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Cotidiano & Existência

Nostalgias

Leia o artigo desta semana da professora Gisela Breno

Por Gisela Breno

08 set 2020 às 14:06 • Última atualização 08 set 2020 às 14:09

Nostalgias parecem ser indícios fortes de que estamos mergulhados numa fase crepuscular de nossas vidas. Sem tempo para esboçar reação alguma somos assolados por cenas do passado que, desfilando diante de nossos olhos, provocam em nosso eu um desejo profundo de poder a voltar a viver como e com as pessoas de antigamente. Independente das estações do ano, se bem que tardes de outono são cenários ideais para fomentar essa saudade que nos devora, somos flagrados com frases que, invariavelmente, tem como introdução “ah no meu tempo” e como consequência um brilho poucas vezes alcançado na rotina opaca desses tempos denominados pós-modernos.

Ansiosos para recuperar o belo que sabemos ter deixado para trás, lançamos mãos de rituais na tentativa de amenizar as lembranças desse coração já com contornos nítidos de cansaço.

Impulsionados pela força dos ritos jogamos redes ao ar para aprisionar as alegrias semeadas pela ingenuidade e despreocupação dos jovens que outrora fomos.

Repletos de expectativas, voltamos a nossa cidade natal a fim de reconstituir nossas pegadas e para nossa surpresa a igreja, as casas conhecidas e por nós frequentadas as ruas, a padaria e até o pudim de leite encolheram. Aquele palco onde vivemos dias inesquecíveis fez parte de um espetáculo encerrado. Seus encantos nada mais são do que as imagens refletidas pela nossa alma que não consegue ou se recusa ajustar os ponteiros relógio do presente e tem medo de enfrentar os do futuro.

Incansáveis, após os almoços de domingo com amigos ou família, tecemos conversas feita de retalhos que pouco a pouco expõem a colcha colorida do tempo em que os namorados levavam mês para conseguir o primeiro beijo; da folia dos dias de carnaval, onde lança-perfume era usado para deixar os salões com odor inebriante ou para espirrar nos olhos alheios; da longa espera pelo dia de Natal; da euforia em ganhar roupa nova feitas pelas mãos de fada da costureira do bairro; da reunião dos vizinhos nos finais de tarde, memoráveis não somente pelos sinais explícitos de fraternidade, mas pela maestria em abrigar gerações tão diferentes tendo como recursos calçadas, cadeiras espalhadas, céu estrelado, giz para amarelinhas; das cordas afiadas como as estridentes vocais que entoavam: “batalhão, lhão, lhão, quem não entrar é um bobão”.

Enquanto muitos se extasiam com os avanços vertiginosos da tecnologia, viagem ao redor da lua, com os progressos incomparáveis da engenharia genética, ou desejam pegar carona no Falcon 9 até que a pandemia arrefeça, criaturas como eu anseiam mesmo pela descoberta de um remédio que nos faça desistir de um tempo que não existe mais.

Gisela Breno

Professora, Gisela Breno é graduada em Biologia na Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) e fez mestrado em Educação no Unisal (Centro Universitário Salesiano de São Paulo). A professora lecionou por pelo menos 30 anos.