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Estúdio 52

Qual filme é mais fiel à Lenda do Cavaleiro sem Cabeça?

Confira abaixo um comparativo entre as produções e a obra original de 1820 de Washington Irving

Por Maíra Torres

14 fev 2021 às 17:59 • Última atualização 15 fev 2021 às 08:20

Existem cinco filmes baseados na Lenda do Cavaleiro sem Cabeça desde que o conto foi escrito por Washington Irving em 1820, como parte da obra “The Sketch Book of Geoffrey Crayon, Gent.”.

Livro do conto “The Legend of Sleepy Hollow”, de 1820, Washington irving. Foto: Amazon – Foto:

“The Headless Horseman” (1922), “As Aventuras de Ichabod e Sr. Sapo” (1949), “The Legend of Sleepy Hollow” (1980), “A Lenda do Cavaleiro sem Cabeça” (1999) e “Headless Horseman” (2007).

Nessa lista não se conta a série Sleepy Hollow (2013-2017), ou os episódios especiais temáticos da lenda, que aparecem em “Hey Arnold” (1996-2004), “O Show do Scooby-Doo” (1976-1978) ou “The Funky Phantom” (1971-1972), por exemplo.

Após (re)assistir aos cinco filmes e ter lido o conto original, é possível dizer que o mais fiel à obra é o longa “The Headless Horseman” (1922), um dos primeiros filmes do cinema mudo.

Adaptação de 1922 é a mais fiel à obra original de 1820. Foto: Rotten Tomatoes – Foto:

É preciso frisar, no entanto, que a escolha foi tomada por detalhes, já que a animação “As Aventuras de Ichabod e Sr. Sapo” (1949) também é fidedigna ao conto original.

O que “tirou o troféu” do desenho da Disney foi a idolatria com que os moradores de Sleepy Hollow tratavam o personagem principal Ichabod Crane, a falta de menção dos conhecimentos de ‘bruxaria’ do professor e também a falta de sua declaração para Katrina Van Tassel.

Por outro lado, essas ausências são aceitáveis se considerar que o conto era também destinado ao público infantil.

Animação de 1949 é a única sobre a lenda direcionada ao público infantil. Foto: Disney+ – Foto:

Leves spoilers do conto e dos filmes a partir daqui.

Tanto o filme de 1922 como a animação de 1949 retratam Ichabod Crane de maneira idêntica ao conto, desde a aparência física do personagem até o modo como ele leciona, anda e pensa. O mesmo vale para Katrina e Brom Bones, que ganha maior protagonismo na animação. As cenas finais, de perseguição entre Ichabod e o Cavaleiro também são muito semelhantes ao conto.

O primeiro lugar no pódio, no entanto, foi para o longa de 1922 por ser aquele que traz com maior riqueza de detalhes várias cenas da história. Desde as cenas de jantar, a sala de aula, o baile, a perseguição final, a interação entre os personagens, até os rápidos momentos racistas relacionados aos escravos e que poderiam ter sido anulados sem prejuízo à história, não fosse a falta de consciência sobre racismo à época.

Uma vantagem que “The Headless Horseman” teve foi a possibilidade de transcrever trechos da narrativa original nos momentos de ‘fala’ do cinema mudo, ou seja, nas telas pretas.

Filme de 1922 traz trechos do conto de 1820. Fonte: Rotten Tomatoes – Foto:

Para acompanhar a comparação a seguir entre as obras, resumi ao final dessa análise o conto “The Legend of Sleepy Hollow” (1820), também traduzido no Brasil como “A Lenda da Caverna Adormecida” – mesmo não existindo cavernas na história. Alguns detalhes foram preservados para facilitar os argumentos da comparação.

Confira abaixo as curiosidades, semelhanças e diferenças entre cada filme e o conto.

Grandes spoilers dos filmes a partir daqui.

1922 – The Headless Horseman. (Cinema mudo) Direção: Edward Venturini. Elenco: Will Rogers, Lois Meredith.

