Tema de documentário, Hillary Clinton domina a cena do Festival de Berlim


Hillary Clinton dominou a cena da Berlinale nesta terça-feira, 25. Ela veio prestigiar a exibição da docussérie Hillary, de Nanette Burstein, em Berlinale Special. A diretora disse que a ex-primeira dama (e secretária de Estado) é idealizada e demonizada com igual intensidade nos EUA. Nanette quis mostrar a realidade por trás do mito. Os produtores negam que o objetivo do filme seja eleitoreiro, mas Hillary recusa-se a falar do seu ‘legado’. “Seria olhar para o passado, e eu prefiro olhar para o futuro. Tenho muitos planos.”

Ser presidente? “Why not?” Prometeu apoiar quem o Partido Democrata indicar. “O momento é de união”, anunciou. Sobre sua experiência como candidata às presidência, lembrou que escreveu um livro. “Enquanto for uma mulher a concorrer, sua candidatura sempre provocará polarização. É preciso que mulheres candidatas se tornem a regra, não exceção. Só assim seremos avaliadas por nossas ideias, e não como exóticas participantes de uma corrida masculina.”

Alguém citou Donald Trump como modelo para governos autoritários ao redor do mundo. O nome de Jair Bolsonaro foi lembrado, mas, sem se referir a ele, Hillary cravou: “Trump não tem só um discurso conservador. É machista, racista, contrário às minorias. Está contra gays, negros, mulheres, imigrantes. E apoia os que são como ele. O mundo merece coisa melhor que essa gente.”

Tem havido uma corrida no mercado pelo documentário em quatro episódios. Justamente, o mercado – não está aquecido como se esperava, por causa do coronavírus. Os compradores asiáticos quase não deram as caras. De volta a Hillary, ela é cinéfila? “Bill e eu víamos muito cinema na Casa Branca.
Sempre prestigiamos os clássicos. Casablanca (com Humphrey Bogart e Ingrid Bergman) devemos ter visto umas 40 vezes. Mas, nos últimos anos, quase não tive tempo para ver filmes. Aceito as indicações que você me fizer”, declarou ao jornalista que fez a pergunta. Ele bem poderia ter recomendado o Hong Sang-soo. O autor sul-coreano, na contracorrente do cinema de gênero que colocou o país no mapa do cinema mundial, é um minimalista radical, além de ser, talvez – com Philippe Garrel? – o último diretor nouvelle vague em atividade no mundo.

The Woman Who Ran, A Mulher que Correu/Fugiu, é de uma simplicidade desarmante. Sang-soo filma o que gosta – conversas. Mulheres falam de amor, fidelidade, trabalho. Falam de bebida, mas dessa vez ninguém bebe. A câmera, discreta, volta e meia avança num movimento de lente (zoom). Tudo faz sentido. As pessoas juram amor eterno, mas no fundo não amam. Sang-soo escava na profundidade para revelar o que há de verdadeiro por trás da aparência. Merece até o Urso, e sua atriz, a fantástica Kim Min-hee, continua aquele assombro de beleza e talento. O festival, depois de alguns dias vacilantes, engrena. De Sundance, veio Never, Rarely, Sometimes, Always, de Eliza Hittman. Uma joia indie – garota sai de uma cidade interiorana com uma amiga para abortar em Nova York. As duas têm o dinheiro contado, passam por dificuldades, a começar por não ter onde dormir, à noite. Parece nada. É tudo. E as atrizes, Sidney Flanigan e Talia Ryder, são maravilhosas.

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