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Música

Sérgio Dias: o último mutante

Por Agência Estado

09 jan 2020 às 08:00 • Última atualização 27 abr 2020 às 11:18

Havia um Sérgio Dias dentro de outro Sérgio Dias que saiu das entranhas do primeiro sorrateiramente, sem que ninguém percebesse, em alguma noite de jam session na Nova York de 1980. Ninguém além de quem o cercava e mal conhecia seu espectro anterior, o de guitarrista dos Mutantes, presenciou algo que só não virou lenda porque, em uma noite no Rio de Janeiro de 1986, virou show e, anos depois, disco.

O Sérgio Dias que emergia das profundezas de si mesmo tinha os mesmos cabelos compridos, os longos circuitos de construções verbais ácidas, mas um conceito musical que pouco lembrava o grupo que teve em sua formação clássica, além dele mesmo, Rita Lee e o irmão Arnaldo Baptista. Os Mutantes, perto deste Sérgio Dias, se tornavam uma banda de música teen.

Depois que uma história parecia acabar, os Mutantes, Dias partiu para os Estados Unidos deixando um disco solo potente e criativo, mas de pouca aceitação comercial. Ele calcula que morou fora entre 1979 e 1987, ao contrário de um período reduzido em alguns anos por especialistas na história. Ou seja, Dias vai para os States quando o jazz ainda vivia a opulência da eletrificação. Pat Metheny vinha de Bright Size Life, de 1976, Pat Metheny Group, de 1978, American Garage, de 1979, e tudo mais que aprendeu na vida ouvindo Toninho Horta. O Steps Ahead fazia Smokin In The Pit e Herbie Hancock chegava com Mr. Hands, no mesmo 1980. Al Di Meola se juntava a John McLaughlin e Paco de Lucia para a artilharia mais pesada da história das seis cordas e Chick Corea lançava seu disco gravado ao vivo em Montreux.

Um completo desconhecido nos Estados Unidos, Dias só dependia das próprias habilidades para sobreviver. “Foi quando percebi que estudar valia para alguma coisa”, diz. Já havia estudado com Ravi Shankar, de onde traria um conceito de temas ultra melódicos com tempos complexos trocando de compassos quebrados rapidamente. Em pouco tempo, passou a ver a seu lado nos palcos e nos estúdios, John McLaughlin, Michael Brecker, David Sanborn e Jaco Pastorius. Só lembrando, nenhum deles fazia ideia de quem eram os Mutantes.

“Acho que eu só tocava razoavelmente bem para não me jogarem na rua”, brinca. Com a banda Unit, tocava pelas casas de Manhattan e depois, com a Steps Of Imagination, com Danny Gottlieb, o baterista de Pat Metheny, que teve Airto e Flora Purim na formação, seguiram para concertos em outros Estados.

Um outro Sérgio Dias volta então ao Brasil com jazz saindo-lhe pelos poros, disposto a gravar os temas que compôs por lá, inspirados em Metheny, McLaughlin e toda uma linguagem com a qual o rock and roll feito no Brasil nem sonhava em flertar. O jazz fusion, ou jazz rock, era uma reação de jazzistas norte-americanos ao poderio roqueiro dos anos 1970, com o tráfico das guitarras distorcidas do rock e os timbres de teclados elevando os decibéis das gravações e radicalizando no protagonismo dos solos. Dias vai para o palco da casa Jazz Mania para uma pequena temporada em 1986, no Rio, e registra tudo. Seu material fica engavetado até 2003, quando é lançada uma tiragem de apenas dois mil CDs. Ou seja, tudo é ainda quase inédito.

O show que ele faz nesta quinta, 9, no Blue Note de São Paulo, é assim a chance de ver a mutação mais radical de um mutante. Sua gig jazzística terá Camilo Macedo no baixo, Tiago Giovani nos teclados, Richard Ferrarini na flauta e no sax e Elvis Toledo na bateria. O repertório pouco conhecido, que não está nas plataformas digitais e que conta com um “full album” no YouTube de tímidas 5.536 visualizações, segue o repertório do álbum com mais dois blues, um para Rita Lee, chamado Everywhere I Go, e outro feito para o irmão Arnaldo, Surrender. Se vai tocar algo mais pop dos Mutantes? “Tudo é possível, mas com certeza não será nada parecido com o que as pessoas conhecem.”

Mutantes

“Eu sou o único mutante que nunca saiu da banda”, diz ele. “Isso está dentro de mim, e percebi a responsabilidade (de manter a banda) quando vi aqueles garotos cantando todas as músicas do grupo no primeiro show que fizemos.” Ele então adianta um assunto, ainda que sem maiores detalhes.

A banda que nunca acabou, apesar de seus vários reveses de formação, tem pronto um disco com material inédito para ser lançado no próximo dia 20 chamado ZZYZX, o nome técnico da vigiada Área 51 nos Estados Unidos, uma região cercada por grades e guardas no deserto de Nevada, a 135 km ao norte de Las Vegas. O que há lá dentro é secreto e invasores que tentam entrar ou sobrevoar a região são imediatamente, digamos, descontinuados. “É uma área que fica perto de minha casa, em Los Angeles”, diz Sérgio. “Tentamos entrar lá uma vez, mas logo vieram os carros de polícia e nos retiraram.” O álbum terá essa áurea distópica, falando de personagens como “o último pássaro de prata” em Last Silver Bird e da história de um mutante que cansa da raça humana.

Sobre Rita

Sérgio leu o livro autobiográfico de Rita Lee lançado em 2016, incluindo as partes em que aparece em situações pouco simpáticas, como à mesa com a família em uma cena de certa escatologia, e a página em que é definido por ela como um guitarrista com “95% de técnica e 5% de alma”. Sérgio diz que postou uma foto, ele deitado no colo da roqueira em uma cena amorosa, e escreveu a frase: “Uma foto vale mais do que 20 mil livros escrotos”. “Eu sei do tamanho do respeito que ela tem por mim na vida real”, ele diz. “E entendo que deve doer em Rita o fato de os Mutantes serem muito maiores do que ela no mundo inteiro.”

SERVIÇO

JAZZ MANIA AO VIVO BLUE NOTE SÃO PAULO
AV. PAULISTA, 2.073, TEL. 3179-0050.
5ª (DIA 9). ABERTURA DA CASA: 19H,
SHOW ÀS 20H. R$ 120 E R$ 60 (MEIA) LOUNGE: R$ 90 E R$ 45 (MEIA)

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

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