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Cultura

Entre ruas e clubes, com altos e baixos, a história do Carnaval em Americana

Reportagem conta a relação histórica da cidade com a festa, que ocorre desde o início do século passado

Por Gabriel Pitor

11 de fevereiro de 2024, às 08h31 • Última atualização em 11 de fevereiro de 2024, às 09h18

O Carnaval ainda florescia no Brasil quando foram encontrados, em 1923, os primeiros registros da festa na então Vila Americana. No Rio de Janeiro, onde a celebração se deparou com um terreno fértil para crescer, já havia o rancho carnavalesco, os bailes com máscaras e os primeiros blocos e cordões. As ideias ainda eram muito parecidas com as do carnaval francês, no qual a burguesia carioca se inspirou e iniciou uma cultura que seria apoderada futuramente pela massa.

Já na cidade de São Paulo, os camponeses e trabalhadores das colheitas de café se reuniam para fazer o samba, os batuques e os primeiros cordões que dariam origem, décadas depois, a escolas tradicionais como Vai-Vai e Nenê de Vila Matilde.

Embora os primeiros carnavais tenham sido registrados nos anos 1850, no Rio, a comunicação ainda era precária e dificultava a perpetuação para outras localidades. Isso começou a mudar no início do século 20 e as notícias de como funcionava a festa chegaram à Vila Americana.

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O jornal O Município, principal periódico da vila nos anos 1910 a 1940, relatou na edição de 18 de fevereiro de 1923 alguns detalhes do Carnaval realizado nos dias 10 a 13 e que teve como tema uma homenagem à equipe de futebol do Rio Branco, campeã do interior em 1922.

Grupo de foliões durante baile de Carnaval na sede social do Rio Branco – Foto: Arquivo_LIBERAL

Um dos carros alegórios trouxe um tigre (mascote do Rio Branco) olhando para um índio (em referência ao Bugre, mascote do Guarani, time de Campinas) que estava cabisbaixo sob as garras do animal. Era uma provocação ao grande rival do Alvinegro americanense naquela época.

A festividade foi realizada no formato de corso, ou seja, tinha um trajeto definido que passava por algumas ruas da região central e pelo Parque Ideal — próximo à Rua 12 de Novembro —, mas não eram organizados como os cordões e os blocos. Qualquer pessoa podia ir para a rua, entrar na fila com as suas máscaras e fantasias, cantar marchinhas que eram acompanhadas de instrumentos de orquestra e comemorar.

Assim foi o Carnaval da vila e, a partir de 1924, da cidade de Americana até o fim dos anos 1940. Em Carioba, embora tivesse o Clube Esportivo e Recreativo Carioba, as comemorações aconteciam majoritariamente nas ruas.

Rio Branco impulsionou o Carnaval nos clubes

O cenário da festa começou a mudar quando o Rio Branco, que carregava a tradição do futebol, lançou a pedra fundamental de sua sede social, na Rua Fernando Camargo, em 1942. Os registros são escassos deste período, principalmente de jornais, mas há notas sobre bailes de Carnaval promovidos pelo clube em 1948.

Comemorações tímidas que reuniam algumas centenas de pessoas, mas que se fortaleceram ao longo das décadas e se tornaram pomposas, grandiosas. Bandas de várias cidades do Estado de São Paulo eram contratadas para agitar os bailes carnavalescos do Rio Branco, que geralmente começavam na sexta-feira à noite e se repetiam até a terça.

O sucesso dos bailes do Tigre incentivou outros clubes sociais, nas décadas seguintes, a investirem na festa: Clube do Bosque, Veteranos, Flamengo e até mesmo a Fidam (Feira Industrial de Americana). Todos tinham as suas atrações. Os clubes até os anos 1990 foram os principais pontos do Carnaval na cidade. Já as ruas, dos anos 1940 aos 1960, ficaram vazias.

“Eu lembro que quando começou, eu era pequeno, reunia umas quatro mil pessoas. Mas o Rio Branco tinha um pensamento de investir no Carnaval. A gente trazia bandas caríssimas. Cobrava mais caro para quem não era sócio, mas mesmo assim teve um tempo que dava mais de 10 mil pessoas. O Rio Branco chegou a ter quase 15 mil sócios por causa do Carnaval”, contou Armindo Borelli, ex-diretor e ex-presidente do Rio Branco nos anos 1992 a 1994.

A Banda do Brejo, de Valinhos, em atividade há 50 anos, era uma das mais conhecidas e uma das que mais arrastava pessoas para a sede social do Tigre. O baixista Angelino Musselli, conhecido como Sapo, se recorda do salão da agremiação cheio nos dias de folia.

