17 de abril de 2021 Atualizado 00:20

8 de Agosto de 2019 Atualizado 13:56
MENU

Publicidade

Compartilhe

Entrevista

Adriana Esteves fala sobre como é gravar em um ‘novo mundo’

Na pele da intensa Thelma, Adriana Esteves valoriza trajetória diversa da vilã na reta final de “Amor de Mãe”

Por Caroline Borges / TV Press

31 mar 2021 às 10:14

A variedade artística sempre foi um destaque na trajetória profissional de Adriana Esteves. Ao longo das mais de três décadas diante do vídeo, a atriz de 51 anos encarou vilãs, mocinhas e personagens cômicas. Sua experiência prévia, inclusive, gabaritava Adriana para praticamente tudo dentro da tevê.

“Amor de Mãe” foi o segundo projeto de Adriana ao lado da autora Manuela Dias. Ela também integrou o elenco da série “Justiça” – Foto: Divulgação / Globo

Ainda assim, a atriz não encontrou repertório para lidar com as consequências de uma paralisação inédita devido aos impactos da pandemia de covid-19 no último ano. Com o avanço da doença, a intérprete da intensa Thelma, de “Amor de Mãe”, viu seu trabalho ser suspenso por quase seis meses.

“Foi algo totalmente novo. Estávamos com muita vontade de voltar. Mas, quando entrei nos estúdios novamente, fiquei bem impactada pela nova realidade. Equipe reduzida, todo mundo de máscara, distanciamento… Me deu uma certa solidão. Fiquei bastante emotiva ao me deparar com o trabalho novamente”, afirma.

Após quase um ano fora do ar, “Amor de Mãe” retornou com 23 capítulos inéditos. Até o começo de abril, Thelma fará de tudo para guardar o segredo que Danilo, papel de Chay Suede, é, na verdade, Domênico, o filho perdido de Lurdes, vivida por Regina Casé.

“O final da Thelma me emocionou muito. Durante os 23 capítulos finais, ela é doida e é vilã, mas também tem uma coerência e uma beleza muito fortes no final. Acho que voltamos com mais entusiasmo, com muita vontade de terminar a história e dar um desfecho para ela”, despista.

As gravações de “Amor de Mãe” ficaram suspensas por quase seis meses. Como aconteceu essa definição de retorno aos estúdios?

Preciso dizer que o José Luiz Villamarim, nosso diretor, foi um pai para a gente. Ele deu toda a segurança necessária para que voltássemos ao trabalho. Tudo antes da volta foi muito conversado com o elenco e a equipe. Nada foi feito de maneira impositiva, sempre questionavam se a gente se sentia apto para voltar. O Zé foi extremamente rígido na condução desse protocolo, porque ele é muito responsável e consciente. Ter uma pessoa tão responsável nesse cargo de liderança ajudou muito a nos deixar confortáveis no “set”. Tivemos sorte de ter o Zé como condutor desse projeto.

Como foi esse reencontro com o elenco após tanto tempo isolados?

Foi muito especial. No primeiro dia de “set”, lembro de ver o Chay de longe, na cidade cenográfica e de máscara. A gente morrendo de saudade de se abraçar. Queria abraçar a todos do elenco. Além disso, pisar no MG4 (novo complexo de estúdios) foi bastante impactante. Era um outro mundo

De que forma?

Em televisão, a gente está acostumado com equipes bem numerosas. Foi totalmente o contrário. Trabalhávamos com um quinto da equipe original. Todo mundo com máscaras e roupas especiais. Isso tudo me deu um frio na barriga, uma solidão. Me deixou bastante emotiva, mas, de certa forma, nosso trabalho é feito com emoção. Então, veio essa onda grande e a gente teve de surfar. Estávamos preparados para sermos “big rider” (surfista reconhecido por pegar grandes ondas). Como não existe o ideal ou o perfeito, acho que essa nova fase foi muito verdadeira e espontânea. Acho que isso fica evidente no vídeo.

Ao retomar as gravações, você buscou uma nova composição para a Thelma?

Não, não precisei fazer um novo processo de composição. Eu tive a impressão de que a gente não largou a novela nesses meses de paralisação. O personagem ficou bem guardadinho e estávamos loucos de vontade de colocar para fora. Afinal, no nosso coração, o trabalho não tinha terminado. Ninguém ficou cansado durante esse projeto. Estávamos muito animados de voltar aos estúdios para realizar um trabalho inédito para o público.

Como assim?

