Em ‘Auto da Compadecida’, Gabriel Villela se inspira no deboche de Dercy


Entre os inúmeros detalhes que consagram a peça Auto da Compadecida, de Ariano Suassuna, é sua picardia para tratar de temas delicados, como religião e política. O mesmo acontece na montagem de Gabriel Villela, que estreia na quinta, no Sesc Pompeia. “Temos um momento Damares (Alves, ministra da Mulher, da Família e dos Direitos), que logo vai ser identificado pela plateia”, conta o encenador, preferindo não dar spoiler.

Trata-se da primeira parceria entre Villela e o Grupo Maria Cutia. E o convite partiu do diretor que, para comemorar seus 60 anos, no ano passado, planejava realizar um trabalho marcante. A escolha não poderia ter sido mais acertada – com 13 anos de estrada, o grupo mineiro especializou-se em espetáculos apresentados em praças, parques e ruas. Nesse período, a investigação autoral promoveu o diálogo entre música e teatro (ironicamente chamado de ‘música-em-cena’), habilitando os atores a executarem ao vivo a trilha sonora, em uma pesquisa que alia dramaturgia à canção.

Tamanha disposição se encaixa perfeitamente nas ambições artísticas de Villela, cuja obra se constrói com tijolos de erudição e reboco de cultura popular. “Logo, eles estavam a caminho do meu sítio, em Carmo do Rio Claro, sul de Minas”, conta o encenador, que mantém lá seu refúgio espiritual e intelectual, além de armazenar os figurinos de seus mais recentes espetáculos.

Inicialmente, eles pensaram em montar Mistero Buffo, do italiano Dario Fo, mas, graças à fervura que marca o contexto da cultura no Brasil atual, Villela sugeriu que buscassem um texto nacional. “Em relação ao canto, não há problemas, pois ali eles são desenvoltos. O que pretendi foi aprimorar o trabalho de interpretação, a linguagem de cena.”

E o toque final para a escolha recair no Auto da Compadecida é a vivacidade de sua linguagem. “Percebe-se a presença de uma estética circense no Auto a partir mesmo das considerações do autor acerca da encenação da peça, registradas na edição do texto”, observa Carlos Newton Júnior, pesquisador especializado na obra de Suassuna. “Do início ao fim da peça, as ações se desenvolvem como se estivessem, mesmo, sendo encenadas em um picadeiro de circo, num daqueles circos sertanejos pobres que o autor conheceu na sua infância.”

“De fato, o autor deixa brechas no meio do texto para que o encenador acrescente seu toque pessoal, que pode ser a inclusão de canções”, conta Villela que, junto do grupo, escolheu músicas que coroassem a magnitude das cenas – a entrada no céu, por exemplo, é marcada por Alegria, Alegria, de Caetano Veloso, notadamente o uso do verso “sem lenço e sem documento” para ressaltar um total despojamento. A trilha, de um colorido tropicalista, inclui também América do Sul, de Ney Matogrosso. Como de hábito, Villela contou com Babaya, sua fiel colaboradora na preparação vocal. “Não gosto de ator com microfone, mas ela conseguiu equalizar as vozes.”

Os instrumentos, aliás, ganham importância cênica graças à estética barroca de Villela, que salpica o espetáculo de pitadas brechtianas, transformando a música em elemento transformador da cena. “Não gosto quando o elenco canta afinado ou toca os instrumentos no tom correto – nesse momento, atiro uma bolinha de pano neles, avisando que a perfeição não é sempre bem-vinda”, diverte-se ele, que centralizou no trombone o agente desestabilizador. “Ele provoca o erro ao soltar uma nota fora da pauta.” É também por isso que o trabalho já foi enquadrado em um gênero particular: cênico-musical-picaresco.

Não à toa que Villela confessa que, para encontrar o tom do espetáculo, se inspirou também na comediante Dercy Gonçalves (1907-2008), cujo deboche encobria, na verdade, a técnica do improviso, aproximando-a tanto da Commedia DellArte como do circo. “Ela foi uma espécie de Compadecida, cercada de anjinhos como Grande Otelo, Zezé Macedo, Oscarito e outros artistas da chanchada.”

E a improvisação foi responsável ainda por um dos pontos altos do espetáculo, algo que se tornou a assinatura de Villela: o deslumbrante figurino. “Como não tínhamos dinheiro para nada, usamos as roupas que tenho guardadas em meu sítio para elaborar novas peças”, conta ele que, no figurino, traz um discreta, mas poderosa mensagem de protesto: as roupas trazem uma coloração barrenta específica. “É a cor da lama oxidada que destruiu Brumadinho.”

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

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