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Cultura

Religiosidade é tema de ‘Van Gogh – A Salvação Pela Pintura’, de Rodrigo Naves

Por Agência Estado

16 fev 2021 às 07:11 • Última atualização 16 fev 2021 às 09:47

Tanto já se falou do pintor holandês Vincent Van Gogh (1853-1890) e tantas foram as biografias do artista que parece restar pouco a revelar sobre ele. Seus conhecidos problemas psicológicos (bipolaridade, esquizofrenia), suas alucinações, sua carência afetiva, sua dificuldade em formar uma comunidade artística harmoniosa, tudo foi explorado em livros e filmes. No entanto, sempre resta algo de essencial para falar – e nesse ponto emerge um ensaio da fato fundamental para entender Van Gogh longe da abordagem tradicional, Van Gogh – A Salvação pela Pintura, do crítico e professor Rodrigo Naves. No livro, ele toca na formação religiosa do pintor e como ela interferiu em sua experiência artística, servindo de promessa de redenção para um desesperado.

Cruzamento híbrido entre estudo biográfico e ensaio crítico sobre sua obra, o livro de Naves associa a busca atormentada de Van Gogh pela salvação – consequência da sua formação calvinista – à produção exaustiva do pintor (mais de 900 telas, realizadas num curto espaço de tempo, algo memorável para alguém que, além de tudo, era dependente de álcool). Sua tarefa de realizar um trabalho de Sísifo, infindável, para que a pintura se revelasse salvífica, é sua expiação. Sobre o livro, Naves concedeu ao Estadão uma entrevista por telefone, em que falou sobretudo da estreita relação entre a obra do pintor e essa busca obsessiva.

Contra a mitificação de Van Gogh – fruto principalmente dos filmes, de Sede de Viver (Lust for Life, 1956) a No Portal da Eternidade (Eternity’s Gate, 2018) -, o livro de Rodrigo Naves busca em outras fontes elementos que comprovem o controle de Van Gogh sobre sua arte. O homem de teatro Antonin Artaud (autor de O Suicidado da Sociedade, sobre o pintor) surge entre elas, colocando por terra adjetivos como “iluminado” e “incompreendido”. Artaud disse que Van Gogh não morreu por causa de sua condição delirante, mas por ter feito de seu corpo o campo de batalha entre carne e espírito. Para não ser injusto, talvez a cinebiografia que tenha chegado mais perto disso foi Van Gogh (1991), do francês Maurice Pialat.

Pialat, inclusive, toca num ponto que outros biógrafos preferem evitar: a (provável) homossexualidade reprimida de Van Gogh, sugerindo que Gauguin teria abandonado o amigo após conter seu assédio na casa amarela em Arles, onde ambos viveram (no caso de Gauguin, entre outubro e dezembro de 1888). O pintor, inclusive, teria cortado a orelha esquerda não por causa de uma prostituta, mas pela rejeição do amigo.

Seja como for, o temperamento de Van Gogh é tema de um capítulo do livro em que, ao citar o crítico de arte e pintor inglês Roger Fry, Naves discorda do homem que cunhou o termo pós-impressionismo, preferindo reiterar as palavras de outro crítico, Meyer Schapiro. Fry defendia que, pela incapacidade de controlar seu temperamento, e assim aperfeiçoar sua técnica, Van Gogh ficou próximo às limitações de um pintor naïf. Naves, como Schapiro, prefere ver no amarelo saturado de Van Gogh não uma manifestação patológica de xantopsia ou as cores “puras” dos ingênuos, como Fry defendia, mas uma recriação torturada do mundo que passa por um “leque de saturações”, para usar um termo de Schapiro.

Exemplo evidente dessa dilaceração, segundo Naves, é o retrato que Van Gogh fez de seu amigo belga e também pintor Eugène Boch (1855-1941). Numa carta ao irmão Theo, o pintor fala da dificuldade de reproduzir exatamente o rosto do amigo querido, de colocar no quadro todo o apreço que tinha por ele (Boch, além de tudo, ajudou financeiramente Van Gogh e Gauguin). Van Gogh disse ao irmão que iria “exagerar” o loiro da cabeleira de Boch, variando do amarelo ao alaranjado, passando pelo limão pálido. Mas não é um exemplo de amor desmedido o que se vê no retrato do Musée d’Orsay.

“Já foi dito que o ‘impasto’ de Van Gogh é um Braille pictórico, que ele pintava com instrumentos de um escultor, mas há outros aspectos a considerar quando se fala da expressividade de Van Gogh”, observa Naves. Um deles é o político. Essa expressividade “ambígua” que, segundo o crítico, o “aproximava e, simultaneamente, o afastava de Eugène Boch”, pode ser notada em outras telas, como A Casa Amarela, em que o azul saturado do céu, ainda de acordo com Naves, “é uma ameaça àquilo que escapa à normalidade do cotidiano”. Há um fazer “ético” na pintura de Van Gogh, para replicar uma observação do crítico italiano Giulio Carlo Argan. Ele não é político apenas quando retrata a pobreza de Os Comedores de Batata (1885), mas também quando subverte a paisagem e contesta o modo acadêmico de representar o mundo.

O “socialismo difuso” de Van Gogh não invalida, segundo Naves, a pesquisa nessa direção política, mesmo tendo ele uma “profunda admiração por Jesus”. Educado pelo pai no respeito ao verbo e na leitura bíblica, Van Gogh virou leitor do escritor naturalista francês Émile Zola em Paris e frequentador de bordel. Naves fala desse e do período pós-parisiense, resumindo no Autorretrato com Bandagem na Orelha (a versão vermelha de 1889, da coleção Leigh B. Block), a cisão de Van Gogh entre a busca espiritual e “o realismo cruel de seu contexto social”. “Parece-me que ele nunca conseguiu a paz, nem familiar nem profissional”, diz Naves. “Desajeitado com as mulheres, era um solitário, que levou uma prostituta para morar com ele”, lembra. “Uma vida muito estranha mesmo”.

Van Gogh e Gauguin tinham temperamentos incompatíveis como o de Van Gogh e da prostituta Sien, com quem morou, mas, ao menos, ambos os pintores viam a arte como salvação – Gauguin, a despeito de seu anticlericalismo declarado, aproximou-se da doutrina teosófica de Edouard Schuré (um bom número das telas de Gauguin ilustra sua fé em algo sobrenatural). Gauguin, defende Naves, “procurava uma pintura que fosse símbolo”. Já Van Gogh, conclui o crítico, “queria pintar o que via, despreocupado em encontrar alguma dimensão misteriosa entre o olhar e o mundo”. E ele não encontra melhor tradução para o sentido da arte do holandês do que a frase de Nietzsche: “Lux mea cruz/Crux mea lux’ (Luz minha cruz/Cruz minha luz).
As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

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