Descendo o Rio Ganges em um rafting

Sagrado para o hinduísmo, banhar-se em suas águas é um ritual de purificação, mas o rio mais famoso da Índia também reserva grandes emoções


Sempre tive para mim que o Rio Ganges era um desses lugares onde a religião fosse a única variável. Sagrado para o hinduísmo, banhar-se em suas águas é um ritual de purificação para a maioria da população da Índia, de 1,3 bilhão de pessoas. Até chegar às suas margens, as únicas fotos que tinha visto eram do trecho que cruza a cidade de Varanasi. Pelas imagens de sujeira, nunca imaginei que um dia entraria nele.

Não havia pensado no Rio Ganges como um rio radical, já que as imagens de Varanasi sempre mostraram um curso um tanto monótono. Isso até chegar a Rishikesh, no Estado de Uttarakhand. Também às margens do rio mais famoso da Índia, porém 800 quilômetros a noroeste de Varanasi. Ali, aos pés da Cordilheira do Himalaia, nasce um Ganga River de uma pureza impressionante.

Foto: Adobe Stock
Rio Ganges

Não tinha ideia de que havia a possibilidade de descer o Ganges a bordo de um bote de rafting. E menos ainda de que isso era uma atividade popular em seus primeiros quilômetros do rio. A cidade de Rishikesh ficou muito conhecida no fim dos anos 1960, quando os Beatles passaram meses enfurnados num ashram por lá. Deste período resultou o The Beatles ou White Album (1968), um dos mais festejados da banda, e uma fama mundial de toda a cultura da ioga e da meditação.

Bastam uns poucos passos pela cidade para observar a fartura de agências e operadores de rafting. Não é difícil resolver a equação: a chamada Capital Mundial da Ioga atrai praticantes do mundo inteiro que, entre um ássana, uma refeição vegana e uma meditação, resolvem curtir alguma adrenalina. E, de quebra, postar sua foto fazendo rafting no Rio Ganges – de capacete, colete salva-vidas e remo em punho, claro.

Hora de entrar n’água

Com oferta farta, os preços baixam e o normal é pagar algo na faixa de 1.500 rupias (algo em torno de US$ 15) pelo passeio mais curto – de 2h30. Há opções que variam de 16 até 35 quilômetros de descida. Escolhemos a operadora Trip India Holidays (tripindiaholidays.co.in), mas o Ananda Spa (anandaspa com), onde estávamos hospedados, também oferece o serviço. O tour começa num carro ou jipe, que serpenteia por uma estradinha até Shivpuri, um ponto meio estranho, em meio a muitas pedras, onde colocam o bote na água.

Foto: Divulgação
Descer o rio em um rafting pode ser uma experiência única para o turista

Acredite, o melhor calçado é uma papete, mas uma sandália havaianas também funciona. E vestir bermuda sobre a sunga ou biquíni. Ah, se tiver uma blusa de lycra ajuda, já que a água é um tanto fria – entre 16 e 19 graus.

Após as instruções – sim, você precisará ir afinando o ouvindo para compreender o inglês com sotaque indiano -, é hora de ir para a água. Pouco antes de embarcar vi duas garrafas plásticas na beira do rio: foi o único foco de lixo que avistei. Nesse trecho, o Ganges não é sujo, nem pareceu maltratado – tampouco dá nojo ou medo de pegar alguma doença. A cor da água é de um verde quase musgo.

Dá para dizer que há cinco corredeiras notáveis, sendo duas bem emocionantes. Uma delas, batizada de Roller Coaster (Montanha-russa) marcou mais. Por breves instantes, lutávamos na frente do bote para remar diante de algumas ondas que passavam de um metro de altura. Outras duas corredeiras, a Golf Course e a Club House, também trouxeram a devida adrenalina. Completamente encharcados, terminávamos esses trechos rindo e entoando um grito de guerra ensinado pelo instrutor.

Montanhas e ashram

A paisagem vai aos poucos se transformando. Com cerca de 50 metros de largura nos primeiros trechos, o rio chega a mais de 150 metros de largura quando entra na cidade de Rishikesh. O entorno do Ganges é muito verde e as montanhas repletas de mata tecnicamente já fazem parte da Cordilheira do Himalaia. Em alguns momentos, lembram um pouco as montanhas que cercam Machu Picchu, no Peru.

Foi divertido quando passamos pelo Osho Gangadham (www.facebook com/OshoGangadham), ashram – centro de oração e retiro – fundado pelo líder espiritual Osho. Na prainha na beira do rio, três homens de cueca cantavam e dançavam freneticamente.

A Laxshman Jhula é a grande ponte estaiada para pedestres que dá as boas-vindas a Rishikesh. Várias operadoras passam sob ela e terminam seus tours dentro da cidade, nas escadarias próximas ao Templo de Shiva. Por sinal, todos os dias ao entardecer ocorre ali o Ganga Aarti, cerimônia de saudação a Shiva e ao Rio. É lindo de doer.

COMO IR

Saindo de São Paulo, é possível voar para o aeroporto de Dehradun com uma conexão com a Ethiopian (R$ 6.690; ethiopianairlines.com) e com a Qatar (R$ 7.888; qatarairways com). Dehradun está a uma hora de carro de Rishikesh – a melhor forma de se deslocar entre as cidades é de táxi.

Outra opção é voar a Délhi e ir de carro (cerca de 5 horas de viagem) ou pegar um voo interno.

Também é possível se deslocar de trem, mas como não há linhas diretas entre os dois destinos (e serão necessárias várias baldeações) pode ser um pouco desafiador para um estrangeiro. Se quiser arriscar, busque em irctc.co.in.

Site: incredibleindia.org.

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