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Cinema

Mick Jagger volta ao cinema em ‘The Burnt Orange Heresy’

Por Agência Estado

08 mar 2020 às 08:00 • Última atualização 27 abr 2020 às 11:14

Passaram-se quase 20 anos desde que Mick Jagger trabalhou como ator pela última vez, mas como mostra o novo filme (The Burnt Orange Heresy (uma obra-prima), não está minimamente enferrujado. No filme, da Sony Pictures Classics, que estreou na sexta, 6, Jagger atua ao lado de Claes Bang e Elizabeth Debicki como um maligno colecionador de arte que astutamente convence um jornalista (Bang) a usar uma rara entrevista com um artista poderoso (Donald Sutherland) como uma oportunidade para roubar um dos seus quadros. É o primeiro filme de Jagger desde The Man from Elysian Fields (Confissões de um Sedutor) de 2001 e, sim, poderia ser o seu último.

“Queria ter atuado muito mais”, disse Jagger em entrevista por telefone, e acrescentou com humor: “Você sabe, tenho outro emprego. Tenho vários empregos, na realidade”.

Foto: Divulgação
Cantor retorna para as telonas depois de quase 20 anos

Quando não estava em turnê com os Rolling Stones, o roqueiro de 76 anos criou uma carreira itinerante, mas aventureira no cinema. Preferiu cineastas mais experientes, trabalhando com Jean-Luc Godard, Nicolas Roeg e Werner Herzog. Com menos créditos na telona do que David Bowie, mas mais do que Bob Dylan, a carreira cinematográfica de Jagger foi corajosa. Ele é um excelente ator, embora as interpretações para a tela grande devam ser sempre minimizadas pelo grande espetáculo que oferece seu alucinante personagem cheio de energia.

“Sempre gostei da ideia”, afirmou Jagger por telefone, da França, sobre o seu papel. “Gosto da mudança de ritmo e do foco da atuação. Atualmente, quando represento, em geral é em lugares grandes com muita gente, mas em um set pequeno, você atua de modo mais sutil e sem gestos tão elaborados. Você precisa baixar o tom.”

Às vezes, o destino (e as datas das turnês) interfere. O papel de Jagger no delirante filme de Herzog, Fitzcarraldo (1982), foi editado porque o protagonista principal, Jason Robards, adoeceu – e quando retomaram as filmagens na selva do Peru, Jagger tinha uma excursão com os Stones. Klaus Kinski assumiu o papel de Robards. Herzog disse que a partida de Jagger foi “uma das perdas maiores que experimentou como diretor”. Partes da interpretação de Jagger podem ser vistas em documentários, como O Peso dos Sonhos e My Best Friend. “Foi uma pena”, lembrou o cantor. “Então Klaus Kinski fez o papel melhor do que eu. Mas não deixou de ser uma experiência.”

O roteiro de The Burnt Orange Heresy chegou no momento certo. Filme é dirigido pelo italiano Giuseppe Capotondi, cuja estreia, em 2009, mostrou o seu talento em criar uma atmosfera sombria de intrigas e mistério. Baseado no romance de Charles B. Willeford, de 1971, é o tipo de filme elegante que vemos cada vez menos, com atores glamourosos em um ambiente refinado (Lago de Como da Itália).

Quando Capotondi se encontrou com Jagger em Londres para falar sobre o papel, se surpreendeu com a humildade do superastro do rock. “Ele disse: ‘Olha, não faço isso há 20 anos, pode ser que esteja enferrujado'”, relembrou Capotondi.

Jagger construiu seu personagem com o cabelo penteado para trás e sotaque ligeiramente ameaçador de Chelsea, dos anos 1960. O marchand de arte de Jagger faz ao personagem do escritor, de Bang, uma proposta como a que tentou Fausto.

Capotondi considera o personagem uma versão do diabo, um papel muito adequado para o compositor da canção Sympathy for the Devil. “Interpretar o diabo é algo que pode atrair atores. É um personagem com um quê de serpente”, afirmou Capotondi. Jagger está menos convencido da relação entre The Burnt Orange Heresy e o clássico da banda de 1968, parcialmente inspirado no romance de Mikhail Bulgakov sobre Belzebu em Moscou, de 1930, O Mestre e Margarida, e um poema de Baudelaire. Mas o marchand de Jagger é definitivamente “um homem rico e de bom gosto” e mostra de modo divertido o carisma demoníaco do roqueiro.

Um dos primeiros filmes de Jagger continua sendo um de seus mais famosos: o alucinante longa de Nicolas Roeg, Performance, de 1970, no qual vive um roqueiro desnorteado pelas drogas. O filme foi muito criticado na estreia, mas depois virou cult. Também interpretou o personagem principal em Ned Kelly de Tony Richardson, o mercenário Victor Vacendak em Freejack – Os Imortais, de 1992, e uma drag queen em Bent. Foi produtor executivo da efêmera série da HBO Vinyl e produziu o filme biográfico Get on Up – A História de James Brown.

E muitos documentários registraram os Stones, incluindo Gimme Shelter, sobre o trágico concerto de Altamont, de 1969; Shine a Light, de Martin Scorsese; Crossfire Hurricane, de Brett Morgan, e o documentário íntimo, mas caótico de Godard: Sympathy for the Devil. “Eu perguntava a Jean-Luc: Como é o resto da gravação?. E ele não respondia. Não creio que soubesse”, contou o vocalista.

Jagger, que se submeteu a uma cirurgia do coração no ano passado, prepara-se para o trecho americano da excursão dos Stones No Filter na metade do ano. Mas a banda continua a fazendo parte da trilha sonora do cinema como no drama Entre Facas e Segredos, que incluiu Sweet Virginia, dos Stones. Mas Jagger admite que The Burnt Orange Heresy poderá ser sua despedida da telona. “Se não me oferecerem outro papel decente, quem sabe. Só faria se valesse a pena”, brincou.

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.