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Histórias de Americana

Os usos do passado: não existe história neutra

Por Gabriela Simonetti Trevisan

14 de maio de 2023, às 07h46

No dia 12 de maio de 1984, o LIBERAL noticiava uma manifestação no dia seguinte. A articulação era parte dos protestos intitulados “Diretas Já”, movimentação que ganhou proporções nacionais na luta pelo fim da ditadura civil-militar brasileira e na reivindicação pelo voto direto nas eleições.

A notícia, assinada pelos alunos do curso de direito da Unimep, reivindicava a data como simbólica à história brasileira, uma vez que também marcaria o dia da abolição da escravidão. Nessa direção, argumentavam os estudantes que havia uma pauta em questão: a liberdade. E assim, desenrolam-se nomes de figuras históricas importantes, como José do Patrocínio e Tiradentes, postos como heróis da luta por libertação, segundo argumentam os autores. Também no dia 13 de maio de 1984 se comemoraria o Dia das Mães. E, nessa direção, os estudantes argumentavam: é um dia de luta por aquelas que sofrem com a fome dos entes queridos, que buscam seus filhos desaparecidos pelo regime repressor e que lutam por uma utopia sem guerras, sem bombas, mas com justiça.

As manifestações das Diretas Já são articuladas em abril de 1984, no contexto dos debates sobre a emenda Dante de Oliveira, que previa o retorno do voto direto para a transição do governo ditatorial para o democrático. A emenda não foi aprovada, resultando nas eleições indiretas, que colocaram Tancredo Neves e, depois, José Sarney no poder, mas gerou um forte impacto no cenário político de então.

Retornando à publicação feita pelos estudantes no jornal, duas observações são notórias. A primeira é a grande inserção do interior paulista e de nossa região nos debates políticos de alcance nacional. Somos tentados a olhar para nossa história regional como uma narrativa à parte dos jogos de poder que se davam no cenário macro, mas não podemos esquecer que essas mesmas disputas frequentemente atravessavam também o cotidiano de população local.

Outro ponto interessante a pensar é o uso da história e da memória como base de sustentação para pensar o presente. E o uso é consciente, pois, como encerram os autores do convite à manifestação, “haverá um dia em que a História do Brasil será feita por brasileiros, para que nossos filhos e os filhos deles saibam o que foi esse momento, o que é este momento”. Assim, fica a importante reflexão de como os usos do passado são sempre profundamente políticos. Não existe história neutra, como muito se pensou até o século XIX. Toda narrativa do passado se posiciona a partir do olhar do presente, e, nesse sentido, o que nos baliza é seu uso ético, como é a defesa da democracia. Q

Gabriela Simonetti Trevisan
Membro do grupo Historiadores Independentes de Carioba, dedicado à pesquisa histórica sobre Americana

Historiadores de Carioba

Blog abastecido pelo grupo Historiadores Independentes de Carioba, que se dedica à pesquisa histórica sobre Americana.