Semelhanças: relação entre personagens, retrato de Ichabod, Katrina e Brom Bones, modo com que a população de Sleepy Hollow vê Ichabod, descrição do conto, perseguição final entre o personagem principal e o Cavaleiro sem Cabeça, personagens negros retratados de maneira racista.

Diferenças: ao final da perseguição, aparece Brom Bones fantasiado de Cavaleiro sem Cabeça, algo que o conto não menciona, mas deixa subentendido.

Curiosidade: Existem outros dois filmes do cinema mudo sobre a lenda, mas esse é o maior, mais famoso e mais disponível hoje em dia. Foi o primeiro filme a usar técnica pancromática, que é um tratamento dado ao filme fotográfico que atinge mais ondas de luz e faz com que a cena fique mais parecida com a realidade.

Disponível em: Youtube em inglês, Amazon Prime pela conexão dos EUA

1949 – As Aventuras de Ichabod e Sr. Sapo (The Adventures of Ichabod and Mr. Toad). Walt Disney Productions. Direção: Jack Kinney, Clyde Geromini e James Algar.

Semelhanças: relação entre personagens, retrato de Ichabod, Katrina e Brom Bones, descrição do conto, perseguição final entre o personagem principal e o Cavaleiro sem Cabeça, indicação sobre o futuro de Ichabod após o ocorrido. É o que melhor traz a deixa do conto sobre a existência – ou não – do Cavaleiro sem Cabeça.

Diferenças: maneira com que Ichabod é visto pelos moradores de Sleepy Hollow, ausência da cena de declaração para Katrina, falta de menção aos conhecimentos de “feitiçaria” de Ichabod, existência possível de um Cavaleiro sem Cabeça “real”, Katrina não faz aulas de salmodia com Ichabod.

Curiosidade: As Aventuras de Ichabod e Sr. Sapo é o último filme da Disney lançado em modelo “compilação de histórias curtas”. Nesse caso, são duas. A primeira, sobre Sr. Sapo, e a segunda, “A Lenda da Caverna Adormecida”, sobre o Cavaleiro sem Cabeça. A primeira claramente não foi considerada para esta análise.

O curta musical “A Lenda da Caverna Adormecida”, foi também lançado em DVD na coleção “Fábulas da Disney” (2003) junto com “O Príncipe e o Mendigo”. A versão disponível no Disney+ foi redublada, para parecer menos assustadora. A dublagem antiga, presente no DVD, é melhor, inclusive as músicas.

Disponível em: Disney+

1980 – The Legend of Sleepy Hollow. Direção: Henning Schellerup. Elenco: Jeff Goldblum, Meg Foster e Dick Butkus.

Semelhanças: retrato de Ichabod, presença dos personagens principais, aulas de salmodia, lenda do Cavaleiro sem Cabeça e cena da perseguição final.

Diferenças: paixão de Ichabod por Katrina sem interesse na comida ou ouro, união entre ambos ao final do filme, desgosto de Katrina por Brom, existência real de um Cavaleiro sem Cabeça enquanto assombração, Ichabod como cético, personagens paralelos Mr. Vanderhoff, Fred, fantasma Palmer, e Thelma que casa com Brom Bones, que é descoberto como (um dos) Cavaleiro sem Cabeça.

Curiosidades: O filme produzido para a televisão norte-americana pela NBC. Jeff Glodblum é um Ichabod perfeito.

Disponível em: Youtube, em inglês

1999 – A Lenda do Cavaleiro sem Cabeça (Sleepy Hollow). Direção: Tim Burton. Elenco: Johnny Depp, Cristina Ricci, Cristopher Walken.

Semelhanças: cenário, contexto histórico, existência do trio de personagens principais e de um Cavaleiro sem Cabeça.