Nesse período com tantas reprises, a gente fica feliz quando vê um trabalho inédito. Eu fiquei com receio e medo de sair de casa para gravar. Claro, estava me expondo e me arriscando. Mas, ao mesmo tempo, parecia que era o que a gente podia fazer por quem estava em casa louco por um entretenimento inédito, querendo ver o desfecho da novela. Cada programa inédito é um presente. “Amor e Sorte”, programa que a Taís (Araújo) fez durante a quarentena, foi maravilhoso. Era ótimo ver algo novo. Estou muito feliz que vamos ter esse mês inédito de “Amor de Mãe”.

Inicialmente, a Thelma não apresentava nenhum traço de vilania. Porém, na reta final, ela comete diversos assassinatos para esconder o segredo sobre a verdadeira identidade do filho. Essa mudança na trajetória da personagem influenciou de alguma forma no seu trabalho de criação?

Quando eu começo a fazer um trabalho ou uma personagem, eu não penso se ela vai ser vilã ou mocinha. Aliás, mocinha não, porque não dá mais, né? (risos). Mas não penso se vai ser vilã ou heroína. Eu gosto de pensar na pessoa que estou construindo. Se a personagem é construída de uma forma humanizada, não importa se faz vilania ou não, porque está dentro de um contexto coerente.

Em algum momento, você teve receio que o público associasse a Thelma com a Carminha, de “Avenida Brasil”?

Não, não me preocupei em momento nenhum. São duas personagens absolutamente diferentes e escritas por autores diferentes. Fiz duas vilãs do João Emanuel Carneiro. Além da Carminha, eu também fiz a Laureta, de “Segundo Sol”. Então, ali minha preocupação foi maior porque eram filhas de um mesmo autor. Mas o João e a Manu são bem diferentes. Se eu tentasse ou se elas ficassem parecidas, seria um erro meu. Eu estaria colocando algo da minha personalidade. O trabalho do ator é o oposto disso. Tenho de zerar a minha personalidade para corresponder ao melhor possível que o autor pensou.

Na reta final, a Thelma apresenta um lado assassino e também será capaz de sequestrar Lurdes. Você ficou surpresa com o desfecho da personagem?

O final foi bem o que eu imaginava mesmo. Fiquei bastante emocionada. Não posso dar spoiler, mas foi um desfecho muito bonito. Nesses 23 capítulos, a Thelma não é só uma vilã doida, mas ela também apresenta uma coerência e uma beleza bem no final. Mas só no final mesmo (risos). Desde o dia em que li a novela pela primeira vez, eu me preparava para esse final da Thelma. Sinto que eu tive um ano para me preparar para esse desfecho.

Força feminina no ar

Ao longo da trama de “Amor de Mãe”, Adriana Esteves foi destacando o poder de uma narrativa guiada por três personagens femininas. A atriz valoriza a união feminina durante os capítulos da história assinada por Manuela Dias. “A Manu fala de uma realidade. É bonito como ela apresenta esse momento feminino com mulheres diversas. Além disso, há uma sororidade na trama. A Thelma e a Lurdes têm um embate forte nessa reta final, mas é uma disputa com dor, com saudades daquela amizade. Elas sabem que estão brigando, mas há um amor entre elas”, defende.

Cada vez mais envolvida em temáticas feministas, Adriana celebra os avanços das mulheres ao longo das décadas. A atriz vibra com a queda de ideias retrogradas de concorrência feminina no mercado de trabalho.

“Tenho 51 anos e peguei essa época de ouvir coisas horríveis machistas, como a ideia de que mulher não é amiga de mulher, estávamos competindo. A gente foi se libertando desse sofrimento. A minha vida ficou mais gostosa na vida adulta, meu trabalho ficou mais gostoso. Eu sei que vou para o trabalho e vou encontrar amigas que não vão competir comigo, mas sim alguém que vai me dar a mão”, ressalta.

CONTAGEM FINAL

Apesar das cargas de vilania de Thelma na reta final de “Amor de Mãe”, Adriana Esteves garante que sai desse projeto com alguns aprendizados. A trajetória insana da personagem fez com que a atriz pensasse sobre alguns aspectos da vida em sociedade. “É impressionante como o egoísmo dela destrói tudo à volta dela. Ela destruiu a vida dela com essa obsessão. Ficou cega e doente. Acho importante alertar para esse perigo da nossa loucura individualista”, aponta.

Com os trabalhos de “Amor de Mãe” finalizados no final do ano passado, Adriana valoriza bastante sua trajetória ao longo do projeto. “‘Amor de Mãe’ é uma novela de altíssima qualidade, com uma linguagem que me encanta muito. Uma fotografia belíssima. A trama aborda assuntos sérios como educação e preservação do meio ambiente”, elogia.

Publicidade