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Cultura

Carolina Markowicz: ‘O humor trágico faz parte da minha visão de mundo’

Por Agência Estado

03 de dezembro de 2023, às 08h01 • Última atualização em 03 de dezembro de 2023, às 13h21

A diretora paulistana Carolina Markowicz realizou um feito notável: em apenas dois anos, conseguiu colocar dois filmes na tela grande. Primeiro foi Carvão, excelente longa-metragem que estreou em novembro de 2022 e chamou a atenção por ser tão cru e real. Agora, ela lança Pedágio, produção elogiada e premiada ao redor do mundo e que entrou em cartaz na quinta-feira, 30.

Curiosamente, não só os lançamentos foram próximos um do outro como também a produção. Carolina rodou Carvão e, apenas três meses depois, já estava no set novamente para filmar Pedágio. É como ela mesma definiu: fica a sensação de ter “dois primeiros filmes”.

Ter duas produções lançadas assim, uma seguida da outra, oferece clareza sobre a linguagem da diretora. Ela aborda temas duros, com um humor bem característico, cutucando o que há de mais reativo e conservador na sociedade.

Em Carvão, Carolina fala sobre a relação entre morte e dinheiro em uma família que vive de maneira precária e sem futuro. E, em Pedágio, o foco está em Suellen (Maeve Jenkins, também protagonista de Carvão), funcionária de um posto de pedágio que percebe que pode usar seu trabalho para conseguir dinheiro extra, ilegalmente. No entanto, o foco não é apenas melhorar de vida, mas enviar seu filho (interpretado por Kauan Alvarenga) a uma clínica de “cura gay”.

Markowicz tem se tornado uma cineasta necessária e instigante. Foi a primeira brasileira a receber o prêmio de “talento emergente” no Festival de Toronto. Com o curta O Órfão, de 2018, levou a Queer Palm na Quinzena dos Realizadores, em Cannes, e foi premiada em Havana, Miami e Biarritz, na França. Não é para menos: seu cinema chegou para mexer, provocar e embolar as discussões. Tem coisa melhor?

Nesta conversa com o Estadão, ela fala sobre seu cinema, os desafios e os objetivos de Pedágio e o que podemos esperar após essa dobradinha.

Como nasceu Pedágio? Você se inspirou no que observou ao seu redor?

A gente vive uma grande loucura que vai para além da violência contra a comunidade, com um viés de escárnio desrespeitoso que não vemos em outros lugares do mundo. Nós temos pessoas no poder que fazem isso, retroalimentando a sociedade a também fazer isso. É muito louco. Isso sempre foi uma questão para mim, de verdade. Queria fazer um filme para entender a homofobia que vai além do óbvio, do que sabemos. Afinal, existe a questão da homofobia que transcende os fundamentalistas religiosos. Todo mundo é homofóbico. Essa é a real. Ninguém quer ter um filho gay. Tudo bem ter um amigo gay, mas filho? Um pai gay? É uma coisa tão amalgamada na sociedade que me interessou falar mais sobre isso, discorrer a respeito em um filme que retrata a homofobia além do óbvio.

A própria mãe demonstra uma homofobia forte, que reproduz sem perceber o quanto machuca o filho.

Totalmente. Ela não para, já que é produto dessa sociedade de que comentamos. Ela já é uma mãe solteira. Não está na teoria do correto, do louvável, do ideal. Já não é correta na visão dessa sociedade arcaica. Aí tem o filho dela, que é gay. Algo de errado está acontecendo ali? Algo de errado ela fez. Os amigos do trabalho comentam, os vizinhos idem. A mãe é atingida pelo sentimento de vergonha. É um sentimento ruim. E é nesse ponto que vem o humor do filme. A história mexe com esse sentimento de vergonha, considerado um sentimento menos violento, mas que é muito poderoso.

Ainda sobre a mãe: já é seu segundo trabalho com a atriz Maeve Jenkins como protagonista. Como é essa relação com ela?

(Risos) Ela é uma das melhores atrizes do mundo. Eu considerei a Maeve para fazer Carvão, em 2016, quando a gente nem se conhecia. Zero intimidade. Quando Pedágio começou a acontecer, precisava escolher alguém para fazer o papel dessa mãe. A Maeve não saía da minha cabeça e se o filme está te pedindo alguma coisa, você tem de ouvir. Não queria que fosse a mesma protagonista nos dois, mas mandei o roteiro para ela e acabou rolando. Não a conhecia, não tínhamos intimidade, mas acabou acontecendo. Digo que o diretor que trabalha com ela tem sorte. Maeve escolhe os trabalhos a dedo, se dedica muito, é muito talentosa. É um conjunto muito hábil, frutífero, o que ela faz. Ela é muito concentrada também. Acabamos fazendo Carvão e Pedágio muito próximos um do outro, mas deu certo também por causa dela. Ela faz o trabalho lindamente, curiosamente vivendo duas mães, com questões diferentes, mas bem densas e complexas.

Como foi lançar dois filmes tão perto um do outro?

Engraçado, foi um processo muito demorado. Estou há oito anos fazendo esses filmes. Mas como eles se juntaram e a produção foi próxima um do outro, parece que foram rápidos. Só que não, foram realmente demorados. O fato é que foi uma loucura. Foi quase como se eu estivesse fazendo dois primeiros filmes. Não tive tempo de decantar entre as duas produções. Rodei Carvão e coisa de três ou quatro meses depois, comecei Pedágio.

É curioso: os dois filmes se valem de um humor trágico. Isso foi fruto do seu momento ali, gravando os dois muito próximos um do outro, ou é uma marca sua e poderemos encontrá-la em outras histórias?

Eu tenho esse humor. Pode até ser que eu faça dramas sem qualquer humor, mas é um tom difícil de não ter nos meus filmes. Vejo o mundo dessa maneira. Não é nada ocasional. Quem me conhece sabe que tenho esse humor mais trágico, mais ácido. Faz parte da minha visão de mundo e acredito que isso estará nos filmes que farei, mesmo que apareçam pequenas mudanças. Carvão é mais duro, mais denso. Pedágio tem mais ironia.

Por fim, falando em novos filmes, você pensa em dirigir produções estrangeiras? Ou seu projeto é continuar pensando apenas em filmes no Brasil?

As duas coisas. Já estou desenvolvendo um filme com uma produtora americana, que comecei a criar já em Carvão. Começou inspirado em um artigo, mas acabou virando uma ideia original e agora já está na fase de tratamento. Também tenho outro projeto aqui no Brasil. Isso corresponde ao que quero fazer: filmes estrangeiros, desde que sejam sobre histórias que eu queira contar, e filmes aqui, já que é meu país e tem coisas que eu quero dizer, mostrar, para entender as vicissitudes brasileiras. Não me imagino não fazendo filmes no Brasil.
As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

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