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Pelas Páginas da Literatura

Resenha: ‘Os Anos’, de Annie Ernaux

Vencedora do Nobel de Literatura mistura memória individual e coletiva em obra

Por Marina Zanaki

17 de junho de 2023, às 10h59 • Última atualização em 17 de junho de 2023, às 11h02

Voltando de férias, trago a recomendação do melhor livro que li nesse período. Escrito por Annie Ernaux, vencedora do Nobel de Literatura do ano passado, “Os Anos” percorre seis décadas de história pessoal da autora e dos acontecimentos sociais que ela vivenciou ou assistiu. O resultado é uma autobiografia impessoal que mescla a memória individual e a coletiva.

“Todas as imagens vão desaparecer”. O livro começa dessa forma, costurando descrições de fotografias e filmagens de Annie Ernaux ao longo da vida, situando o momento na vida da autora, mas também o ponto da História, assim como o “espírito” daquele tempo. A narrativa não trata nunca do “eu” da escritora, que é sempre “ela” ou “nós”.

Com essa proposta, o livro passa pelo pós-Guerra, eleições francesas, a xenofobia contra imigrantes, o consumismo, o atentado de 11 de setembro, o advento da internet. A sensação, ao final, é que os anos de Annie Ernaux significaram uma transformação acelerada do mundo.

Se “Os Anos” tem algum defeito é de ser um livro profundamente francês. É fácil se perder em meio a tantas referências óbvias para a escritora, mas que são desconhecidas do público. Por outro lado, essa limitação não é escondida ou disfarçada. Annie Ernaux parece zombar de sua visão de mundo em diversas passagens, sem esconder os preconceitos e as hipocrisias em que está inserida.

Exemplo perfeito disso é a Guerra da Argélia pela independência da França. A autora não esconde que o conflito, que matou mais de 300 mil argelinos, despertou um interesse decrescente e secundário na sociedade francesa colonizadora – e em si mesma. Ao final da obra, provoca que será lembrada como parte de uma geração que “viu” a Guerra da Argélia. Esse, e tantos outros acontecimentos, dão a sensação que somos, ao mesmo tempo, testemunhas passivas e ativas da História.

O livro é fantástico. Deixo a recomendação de ler antes “O Lugar” e “O Acontecimento”, dois livros bem curtos que contam fatos importantes da vida de Annie Ernaux e fazem mergulhar na sua proposta de narrativa coletiva, que alcança seu ápice com “Os Anos”.

Marina Zanaki

Repórter do LIBERAL, a jornalista Marina Zanaki é aficionada pela literatura e discutirá, neste blog, temas relacionados ao universo literário.