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Cotidiano & Existência

O desejo de uma visita amada

Por Gisela Breno

23 de abril de 2024, às 11h36 • Última atualização em 23 de abril de 2024, às 11h37

Há momentos, em que esse desejo frequente, ecoa de forma mais ardente em minha alma.

É o anseio pela visita de minha mãe, minha rocha, minha frágil leoa, minha heroína, que até nas madrugadas aguçava os sentidos, e, de plantão ficava, até que o dia rompesse do ventre do céu

Minha mãe, acamada, sem proferir uma palavra, imóvel e gordinha como nunca fora, envolta pelas sombras do Alzheimer, é a fonte desse desejo que me consome.

Suas memórias se dissolveram como pérolas perdidas no oceano do esquecimento, mas o seu amor, as suas marcas em minha vida, inabaláveis, resplandecem como uma estrela brilhante no céu noturno da minha existência.

Imagino-a então, magrinha, rindo alto e colocando a mão na boca, passos rápidos empurrando seu carrinho de compras pelas ruas de Americana, fumando um dos seus cinco cigarrinhos diários, ficando brava se amassavam o seu intocável maço de Hollywood, olhando cuidadosamente a figura que se formaria na xícara do café para jogar no bicho, comprando guarda-chuvinhas de chocolate no Mercado Municipal para Thiago, Melina e Barbara, cabelinhos brancos, rosto marcado pelas rugas do tempo e dos sofrimentos, e com raras demonstrações de afeto, que sequer disfarçavam o amor louco que sempre teve por nós.

Quando os grilhões da doença não forem mais obstáculos, quando a escuridão do Alzheimer der passagem à luz, finalmente poderei abraçar seu corpo etéreo e lhe contar calmamente ou com sofreguidão, não importa, tudo o que passei nesses infindáveis dezesseis anos, sem poder ouvir sua voz, seus conselhos, suas advertências e seu humor encantador, mesmo quando seus pés sangravam nos solos das necessidades, das dores e das perdas.

Gisela Breno

Professora, Gisela Breno é graduada em Biologia na Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) e fez mestrado em Educação no Unisal (Centro Universitário Salesiano de São Paulo). A professora lecionou por pelo menos 30 anos.