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Esporte

‘Quero ser a pessoa que contribuiu para o Cruzeiro não acabar’, diz presidente

Por Agência Estado

02 jan 2021 às 09:00 • Última atualização 07 jan 2021 às 07:24

Maior ganhador da Copa do Brasil, com seis conquistas, bicampeão da Libertadores, único time de fora de São Paulo e do Rio a vencer o Brasileirão na era dos pontos corridos de fora de São Paulo e do Rio – e três vezes. O Cruzeiro completa cem anos de fundação neste sábado recheado de conquistas, feitos e craques históricos. Mas elas se contrapõem, nesse momento, aos maiores desafios e aos piores momentos da trajetória desse, agora, centenário clube.

Rebaixado à Série B em 2019, o Cruzeiro caiu na esteira de uma crise financeira, de gestão e ética, com graves acusações contra os antigos gestores, especialmente o presidente Wagner Pires de Sá e o vice Itair Machado. Veio 2020, mas não a redenção que costuma acompanhara participação dos grandes clubes que disputam a segunda divisão nacional.

Com apenas 41 pontos somados em 32 rodadas e na 11.ª posição, o time tem chances remotas de acesso e deverá passar o ano do centenário na Série B. Com poucos recursos e muitas dívidas a pagar, contará com uma folha salarial mais modesta do que o da temporada 2020, como adianta o presidente do Cruzeiro, Sérgio Santos Rodrigues, ao Estadão, o que pode provocar a saída de alguns dos jogadores mais renomados. E ainda forçará a renegociação de contratos.

Santos Rodrigues, de apenas 38 anos, é o responsável por comandar o clube desde maio, inicialmente em um mandato-tampão e agora até dezembro de 2023. Com o time tendo sido dirigido por 4 técnicos em2020, reconhece que pode ter errado na direção do Cruzeiro nesse período, mas também ressalta as dificuldades de se gerir uma equipe endividada, valorizando o pagamento de R$ 32 milhões em dívidas na Fifa.

Veio, aliás, de uma decisão da Fifa uma das dores de cabeça do Cruzeiro em 2020, a perda de 6 pontos na Série B em função de um calote no Al-Wahda pela contratação do volante Denilson. Para Santos Rodrigues, que viu a punição ser imposta poucos dias antes da sua eleição, houve um erro de planejamento do conselho gestor que dirigia o clube na época, o que prejudicou diretamente o clube na luta pelo acesso.

Santos Rodrigues ainda pede tempo para recuperara credibilidade dos gestores cruzeirenses juntos aos torcedores, ansiosos por punições a dirigentes de um passado recente e aos conselheiros que eram remunerados na gestão de Wagner Pires. Além disso, minimiza a presença de nomes vinculados ao grupo político “Família União”, que estava à frente do clube entre 2016 e 2019, na chapa do Conselho Deliberativo que será eleita neste sábado.

Com tantos desafios, ele espera, ao fim da sua gestão, em 2023, ser lembrado como “a pessoa que contribuiu para o Cruzeiro não acabar”, embora afirme que o clube agora centenário “será sempre maior do que os seus problemas”.

Confira a entrevista do presidente do Cruzeiro ao Estadão:

Qual é o tamanho da responsabilidade e do desafio de presidir o Cruzeiro em seu centenário?
É um orgulho grande, até maior do que a responsabilidade, qualquer torcedor gostaria de estar nessa posição. Infelizmente, a pandemia e a situação esportiva ofuscam um pouco, mas é o momento de celebrar a nossa história. O Cruzeiro é um gigante. Um ano ruim, onde o Cruzeiro foi jogado por outras pessoas, não apaga isso.

Além de ser o ano do centenário, 2021 também deverá ser o segundo consecutivo do Cruzeiro na Série B, algo inédito para os principais clubes do País. Como enxerga esse momento tão difícil?
Eu digo que é a primeira vez de muitas coisas no Cruzeiro: de uma pandemia, de uma renúncia e de uma eleição-tampão, do pagamento de dívidas de R$ 32 milhões para a Fifa. Precisei usar esses recursos para evitar uma punição maior, ao invés de aplicá-lo no time em um momento de receitas difíceis. Começar o torneio com menos seis pontos também foi a primeira vez. Não existe projeto de sucesso de curto prazo. O nosso é de médio e longo prazo e temos a convicção de que estamos fazendo o nosso melhor, não só no time, mas na organização. O Fábio falou muito bem, o Cruzeiro está colhendo os efeitos do mal planejamento.

O Cruzeiro já quitou algumas dívidas na Fifa, mas ainda tem outros casos pendentes. Como estão essas situações e o que o clube tem feito para evitar novas punições?
Temos em aberto o caso do Denílson, co mprevisão de resolução no fim do ano que vem, além das questões do Arrascaeta e do Riascos, para os quais ainda não há uma previsão de data. São casos complicados. O problema é que quando você não paga, isso se torna uma ação de execução. Enquanto ela não vem, buscamos negociar. Ficamos quase um mês sem poder contratar. A vantagem é que não podemos mais perder pontos como pena, com o caso do Al Wahda envolvendo risco de rebaixamento.

Você considerou que houve erro do conselho gestor do Cruzeiro ao não quitar a dívida com o Al-Wahda? E como a punição afetou o time dentro de campo na Série B?
Erro é muito pesado, prefiro falar em falta de planejamento. Minha eleição foi em uma quinta e a dívida caiu na segunda. Semanas antes, o Dalai (Rocha), o presidente da época, disse que o Cruzeiro iria pagar todas as dívidas na Fifa. Ninguém se preparou para nada. Aí, na segunda, me ligaram quando estourou, pedindo ajuda.
Se tivéssemos, os 6 pontos antes do jogo de terça (0 a 0 com o Cuiabá), estaríamos a 3 da zona de acesso. E aí é outro tipo de jogo. Os técnicos, os jogadores sentiram e não têm culpa disso. Não tenho dúvida que é um fator relevante, que atrapalhou o Cruzeiro na Série B.