“Sempre ia muita gente. Era um Carnaval espetacular. Além das marchinhas tradicionais, a gente tocava sambas das escolas do Rio de Janeiro. Também levávamos dois casais bailarinos de axé para ensinar o pessoal a dançar. Ninguém parava e o público era muito animado, sinto saudade”, disse.

Rua Fernando Camargo lotada para o desfile de Carnaval de 2008 – Foto: Juarez Godoy

Carnaval de rua ressurge no fim dos anos 1960

Mas no fim dos anos 1960, alguns jogadores de hóquei do Rio Branco resolveram se unir e criaram o Bloco da Salvação. Era a volta do Carnaval de rua, ainda que timidamente e de forma muito artesanal, com a intenção de fazer sátira da política, principalmente na época da ditadura militar, iniciada em 1964.

“Nós começamos com 10, 15 pessoas e anos depois tinha centenas, até milhares de pessoas. A gente pegava aqueles sacos de açúcar para fazer as fantasias. O Salvação não se importava com luxo, queria satirizar, provocar, beber, desfilar. Tinha alegoria que a gente fazia e a gente acabava preso, nós éramos jovens”, relatou Luiz Antonio de Moraes, o Lula, um dos fundadores do Salvação.

Muitos blocos começaram a pipocar pela cidade, mas dois se destacavam pela rivalidade: Bananeira e Salvação. Por alguns anos, até o surgimento das escolas de samba nos anos 1980, os dois blocos fomentaram o Carnaval de rua de Americana, cada um com as suas características. Os membros do Bananeira trouxeram o luxo das alegorias, enquanto o Salvação queria afrontar.

Foliões fantasiados participam de desfile de rua em Americana nos anos 2000 – Foto: Juarez Godoy

Mas se engana quem acredita que os clubes perderam força. Pelo contrário, eles só se fortaleciam e eram o ponto de encontro no fim da noite de todos os participantes de blocos. A rua se tornou um aquecimento para as festas no Rio Branco, por exemplo.

“A gente se encontrava no Rio Branco. Quase todo mundo que desfilava na rua ia para o clube, durante décadas foi assim. No clube, a rivalidade Bananeira e Salvação foi crescendo, isso fortaleceu o Carnaval na cidade. Quando a banda parava de tocar, cada um entoava o grito de guerra do seu bloco, era muito legal”, recordou Cláudio Froner, um dos fundadores do Bananeira.

A ideia do Carnaval de rua cresceu, as escolas surgiram e até o fim dos anos 2000, o carnaval de Americana se tornou, segundo Lula, uma referência regional na organização — inclusive com desfiles, alegorias, apurações e vencedores, assim como é, atualmente, as festividades do Rio de Janeiro e da cidade de São Paulo.

A decadência coincidiu com a crise financeira do município no início dos anos 2010. Porém, para Juarez Godoy, que participava de desfiles como ritmista, um outro motivo pode explicar o fim do Carnaval de rua de Americana.

“Para mim, o que faltou foi samba. Os carnavais no Rio de Janeiro e em São Paulo não vão morrer porque você tem uma raiz, você tem um povo engajado em fazer o samba e em levar o samba para as pessoas. Aqui em Americana foi como uma onda. Essa onda passou, porque não tinha uma representatividade”, ponderou.

Para Froner, a festa “perdeu a graça” em Americana, ainda mais com o fim do Carnaval de rua e com o enfraquecimento dos clubes associativos nos anos 2000. Praticamente não tinha mais Carnaval na cidade, pelo menos não como no passado.

Afundado na crise financeira que levaria ao leilão da sede social em 2010, o Rio Branco, por exemplo, deixou de fazer os seus tradicionais bailes. Para Borelli, faltou interesse em dar sequência à tradição.

“Faltou investir no Carnaval, investir nas festas e no associado. A crise financeira tem vários motivos, mas acho que faltou interesse das diretorias. Quando fui presidente, a gente tinha de olhar para o social e para o futebol, depois esse pensamento mudou um pouco”, afirmou.

Nos últimos anos, algumas iniciativas têm tentado retomar a festa no município. Em 2023, foram realizadas apresentações em centros sociais, praças, calçadão e o CarnaPraia. O evento realizado na orla da Praia dos Namorados acontecerá novamente neste ano e reunirá atrações que, com diversidade de ritmos, têm o objetivo de agradar aos mais variados públicos.

Entretanto, as características das programações são diferentes do antigo Carnaval, o que representa uma nova fase da celebração na cidade.

A história do Carnaval em Americana, publicada de forma inédita pelo LIBERAL, terá sequência na próxima terça-feira (13) com o levantamento dos blocos e das escolas de samba que por anos agitaram a cidade.

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