Diferenças: Ichabod é um policial, introdução da mãe de Ichabod, personalidade de Katrina, presença forte de bruxaria, existência de magia, história de origem do Cavaleiro sem Cabeça, dezena de personagens paralelos não existentes que interferem diretamente na história, morte de Brom Bones, richa entre família Van Tassel e Van Garret.

Curiosidades: O produtor executivo do filme é Francis Ford Coppola. Apesar da centena de diferenças é um filme muito legal.

Disponível em: Amazon Prime e Netflix

2007 – Headless Horseman. Direção: Anthony C. Ferrante. Elenco: Zachary Weintraub, Rebecca Mozo, Richard Moll.

Semelhanças: existência de um Cavaleiro sem Cabeça, nada relacionado com o personagem do conto, e de Sleepy Hollow.

Diferenças: O filme se passa num contexto atual cheio de adolescentes, ausência de Ichabod, Katrina e Brom Bones, e do contexto histórico, Cavaleiro sem Cabeça com pacto com o demônio e sem relação com a lenda original. Não tem nenhum dos acontecimentos presentes no conto de 1820.

Curiosidades: Praticamente impossível de assistir pela internet por ausência de plataformas, mesmo ilegais, que transmitam o filme – talvez de propósito, por ser tão ruim. Filme de terror adolescente em que o personagem mais óbvio é o único que sobrevive. Mesmo assim, a arte de lançamento e as indicações por semelhança sugerem como “baseado” na lenda original. Engraçado de absurdo.

Disponível em: Amazon Prime pela conexão dos EUA

Conto original:

A pequena e pacata vila de Sleepy Hollow, cujos habitantes eram descendentes de holandeses, era conhecida por ser assombrada e cheia de fantasmas e espíritos. Os habitantes acreditavam fielmente e contavam as histórias dessas criaturas. De todas, a mais temida, conhecida e contada, era a do Cavaleiro sem Cabeça.

O hessiano (soldado alemão do século XVIII) perdeu sua cabeça atingida por uma bola de canhão disparada durante uma batalha e depois de morto, continua a vagar pelo vale como se estivesse fugindo da guerra. 

É nesse cenário que chega o professor nova-iorquino Ichabod Crane, para dar aulas na única escola do local. Ele é excessivamente magro, alto, com o perfil que lembra o de um avestruz. 

Como professor, era severo e falso justiceiro, sendo bacana com as crianças cujas casas podia ir jantar. Ele amava comer e aparecia “de surpresa” na casa dos outros durante a janta uma vez na semana. O motivo é porque, além de morar na casa acoplada à escola, também ganhava pouco. 

As mulheres o viam como um homem erudito e inteligente, que havia lido a muitos livros, e os fazendos, como um grande entendido da obra “History of New England Witchcraft” (um livro considerado de ‘feitiçaria’, em que o autor via as novas colônias dos Estados Unidos como terra do diabo).

Todos o tratavam como uma pessoa culta e sabiam que era peculiar, às vezes, beirando o excêntrico e o ridículo. Era medroso e supersticioso, que adorava histórias de terror e sabia contá-las.

Para complementar a renda, dava aulas de salmodia (canto de salmos). Entre seus alunos, estava Katrina Van Tassel, filha do fazendeiro mais rico da região, Balthus Van Tassel. O conto não especifica onde eles se conheceram, mas menciona que assim que Ichabod pôs os olhos nela, que era branca, loira e ‘fofa com uma perdiz’, a achou linda. 

A impressão era compartilhada pela maioria dos homens, que também queriam estar com ela. Na obra, é descrita como uma ‘coquette’, que gosta de atenção e de ter vários pretendentes. Um deles era Brom Bones. Forte, corajoso, galante, que descritivamente queria Katrina por ela ser a mais desejada – e ele também era o preferido dela.

Voltando à impressão de Ichabod, é importante dizer que ele SOMENTE a achou linda, e rica. Seu interesse real veio quando, em uma visita, colocou os olhos nos montes de trigo-sarraceno, grãos, porcos e alfaces e imediatamente se imaginou comendo tudo enquanto ostentava as ricas terras e o ouro da família Van Tassel. 

