Revelação e clássico das HQs francesas, Bablet e Druillet são publicados no País


Dois dos principais quadrinistas franceses de ficção científica estão tendo seus trabalhos publicados pela primeira vez no Brasil: Philippe Druillet, um dos maiores ilustradores europeus do século 20, e Mathieu Bablet, revelação da década. Diferentes gerações, linguagens semelhantes.

Druillet, 74, é autor da saga “Lone Sloane” (1966-2012), com suas melhores histórias reunidas em um álbum pela Pipoca & Nanquim. A obra narra as aventuras do personagem-título, um viajante do espaço que se depara com divindades além da compreensão humana, semelhantes às criações lovecraftianas. O anti-herói se assemelha a Han Solo, e o próprio George Lucas nunca escondeu a influência de “Lone Sloane”, tanto temática quanto graficamente, em “Star Wars”.

Ao lado de Jean Giraud (Moebius), Druillet foi um dos fundadores da revista Métal Hurlant, publicação que ajudou a elevar os quadrinhos ao patamar de arte nos anos 1970. Suas histórias cósmicas foram responsáveis por muito do conceito visual que temos do espaço, e Druillet é conhecido pelas inovações gráficas em suas páginas – como os painéis emoldurados e as divisões incomuns entre quadros -, além do estilo absurdamente detalhado de desenho, com traços finos, modelados à exaustão, e ambientes com arquiteturas que chegam à extravagância.

Mathieu Bablet, 32, também chega ao Brasil pela primeira vez com duas HQs. O pós-apocalíptico “A Bela Morte” (Sesi-SP) acompanha sobreviventes de uma catástrofe que precisam aprender a conviver em uma cidade deserta, enquanto uma subtrama de mistério sobrenatural se desenvolve, recuperando os temas lovecraftianos de Druillet, assim como em Shangri-la ele retoma os cenários cósmicos expansivos de “Lone Sloane”. Bablet falou sobre sua obra ao jornal O Estado de S. Paulo:

Suas HQs abordam a solidão. É um antídoto ao nosso mundo superpovoado?

Há sempre uma questão de escala entre nós e o mundo. Acho que a solidão pode ajudar a demonstrar quão ínfimos somos, como nossas vidas passam rápido, como deveríamos pensar no todo. Em um mundo superpovoado e conectado, a solidão pode ser vista como uma maneira de dar uma pausa e refletir sobre nós e o que nos circunda.

Como conciliar dramas particulares com questões universais?

Acho que a ficção científica é a melhor forma de falar das questões contemporâneas. Ela permite contar uma história e falar dos problemas atuais, pois leva os leitores a lugares que não querem de fato estar no futuro próximo. Pode ser um aviso, um manifesto ou como deveríamos reagir para evitar que nosso mundo se torne esse lugar.

Por que as HQs europeias têm um tom mais contemplativo ao tratar dessas temáticas?

Acho que isso se deve parcialmente ao nosso mercado editorial. Não há 32 páginas mensais para fazer como nos EUA, ou capítulos de 12 páginas semanais como nos mangás. Como artistas, somos livres para desenhar no ritmo que desejarmos.

Philippe Druillet também está sendo publicado pela primeira vez no Brasil. Ele o influenciou?

Druillet e Moebius são enormes influências por seus mundos repletos de detalhes para permitir que o leitor sinta os locais diante de seus olhos. A Metal Hurlant, onde trabalharam, é o tipo de ficção que quero fazer, pois o sci-fi dos anos 1970 foi muito rico para as HQs, com artistas criando visuais malucos e histórias sombrias.

LONE SLOANE
Autor: Philippe Druillet
Tradução: Octávio Aragão
Editora: Pipoca & Nanquim (340 páginas, R$ 129,90)

A BELA MORTE
Autor: Mathieu Bablet
Tradução: Fernando Paz
Editora: Sesi-SP (160 páginas, R$ 89,90)

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

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