25 de novembro de 2020 Atualizado 21:58

8 de Agosto de 2019 Atualizado 13:56
MENU

Compartilhe

Cotidiano & Existência

Sobre infâncias

Leia o artigo da professora Gisela Breno

Por Gisela Breno

27 out 2020 às 08:42

Na minha infância, desfrutada em Sumaré, religiosamente, aos domingos pegávamos o trem para visitarmos vó Carmela, tios e primos que moravam aqui em Americana.

Os ponteiros do relógio andavam tão devagar que neste “longo” trajeto havia tempo para conversar com o senhor de uniforme e quepe com o distintivo bordado, da Fepasa, responsável por dar um pique nos cartões de embarque, e que carinhosamente afagava nossas cabeças, bem como para comer deliciosos biscoitos de polvilho, comprados de um carrinho empurrado por um funcionário simpático, que de tempo em tempo aparecia no corredor do trem. Ao mesmo tempo que me deliciava com os biscoitos, olhava com encantamento para a paisagem que desfilava rapidamente diante dos meus olhos inocentes e inquietos.

Após saltarmos na estação ferroviária de Americana, minha mãe pagava um charreteiro para nos levar até a 12 de novembro, perto do INSS, pois a caminhada era exaustiva para nossas perninhas irrequietas e bochechas rosadas.

Fecho os olhos e magicamente ouço o trote do cavalo, o estalido do chicote batendo nas rodas da charrete para acelerar a marcha do animal, o apito do trem seguindo seu destino e nos dando até logo.

Inebriada por estas doces lembranças inspiro profundamente o ar que me rodeia e sinto o gosto ímpar daqueles biscoitos que procuro incessantemente e não encontro e o cheiro do suor do cavalo.

Descerro-os subitamente com o som estridente de uma buzina tocada provavelmente pelos impacientes desses novos tempos.

Fico então pensado que se o meu mundo vivido intensamente em contato com a natureza e com enorme diversidade de pessoas diminuiu drasticamente, como será o dessas crianças que enjauladas em seus quartos, branquelas, porque não se expõem ao calor e aos raios do Astro Rei e seduzidas pelas jogos e mídias digitais estão com a capacidade de concentração menor do que a do peixinho dourado.

Gisela Breno

Professora, Gisela Breno é graduada em Biologia na Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) e fez mestrado em Educação no Unisal (Centro Universitário Salesiano de São Paulo). A professora lecionou por pelo menos 30 anos.