Primeira ópera negra do Brasil, ‘Lídia de Oxum’ terá releitura em salvador


Marcado pelo axé music, o território baiano também é berço da primeira ópera negra do Brasil e única produzida em português e iorubá – dialeto nígero-congolês. Após 25 anos da sua criação, Lídia de Oxum estará em cartaz novamente entre os dias 21 e 23 de novembro, no Teatro Castro Alves (TCA), em Salvador. A data foi escolhida em homenagem à Consciência Negra, celebrada no dia 20 do mesmo mês.

Escrita pelo poeta baiano Ildásio Tavares em parceria com o maestro, também baiano, Lindembergue Cardoso, a base da ópera foi a peça Os Sete Poemas Negros – Ildásio a escreveu a pedido do músico Djalma Corrêa. O ator Sebastião Prata, conhecido como Grande Otelo, também solicitou que Ildásio tentasse levar ao circuito comercial uma peça em que negros fossem protagonistas. Em razão disso, o escritor elaborou o libreto O Barão de Santo Amaro. Em seguida, a ópera foi concebida pelo escritor e pelo maestro.

O espetáculo estreou em 1994 no TCA. Três anos mais tarde, uma segunda versão foi apresentada no Parque Metropolitano do Abaeté, na capital baiana. Agora, a remontagem da obra será produzida pelos filhos do criador do espetáculo original: Ildazio Junior, coordenador geral, e Gil Vicente Tavares, diretor artístico. Para Gil, cada montagem de uma obra cênica é o resultado de uma equipe de criação específica. “Terei uma abordagem diferente das outras duas montagens, sem perder a essência da obra, com sua força afro-brasileira e sua potência política, dois elementos centrais”, explicou.

Qual a história de Lídia de Oxum

O enredo da ópera, que conta com mais de 200 pessoas envolvidas diretamente, fala de racismo e machismo na época pré-abolicionista do Brasil. Na história, Lourenço de Aragão, filho de um senhor de engenho, chega da Europa com ideias abolicionistas, se engaja nas causas raciais e se apaixona por Lídia – filha de um ex-escravo. Lourenço acaba entrando em conflito, tanto com os negros, por ser branco, mas também com os brancos, por apoiar a libertação dos escravos.

“A gente reflete sobre feminismo, machismo, reparação e, além disso, traz entretenimento e turismo étnico, em homenagem ao novembro negro, para chamar atenção para o momento em que estamos. A Bahia é resistência e Lídia é um espetáculo questionador”, destacou Ildazio Junior. Perguntado sobre a expectativa para a recepção do público, ele afirmou que é das melhores. Segundo o coordenador, a venda dos ingressos está bastante “razoável”. O setor A a Z custa R$ 80 (inteira) e R$ 40 (meia) e a parte de Z7 a Z11, R$ 50 (inteira) e R$ 25 (meia).

Na primeira versão, a ideia era estrear a ópera em 1988, no centenário da Abolição da Escravatura, mas a concretização da obra só veio em 1995. Na época, a ópera foi recusada por vários produtores do Brasil com o argumento de que nem os negros estariam na plateia para assistir ao espetáculo. Nesta versão, o filho de Ildásio afirmou que, para além do Teatro Castro Alves, eles pretendem levar a ópera para o Pelourinho e outros lugares da capital baiana. “Nós temos um compromisso social”, disse.

A soprano e protagonista Irma Ferreira conta que viver uma personagem como Lídia é um marco na carreira, mas também na vida pessoal. “Ser mulher e negra nessa sociedade é sempre um desafio. E viver a Lídia, que é uma mulher forte, é maravilhoso. A única coisa que eu posso fazer é me doar ao máximo”, ressaltou. No elenco principal estão também a soprano Izadora França (Gracinha), o tenor Carlos Eduardo dos Santos (de Romão), o baixo Josehr Santos (Bonfim) e o barítono Miguel Nador (Tomás de Ogum). Único integrante do primeiro elenco, Inácio de Nonno agora será Teodoro de Aragão, pai do personagem Lourenço de Aragão, interpretado por ele há 25 anos.

A remontagem da ópera faz parte da coleção de homenagens que marcam os 80 anos de Ildásio Tavares, em janeiro de 2020. O maestro Lindembergue Cardoso também teria completado a mesma idade em junho deste ano. As homenagens ao escritor, previstas até 2021 por iniciativa da produtora de Ildazio Junior, a Viramundo, incluem poemas, livros, a Ópera Caramuru, o espetáculo Os Orixás, além de Lídia de Oxum.

“Ela tem um impacto maior porque vi de perto suas ideias e caminhos estéticos. Consigo ter um mergulho privilegiado na obra e a sensação de poder estar mantendo viva a chama de sua criação. É uma forma de manter vivo em mim o melhor de meu pai através da arte”, disse o diretor artístico Gil Vicente.

Serviço

O que: Ópera Lídia de Oxum

Quando: 21 a 23 de novembro, às 21h

Onde: Teatro Castro Alves, Praça Dois de Julho, s/n – Campo Grande, Salvador (BA)

Ingressos: Ingresso Rápido (site e aplicativo), nos postos do SAC (Shoppings Barra e Bela Vista) e na bilheteria do TCA – A a Z R$ 80 (inteira) e R$ 40 (meia); e Z7 a Z11 R$ 50 (inteira) e R$ 25 (meia)

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