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Estúdio 52

Kid Cosmic e uma boa maneira de tratar vilões

Nova animação da Netflix traz heroísmo não clichê e não violento

Por Maíra Torres

11 fev 2021 às 13:38 • Última atualização 11 fev 2021 às 18:26

Lançada em 2 de fevereiro pela Netflix, “Kid Cosmic” é uma animação criativa, que atualiza e simplifica as mensagens vistas em histórias de super-heróis sem cair no óbvio – mesmo que em alguns momentos passe perto dele.

A série, composta por 10 episódios com cerca de 22 minutos, conta a história de Kid, um menino que, sem querer, acha cinco pedras cósmicas com superpoderes e vê nelas a chance de viver as aventuras que sempre acompanhou nos quadrinhos.  

Para controlá-las – já que ele é realmente ruim nisso – ele pede ajuda para seus amigos. Juntos eles são “Kid Cosmic e os Heróis da Cidade”, que seguem os dias aprendendo a lidar com os poderes e tentando proteger as pedras para evitar que caiam em mãos erradas.

Craig McCracken, “pai” dos sucessos de TV “As Meninas Superpoderosas” (1998-2005) e “A Mansão Foster para Amigos Imaginários” (2004-2009) é também o criador de “Kid Cosmic”, seu primeiro enredo direcionado aos streamings e com começo, meio e fim.

Essas características justificam o ritmo de apresentação gradativo dos personagens, e a história “fechada” coesa, sem a necessidade de sofrer com uma repentina encomenda por mais episódios.

“Kid Cosmic” tem dois grandes pontos fortes. Em termos de roteiro, é o modo com que os vilões são retratados. Em relação à produção, o destaque é o visual.  

Kid Cosmic tem uma relação com os vilões que foge do maniqueísmo – Foto:

Grande parte dos desenhos de heróis voltados ao público infantil é dotado do infame maniqueísmo, para dar exemplo do que é ser bom, com os mocinhos, e do que é ser mal, com os bandidos. A série desconstrói isso nos personagens considerados vilões e nas atitudes dos mocinhos.

Aviso para leves spoilers a partir daqui.

Fica de exemplo o primeiro vilão a aparecer e fugir do arquétipo, o alienígena Chuck. Ele continua mau mesmo nos momentos em que o público é cativado e passa a esperar o contrário. Depois, quando esse comportamento muda, ele dá lugar a outros e novos vilões.

A exceção a esse brilhantismo em como tratar os caras maus é o uso do governo, que aparece repentinamente na história e muda o rumo do episódio 8 até o final. A mudança não é ruim, em si, mas deixa a desejar porque, além de ser clichê, tira o protagonismo de Kid e sua equipe por dois episódios.

“Kid Cosmic” ainda é cheio de mensagens positivas voltadas ao público infantil, daquelas que constroem o caráter e ajudam a lidar com a raiva, sentimento de impotência e preservam a ingenuidade infantil na solução de problemas.  

Ouso dizer que algumas delas emocionam um adulto desprevenido. “Não pira, respira”. “A maldade é um grito de socorro de um coração ferido”. “Os heróis ajudam, não machucam”.

As falas são, inclusive, um exemplo de que “Kid Cosmic” consegue ser um desenho de ação e heróis não violento, algo que é a preocupação para a maior parte dos pais quando os filhos começam a imitar os heróis em casa: as brigas e lutas.

Algumas vezes, a solução é usar os superpoderes para fazer com que os alienígenas voltem, em segurança, para casa. Outras é confiar, ter empatia e fazer seu papel dentro da equipe, mesmo que esse papel não exerça protagonismo ou seja desprovido de talento.

Ser desprovido de talento é, aliás, a característica de Kid – Foto: Divulgação

Em termos de personagem, Kid surpreende o espectador ao não desanimar nunca. Às vezes o momento da “derrota e desânimo” é usado nos desenhos para anteceder e justificar a “vitória e a superação”, e, mesmo com várias deixas para que isso aconteça, esse personagem principal surpreendentemente se mantém resistente, se aceita e busca alternativas.

Os ‘heróis da Cidade” Jo, Papa G., Rosa e Sanduíche de Atum não ficam de lado quanto ao carisma. De todos, Jo é a história que mais se cruza com a de Kid, talvez por ser como uma irmã mais velha em termos de família, que, como de praxe, ele não tem.

Os heróis são divertidos, engraçados e servem de amparo e guia para o protagonista sem ficar de lado ou ter menor importância na história. Todos têm suas vontades, sonhos ou origem pelo menos explícitas e minimamente trabalhadas.

Personagens secundários também tem suas histórias individuais abordadas – Foto:

A animação, em 2-D, tem trilha sonora e visual retrô que agradam aos olhares e ouvidos mais adultos. “Kid Cosmic” é repleto de efeitos que contrastam a simplicidade dos traços dos personagens em primeiro plano com os fundos de cena detalhados ou simplesmente coloridos.

Não se deixe enganar pelo “simplesmente”: as cenas mais bonitas são as noturnas, quando há somente o céu estrelado e o ambiente desértico. O blur (desfoques) e bloom (luzes estouradas), por exemplo, são duas das ferramentas usadas para construir a estética do desenho.

As cenas noturnas são algumas das mais bonitas dos episódios – Foto: Divulgação

O estúdio responsável pela produção da animação é o Mercury Filmworks, que assina outros projetos de excelente qualidade visual, como “Hilda”, “A Guarda do Leão”, “Enrolados- a Série” e “Mickey Mouse Cartoon”; desses, talvez o mais semelhante em termos de estilo com “Kid Cosmic”.

O último episódio da série usa de dois terços do tempo para encerrar, de fato, a trama. O outro terço se passa seis meses depois e desnecessariamente deixa um plot (gancho do enredo) encomendado para a próxima temporada, incialmente apresentada como “Kid Cosmic e o Posto Intergalático”.

O novo plot não é ruim e o arco principal já está encerrado. O problema é que esses minutos finais deixam o espectador com sentimentos contraditórios às cenas anteriores, quando ocorre o clássico – e único momento clichê – final feliz, já que as novas informações não são tão boas assim.

“Kid Cosmic” é simples, bem feito e desenvolvido. Consegue prender a atenção das crianças sem fazer uso da violência e divertir os adultos com momentos engraçados de trabalho em equipe, e vilões não tão vilões assim.

Nota da autora: meus episódios favoritos foram o 3,4 e 5.

Holofotes_4,5 – Foto: Divulgação

Nota: 4,5 de 5

Maíra Torres

Repórter do Liberal, produtora do Gold Morning e apresentadora do Resumo Gold na FM Gold. Entusiasta de animações desde que aprendeu a abrir os olhos e otaku recém-nascida. A doida que assiste três filmes seguidos no cinema.

Estúdio 52

Quer saber sobre aquela série que está bombando na internet? Sim, temos. Ou aquele jogo que a loja do seu console vai disponibilizar de graça? Ok. Curte o trivial e precisa dos lançamentos do cinema? Sem problema, é só chegar.