Depois da sua eleição, o Pedro Lourenço (empresário dono do Supermercados BH, patrocinador do Cruzeiro), ajudou o Cruzeiro a quitar outra dívida na Fifa, com o Zorya, da Ucrânia, pelo William. O que mudou nesse caso e qual é a importância dele na sua gestão?
Ele é fundamental, tanto que os filhos também estão na chapa para o Conselho Deliberativo. Se questionou na época porque ele não pagou. Mas não é assim. Fizemos um projeto de antecipação de patrocínio, mostramos os ganhos que teria, como um parceiro, ao invés só de pedir dinheiro. Logo depois da minha posse, teria outra punição, essa do Zorya, e aí ele topou ajudar em cima do projeto. Ele não tinha necessidade de fazer, mas fez como um grande cruzeirense.

O Cruzeiro está em seu quarto técnico em 2020. Avalia que houve erros na condução do clube nesta temporada?
As pessoas pedem muito para falar que erramos, e é claro que nós cometemos erros. Mas é muito difícil fazer futebol sem dinheiro. Eu chego com o Enderson (Moreira) como técnico, achava que ia dar certo e ele era elogiado por todos. Não deu certo, então fiz a opção pelo Ney Franco. Em conversas, muitos diziam que precisávamos de um técnico de Série B. O Ney tinha acesso recente pelo Goiás, é cruzeirense, veio com salário compatível. Analisar pelo resultado é fácil. Depois, fomos pelo Felipão, um nome grande, um perfil que se encaixou. Sobrou para mim o pagamento das dívidas na Fifa. Com esses R$ 32 milhões, eu montaria um grande time. As receitas de TV, bilheteria e patrocínio foram diluídas.

Desde 2019, há uma cisão entre a torcida do Cruzeiro e os atores políticos do clube, com protestos, sendo os últimos pela presença de representantes da “Família União” na chapa do Conselho Deliberativo. Como recuperar a relação e a confiança dos cruzeirenses?
Mostrando o trabalho. A mentalidade precisa mudar, porque a torcida se baseia muito em resultados. Os dirigentes que roubaram o Cruzeiro em dois anos, foram aplaudidos enquanto ganhavam títulos. A torcida foi induzida a isso. Ela pode ser exigente, mas precisa acreditar no trabalho em um momento atípico.
Essa chapa tem 220 novos conselheiros. Aí muita gente reclama por ter gente que votou na outra chapa. O contexto é diferente. Talvez seja a melhor chapa do Cruzeiro em anos, com grandes empresários, parceiros do Cruzeiro, como os filhos do Pedrinho, a Emccamp, pessoas da política, advogados de grandes escritórios. Tem muita gente que pode ajudar. Precisamos de tempo para mostrar serviço. Às vezes só querem repercutir 10 nomes de 220.

Na torcida, existe uma avaliação de demora na punição aos dirigentes e conselheiros que eram remunerados no Cruzeiro. Concorda?
Do que a presidência pode fazer, ninguém pode reclamar, porque acionamos todos na Justiça, com bens sendo bloqueados. O julgamento dos conselheiros remunerados não depende da gente, é uma decisão do conselho, mas está andando. Não dá também para fazer tudo ao mesmo tempo. Não vou consertar em 6 meses os 8 amos de problemas de gestão.

Há críticas ao desempenho das divisões de base do Cruzeiro, com resultados ruins e pouco protagonismo dos jogadores que subiram aos profissionais. Você está satisfeito?
Não estou satisfeito, tanto que mudei tudo lá. O Cruzeiro tem a maior minutagem de aproveitamento de jogadores sub-21 na Série B. A gente herdou um time de jovens, mas a responsabilidade não pode recair sobre eles. O Cruzeiro estreou no Mineiro com um time com 6 jogadores que nunca tinham atuado entre os profissionais e acabou dando em eliminação precoce na Copa do Brasil e queda antes da semifinal do Mineiro. Tem jogadores que demoram mais a amadurecer. Começamos jogos com vários jovens.

Com a manutenção na Série B, o time do Cruzeiro em 2021 terá de ser mais barato do que o atual? E como tornar isso possível?
Com certeza absoluta. Renegociando contratos, contratando com salário menor, alguns jogadores vão sair. Teremos de ser assertivos, mas agora não entrarei na temporada com a coisa andando. Aparte técnica, a gente só vai falar quando o campeonato acabar. Mas já estamos trabalhando com o técnico no esqueleto do time que ele quer para a temporada que vem.

Como você quer ser lembrado pelo torcedor do Cruzeiro ao fim do seu mandato?
Como a pessoa que contribuiu para o Cruzeiro não acabar. O conselho gestor falava desse risco, em terra arrasada. Eu nunca gostei, porque o Cruzeiro sempre será maior do que os seus problemas. Precisávamos arregaçaras mangas para evitar um problema ainda maior. Se não pagasse a dívida (com oZorya), poderíamos ter começado a Série B com menos 12 pontos. Aí, a chance de queda seria grande, o que nos impediria de honrar compromissos. Quero ser visto como o cara que topou encarar o desafio e deu um choque de gestão, transformando o Cruzeiro em uma instituição sustentável.

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