No mundo às avessas, quem é o parasita?


Mesmo no mundo afluente a questão das grandes disparidades sociais se impõe como problema. Se é dramática em países como o Brasil, não deixa de incomodar em paragens mais desenvolvidas, como a Coreia do Sul. É de lá que vem esse inquietante Parasita, de Bong Joon-ho, já bem conhecido aqui por seu O Inquilino, flerte com o cinema de gênero fantástico.

Com esse traço de deformação, o cineasta franqueia os limites do realismo e impõe o tom de estranheza que, muitas vezes, faz a diferença entre as grandes obras e as apenas boas. É desse modo que ele descreve, visualmente, as famílias em contraste, os paupérrimos Ki-taek e os riquíssimos Park. Os primeiros sobrevivem em um muquifo que, literalmente, fica abaixo do nível da rua. Subsolo, no qual os moradores são obrigados a alçar a cabeça para enxergar quem anda pela calçada. É simbólico, mas também literal – Jooh-ho tem dito em entrevistas que esse tipo de moradia existe mesmo em Seul. Não é coisa de sua imaginação.

Em todo caso, produz um grande efeito no filme. Em especial quando contrasta com a residência modernosa dos Park, ampla, situada em parte alta, cheia de recursos tecnológicos. Parece, às vezes, aquela casa ironizada por Jacques Tati em Meu Tio, mas sem o tom de comédia. É uma modernidade mais soturna que solar.

Enfim, esse é o ambiente do filme e sabemos, desde o expressionismo alemão, como a cenografia deve “falar”, a ponto de se transformar em personagem da trama. É o que acontece em Parasita.

Claro, há os personagens. Os ricos e em aparência bem resolvidos Park têm lá suas fragilidades. São vaidosos e inseguros, o que os torna vulneráveis. Em especial para aqueles que vêm o mundo de baixo para cima, como Ki-taek, mas estão longe de se sentirem conformados com sua condição.

O convívio que se estabelece entre as duas famílias não deixa de ter antecedentes, mas é exposto de maneira muito original. Criados e patrões, em convivência e/ou conflito fazem parte da tradição de cinema, por exemplo no clássico A Regra do Jogo, de Jean Renoir. Também está nos contemporâneos brasileiros Que Horas Ela Volta?, de Anna Muylaert, e no ainda inédito Três Verões, de Sandra Kogut.

Sempre é uma relação assimétrica, por mais eufemismos que sustentem que “são quase como da família” em sociedades de herança escravocrata, como a nossa. De qualquer forma, esse é um convívio íntimo entre classes desiguais e com interesses conflitantes, como não costuma acontecer em nenhum outro tipo de situação. Exatamente por isso presta-se tão bem como espaço ficcional para discutir conflitos de classes que podem permanecer mascarados ou latentes em ambientes nos quais o distanciamento entre os personagens é maior.

Parasita trabalha esse tema com a precisão de um cronômetro, no qual todas as peças se encaixam de maneira perfeita. Mas, ao mesmo tempo, abre-se para as dissonâncias surgidas pela estranheza da situação. Esse apelo ao fantástico revela-se muito rico ao colocar em perspectiva o quanto nada tem de natural um mundo estruturado dessa maneira. Permite também se perguntar, afinal, quem é o parasita de quem.

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

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