Fusão entre cor e plano é o tema de Michalany


Em sua primeira exposição na Galeria Millan, Cor-Planar, aberta no sábado, o pintor paulistano Cássio Michalany, 70, refere-se, ainda que indiretamente, aos postulados que responderam pelo advento da abstração hard-edge e do minimalismo nos Estados Unidos há mais de meio século. Fiel à questão que sua pintura suscita – como a permutação cromática constrói a forma na tela – Michalany avança em sua pesquisa sobre as propriedades formais da cor, enfrentando o desafio da superfície bidimensional. É uma mostra que desperta no espectador o desejo de participar da construção dessa montagem formal ditada pela permutação.

Numa analogia de caráter musical, seria como acompanhar uma improvisação jazzística em que as variações cromáticas servem ao propósito de retomar o tema inicial numa outra dimensão, como fazia Eric Dolphy quando tocava (com Charles Mingus) notas que soavam insólitas mas eram absolutamente naturais. Mesmo que isso pareça estranho para quem desconhece música, não o será para quem visitar a exposição. Embora seja uma pintura de elaboração complexa, a de Michalany é muito simples de se ver. Ela toca a sensibilidade do espectador sem precisar de uma bula para explicar seus efeitos. O “menos” continua sendo “mais” nessa pintura, ecoando o principal mandamento minimalista.

Não seria, portanto, um equívoco associar Michalany ao minimalismo e ao hard-edge norte americano, embora o pintor seja um brasileiro que começou a carreira anos depois da eclosão dos dois movimentos artísticos norte-americanos. Na pintura hard-edge, por exemplo, as formas são planas e não levam o espectador a uma associação com outras formas reconhecíveis – elas são simplesmente autônomas, como as da exposição Cor-Planar, em que cores se confundem com o próprio plano. Outro ponto em comum com os pintores hard-edge: a economia da forma e o predomínio da cor, apresentada com intervenção discreta do autor.

Afinal, a rejeição à pincelada expressiva, ou seja, ao gestual empregado pelos expressionistas abstratos, marca a pintura de artistas como Barnett Newman e Ellsworth Kelly. É a mesma atitude de Michalany, que dialoga com a pintura de ambos. Ele se manteve coerente a esse princípio desde duas primeiras obras (fim dos anos 1970), pintadas sobre lona crua – nos anos 1980 ele ficou ainda mais econômico no uso da cor e, finalmente, nos anos 1990, deu início à permutação das faixas de cor, que emprega até hoje, pesquisando como uma cor pode alterar a estrutura total de uma tela. Nesse ponto, não é supérfluo associar Michalany a outro grande pintor americano, Brice Marden, geralmente descrito como minimalista, em especial quando se pensa nas telas dos anos 1970 (For Pearl, dessa época, tem tudo a ver com a pintura de Michalany).

A despeito dessas afinidades eletivas, Michalany não seguiu o caminho de Barnett Newman (as cores vibrantes do período final) nem de Ellsworth Kelly. Arquiteto e ex-professor, o pintor mantém um vínculo estreito com outros criadores que atuaram em campos distintos como a escultura – e a interação das esculturas de Amilcar de Castro com o espaço, formando figuras geométricas, é o exemplo mais evidente dessa identificação. Um chamado ao silêncio e à sutileza convidam o espectador a se deslocar diante das telas de pequenas dimensões como se contemplasse um mundo afinal pacificado.

Nos dípticos ou polípticos de Michalany (em geral compostos por quatro pequenos painéis fixos que completam uma unidade), o olho se confunde ao acompanhar essas permutações, vagando pela superfície em busca de uma definição cromática peremptória – um “tierra de Siena” natural surge transmutado como numa conversão alquímica no plano, ao ser confrontado com um verde musgo.

Mas, ao contrário da pintura hard-edge, a fronteira não é nada rígida entre cor e plano. As telas, embora autônomas, acabam estabelecendo um diálogo graças à intervenção da cor branca central. É pintura de mestre, de um artista que vem fazer companhia a outro grande da Millan, Paulo Pasta.

SERVIÇO

CÁSSIO MICHALANY.
GALERIA MILLAN. RUA FRADIQUE COUTINHO, 1.360, TEL. 3031-6007. 2ª/6ª., 10H/19H. SÁBADOS, 11H/18H. ENTRADA GRATUITA. ABERTA ATÉ 7 DE DEZEMBRO.

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

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