Nesse momento, resolveu que disputaria com Brom Bones pela atenção de Katrina e a cortejaria para levá-la até o altar. Brom, ciente do interesse de Ichabod, passou a olhá-lo como se fosse um rival.

Num dia, enquanto dava aulas, Ichabod recebe um convite para comparecer à uma festa na casa dos Van Tassel. Ele se arruma, surrupia o cavalo do vizinho, seu patrono de terras, e vai, decidido a declarar-se para Katrina e pedi-la em casamento. 

Na festa, todos cantam e dançam e no final, começam a contar histórias da “Velha Guerra”e histórias de terror. Brom menciona a lenda do Cavaleiro sem Cabeça. Um dos veteranos de guerra, sobrevivente, menciona que já foi atacado pelo Cavaleiro. No ataque, a assombração o seguiu floresta a dentro em seu cavalo preto e somente foi embora quando o homem atravessou uma ponte. Nesse momento, o ser teria se transformado em um esqueleto e galopando pela copa das árvores em outra direção.

Ao final, todos começam a ir embora com exceção de Ichabod, que decide ficar para falar com Katrina. Ele se declara e ela o rejeita. Frustrado, humilhado e desiludido ele volta para casa pela floresta (como todos) e no caminho de volta, começa a barulhos e alguém chamando seu nome. Para espantar o medo, começa a assoviar. 

Quando chega perto da ponte, ele avista, à margem do rio, uma silhueta estranha que, ao chegar mais perto, descobre ser do Cavaleiro sem Cabeça.  Com muito custo o cavalo começa a correr na direção contrária à ponte, que Ichabod julgava ser a reta final para o seu tormento. 

Começa uma perseguição. Em dado momento o cavalo amaldiçoado chega tão perto que Ichabod sente sua respiração. Seu cavalo empaca. O Cavaleiro aparece à frente de Ichabod. O cavalo começa a correr em direção à Igreja. A sela cai e Ichabod se agarra ao pescoço do animal. Quando, finalmente, o professor chega perto da ponte ele é atingido com força em sua cabeça por uma abóbora. Ichabod cai e o cavalo foge. 

Os alunos e holandeses do vilarejo não encontram mais Ichabod, somente a sela, perto da Igreja, e seu chapéu com restos de abóbora perto da ponte. O patrono queima os pertences do professor e contrata um novo para a escola, que passa a ser conhecida como ‘mal-assombrada’, até que mudam a instituição de local. 

Muitos anos depois, aparece um nova-iorquino na cidade e os moradores perguntam por Ichabod. Ele conta que o professor voltou para a cidade, deu aulas enquanto cursou direito e virou um importante juiz.

Alguns não acreditaram e as viúvas contadoras de histórias preferiam a versão em que Ichabod é morto pelo Cavaleiro sem Cabeça. Na hora de contar essa história nas rodas da vila, todos reparavam em Brom Bones, e em como ele “ria como quem sabia mais do que aparentava” quando falavam da abóbora.

O narrador, onisciente, conta que Ichabod não voltou por medo do Cavaleiro sem Cabeça e vergonha de ter sido rejeitado por Katrina, que se casa com Brom Bones, e da sela de seu patrono, à qual estragou.

Bônus: o conto tem um tom engraçado, irônico e sincero do narrador e isso torna a leitura divertida. No entanto, também é extremamente descritivo, principalmente em relação ao ambiente e cenário, o que o torna cansativo em certos momentos – ainda mais quando lido em inglês, que foi o caso.

Maíra Torres

Repórter do Liberal, produtora do Gold Morning e apresentadora do Resumo Gold na FM Gold. Entusiasta de animações desde que aprendeu a abrir os olhos e otaku recém-nascida. A doida que assiste três filmes seguidos no cinema.

Estúdio 52

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