alunos que chegam à Eja não tiveram uma oportunidade de estudar na idade certa, quando crianças. Alunos que ou não tiveram acesso à escola, ou tiveram de parar de estudar para trabalhar e ajudar em casa, ou que não conseguiram acompanhar. Porque a realidade desses alunos é bastante dura. São dessas pessoas que estamos falando, que estamos representando na série.

Fale sobre Lúcia, que é descrita como persistente. Talvez o núcleo de professores, de uma forma geral, tenha essa característica. Sua personagem se difere de que maneira nesse grupo?

Ela tem uma história de uma tragédia pessoal: perdeu um filho adolescente que era aluno da escola. Ela era professora de ensino diurno, regular, e aí perde o filho. Ela carrega essa dor, e é recente quando começa a série. Fica afastada um tempo, e, quando volta, vai para o ensino noturno. Aquela escola, aqueles alunos trazem a vida de novo para ela. Acho que ela faz uma transferência do lugar de cuidado, do afeto para esses alunos e também acho que é uma característica dos professores do ensino público. E a Lúcia é essa personagem que tenta interferir nessa realidade dos alunos para além do trabalho dela de professora: vai buscar os alunos para voltarem para a escola, se envolve com a aluna trans que não consegue frequentar nenhum dos dois banheiros.

Pessoalmente, tenho enorme admiração pelos professores, primeiro porque tive professores incríveis na minha vida, que tenho certeza que são responsáveis pela pessoa que sou hoje. Acho uma grande responsabilidade representar uma professora e, ao mesmo tempo, uma oportunidade de honrar essa memória que tenho deles. Fui formada pelos meus professores e pelo teatro. Sou filha de ator e o teatro me formou tanto quanto a escola. Sem cultura e educação não há país, não há nação, não há civilização. Considero os professores uma das profissões mais importantes que existem no mundo. E, no Brasil, eles são tão desvalorizados, tão pouco reconhecidos.

Numa época em que se fala de cortes de verbas na educação, o tema da série é importante?

Acho muito importante essa série hoje, sobretudo, porque a gente está num momento em que está havendo um desmonte das políticas públicas de educação. A série, na verdade, foi criada muito antes desse momento. Mas infelizmente a gente tem problemas básicos que não andam para frente. Tanto que a Eja existe porque existe uma falha na educação desses adultos quando eles estavam na idade certa de estudar. É uma vergonha a quantidade de crianças fora da escola que existe no Brasil, e de analfabetos. Tomara que a série desperte um olhar para isso. Estou muito assustada com o que a gente está vivendo no Brasil. A gente está vivendo um desmonte da cultura, da educação, e a gente está vivendo um momento de muita desumanidade. Acho que a discussão está para além da esquerda e da direita. A discussão agora é a falta de humanidade das pessoas, a falta de um olhar humano para o Brasil: para os índios, para a periferia, para as pessoas que moram nas favelas, para os negros, para os LGBTs, para os brasileiros. A gente está num retrocesso assumido.

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.