‘Tinha medo de morrer’, diz autor de dossiê que revelou escândalo na Igreja Católica

Produtor audiovisual de Americana, autor do dossiê contra o padre Leandro e o bispo Dom Vilson, detalha o que fez para levar o caso às autoridades


Foto: João Carlos Nascimento - O Liberal
Produtor audiovisual de 37 anos, José Eduardo Milani disse que vítimas tiveram receio em falar

Autor do dossiê que deu início às investigações sobre o padre Pedro Leandro Ricardo, reitor afastado da Basílica de Santo Antônio, em Americana, e o ex-bispo de Limeira, dom Vilson Dias de Oliveira, o produtor audiovisual José Eduardo Milani, de 37 anos, disse que se manteve no anonimato até agora por medo de morrer e por receio da reação de parentes das próprias vítimas.

Leandro hoje é investigado por acusações de abuso sexual, e Dom Vilson, pela suspeita de extorquir padres e de acobertar os supostos crimes de seu subordinado. Ambos negam.

Para compilar as informações que tinha, Milani teve a ajuda da advogada Talitha Camargo da Fonseca, de 32 anos, que representa as seis vítimas que já depuseram à polícia de Araras. Eles conheciam duas vítimas antes de o caso vir a público, mas nenhuma queria denunciar. Então, tiveram a ideia do dossiê anônimo.

O caminho encontrado foi enviar em setembro o material à deputada estadual Leci Brandão (PCdoB), que o encaminhou ao Ministério Público. Em janeiro, com ajuda de um grupo de paroquianos que organizou uma vaquinha, mandaram o dossiê para o Vaticano.

Milani, que se sentia perseguido por Leandro por conta de divergências no restauro da Basílica, diz que agiu por indignação, assim como Talitha. Agora, espera punições. Em conversa com o LIBERAL, o produtor detalhou o caso. Leia a seguir os principais trechos.

Você montou todo o dossiê anônimo?
Isso. Foi a grande dúvida do início. Todo mundo me perguntava “você sabe quem que fez, quem escreveu”, e eu negava porque tinha medo de morrer. Seis meses depois, não sei se ainda vão querer nos matar. Foi basicamente isso. Durante três anos, fui coletando informação que me falavam. Ninguém quis denunciar. Eu e a Talitha vínhamos numa tentativa de convencimento do João [nome fictício do pai de uma suposta vítima de abuso do padre em Americana], para que ele, o pai, denunciasse. Ele não queria de jeito nenhum. Não queria estar sozinho. De Araras, a gente conhecia mais uma vítima. Mesmo tendo o João junto, ela acabou ficando com medo. Chegou uma hora que falei pra Talitha: “temos que dar um jeito de fazer anônimo”. Na verdade, a gente já tinha cogitado de fazer anônimo, mas ela falava “se a gente enfiar isso no MP de forma anônima, não vamos ter como acompanhar”. Em setembro de 2018 ela conseguiu o “pulo do gato”, que foi passar pela Leci Brandão.

As pessoas que vocês citaram sabiam que vocês iam mandar um dossiê?
Não sabiam. Meu maior medo hoje é alguma delas querer tirar satisfação comigo. O João, na época [em que o caso saiu na imprensa], não estava querendo acreditar que eu não sabia quem tinha feito. Ele enfiou o dedo na minha cara e falou: “vou achar esse filho da p… que fez esse dossiê, porque eu não queria que meu filho fosse exposto”.

No primeiro dia útil de 2019, tirei as informações de contato, endereço, telefone, até de nome, uma versão dois do dossiê, e mandamos para Roma. Foi com um outro grupo de pessoas, uns paroquianos colegas, que se juntou. Ficou mais de R$ 400 reais para enviar a Roma.

Inicialmente, você sabia de algum caso de abuso?
Uma mulher me contatou [em agosto de 2017]. Me chamou no WhatsApp. Aconteceu muito disso, porque viam minhas brigas no Facebook que tornaram pública minha rixa com ele [Leandro]. Uma delas entrou em contato comigo, que era paroquiana da Basílica. Queria fazer alguma coisa porque sabia de uma vítima dele da Basílica. Ela que contou toda a história do João.

No caso dele, chegou a ter abuso?
Ele falou que [o padre] pegava. Dava umas investidas. Ia abraçar e dava um beijo. Ele falou “apalpava meu filho”.

Antes disso você já tinha contato com o Ednan Vieira, uma das vítimas que diz ter sido abusada pelo padre em Araras?
Depois do caso dos “prints” [em 2016, o padre foi acusado de assediar um rapaz por mensagens via aplicativo], conheci o Antônio [nome fictício de uma suposta vítima do padre]. Ele me falou para procurar o Ednan. Não sei se antes ou depois disso, também conversei com Luzia [nome fictício de uma denunciante do padre]. Conversamos pessoalmente, com a Talitha junto. Ali que eles falaram que tinha muito mais gente vítima do Leandro. Mas eles não iam querer falar do assunto.

Ednan contou que tinha sido abusado?
Contou. Apareceram outros [após as primeiras reportagens sobre o caso] que tomaram coragem e procuraram a Talitha. Eu insisti muito com o Ednan. O máximo que ele falou é que estava juntando prova. Falava que não era o momento.

Você já estava procurando coisas contra o Padre Leandro? Qual foi a motivação?
Não é que eu estava procurando coisas para fazer denúncia. Foi acontecendo. Estava nessa questão de perseguição contra mim, as polêmicas na rede social. As coisas foram aparecendo.

Foto: Marcelo Rocha - O Liberal.JPG
Suspeitas de abuso e acobertamento recaem sobre o bispo Dom Vilson e o padre Leandro Ricardo; eles negam

Como conseguiram as informações sobre Dom Vilson?
Foi através de um padre. O núncio apostólico [Dom Angelo d’Aniello] ia vir para Americana num domingo. Na quarta, liguei para a Nunciatura e falei que tinha graves denúncias envolvendo o padre e o bispo. Falei: “o núncio vai vir para Americana, sair na foto abraçado com duas pessoas que daqui a algum tempo pode estar na cadeia. Então, a gente queria 20 minutos de conversa com o núncio”. A secretária falou: “você pode me mandar as denúncias?”. Mandei na manhã seguinte. Na quinta à tarde comecei a receber mensagem de que o núncio não viria mais. O que eu mandei para a Nunciatura foi um mini dossiê. Mandei a prova dos imóveis do bispo, denúncia de abuso.

O que você espera diante das denúncias?
Espero que as autoridades eclesiásticas não sejam omissas e não ignorem que estamos diante de um dos maiores escândalos da história da Igreja no Brasil. E que as medidas sejam mais rápidas e rigorosas para afastar e punir abusadores. É por aí que começa o resgate da credibilidade da Diocese de Limeira. O silêncio e a impunidade só vão afastar mais católicos das paróquias.

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