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Histórias de Americana

Crimes no Bairro da Estação (parte 2)

Coluna dos Historiadores Independentes de Carioba descreve um crime ocorrido entre conterrâneos confederados

Por Elizabete Carla Guedes

13 dez 2020 às 08:00 • Última atualização 12 dez 2020 às 17:46

O processo crime do qual esta matéria se refere ocorreu sete anos após o processo do primeiro texto publicado, denominado Crimes no Bairro da Estação – Parte I. O atual documento pesquisado e transcrito foi igualmente encontrado no Centro Cultural Martha Watss, e traz um amplo panorama do Bairro da Estação, já conhecido neste período como Villa Americana.  

No entanto, para melhor compreensão dos acontecimentos narrados, é preciso citar a divisão geográfica da época em que o Ribeirão Quilombo – e, naturalmente, a ponte sobre ele – faziam a divisão das terras entre os municípios de Campinas e de Santa Bárbara (pertencente à Comarca de Piracicaba), aos quais se ligavam partes diferentes de Villa Americana.

O processo descreve um crime ocorrido entre conterrâneos confederados, um deles já naturalizado brasileiro: o réu William Dumas. Filho de João Dumas, ele tinha vinte anos de idade na ocasião do fatídico desfecho, era nascido em Villa Americana, onde residia desde o seu nascimento, exercia a profissão de lavrador, um ofício comum nesta época, e prestava serviços nos sítios localizados nas redondezas.

No dia 25 de novembro de 1895, aconteceu uma alterada discussão entre Dumas e Rose Seawright, este estadunidense e também residente próximo à Villa Americana, porém do lado pertencente à Campinas. Os dois se encontraram sobre a ponte do Ribeirão Quilombo, onde se envolveram em agressões físicas de ambas as partes, vindo Seawright a falecer na madrugada daquela noite, entre as quatro e cinco horas da manhã, em consequência da contenda.

O crime foi então denunciado ao subdelegado de Santa Bárbara, da localidade de Villa Americana. Neste ano, quem exercia o cargo era o Sr. Basílio Bueno Rangel, que, após tomar conhecimento dos fatos, nomeou o Dr. Roberto Norris e o Alferes Antônio Galvão Cezarino Leite, este último não especialista, para realizarem o exame de corpo de delito na vítima, servindo como testemunhas os senhores Julio Belisario e Nicolau Brumes.

Os exames constaram, no entanto, que a vítima tinha uma lesão de mais ou menos oito centímetros na pálpebra esquerda e que descia horizontalmente até se encontrar como o couro cabeludo, onde sofrera uma fratura craneana, o que causou o óbito. No exame foi constatado que o ferimento foi causado por instrumento cortante e contundente.

No dia 4 de dezembro do mesmo ano, na residência de Rangel, em companhia de Capitão Ignácio Correa Pacheco, foi colhido o depoimento das testemunhas que foram arroladas ao caso. Foi expedido um mandado de prisão para Dumas, contudo, ele não fora encontrado, pois estava foragido.

A primeira testemunha foi Sr. Joaquim Paseto da Rocha, de quarenta e dois anos de idade, casado, natural de Portugal e negociante. Após ter prestado juramento, disse que se encontrava em sua casa de negócios, localizada próxima à ponte do caso, e que Rose Seawright também se encontrava no local, já estando meio embriagado.  Também afirmou que, por volta da treze horas, viu Dumas, o qual carregava em suas mãos um cacete e um pedaço de ferro. Segundo Rocha, ele atravessou a ponte em direção a Campinas e, então, Seawright foi ao seu encontro, montado em um cavalo.

Os dois se encontraram em cima da ponte sobre o Ribeirão Quilombo, trocaram palavras em inglês que ele não soube compreender e passaram logo às vias de fato.  A testemunha diz ter visto a vítima dar duas chicotadas no réu e puxar por um revólver ao mesmo tempo. Dumas então, lhe deu uma forte pancada na cabeça, fazendo-o perder o equilíbrio e cambalear da montaria. Então, deu uma segunda pancada, que o fez derrubar a arma. Ainda pelo relato, em seguida, já em posse da arma que apanhou do chão, Dumas trocou mais algumas palavras em inglês e seguiu em direção a Campinas. Seawright, por sua vez, seguiu para a sua residência onde veio a falecer. Assim, Rocha encerrou seu depoimento.

A segunda testemunha foi o Sr. Nicolau Garette, de cinquenta e seis anos de idade, italiano casado e que exercia a profissão de carpinteiro. Disse que, no dia do ocorrido, encontrava-se em sua casa, que ficava do lado de Santa Bárbara e era distante da ponte. Portanto, não pode ouvir o que se passava e mal pode enxergar que dois homens se espancavam. Disse que o ocorrido durou pouco tempo, mas achou que, por ter visto os dois se separarem, nada de pior havia acontecido. Apenas no dia seguinte, ouviu dizer que um dos homens havia falecido.

Em seguida, foi ouvida a terceira testemunha, o Sr. Joaquim Gonçalves, de cinquenta e quatro anos de idade, português, viúvo e residente de Campinas. Disse em seu depoimento que, na hora do crime, encontrava-se trabalhando em sua roça de milho, pois era lavrador de profissão, e que estava acompanhado de dois camaradas, dos quais não cita nomes. Disse ainda que só soube “de ouvir dizer” que Seawright havia falecido em consequência de ferimentos causados em confronto com Dumas.

 A quarta testemunha foi Luiz Mechii Damaret, de dezoito anos de idade, natural e residente da vila de Santa Bárbara, que também era lavrador. Este disse que, na hora, encontrava-se na porta da loja de um sapateiro, próximo à ponte, e seu depoimento corroborou com o da primeira testemunha, não sabendo o que os envolvidos disseram um para o outro por causa da distância em que se encontrava.

 A Sr.ª Carlalle Rosa foi a quinta testemunha ouvida, tinha trinta e oito anos, nacionalidade italiana, era casada e trabalhava em serviços domésticos. A depoente disse se encontrar na ocasião em sua residência, próxima à ponte. Disse ter ouvido a discussão, no entanto, não soube dizer sobre o que se tratava por ter sido proferida em inglês. Disse ainda que, apesar de estar próxima, não viu o que aconteceu por estar “doente das vistas”. Também soube apenas “de ouvir dizer” que Seawright havia falecido em consequência das agressões sofridas.

Para finalizar, foi ouvido o Sr. Darcio Paschoal, de quarenta e dois anos, italiano, casado e ferreiro de profissão, disse que, apesar de sua residência ser próxima à ponte, do lado de Campinas, não se encontrava presente no momento do ocorrido, mas que, ao voltar para casa, cruzou com um homem que reconheceu ser americano e que trazia na mão um pedaço de ferro. Porém, só soube dos fatos após ter chegado em sua residência. Ainda sobre o falecimento de Seawright, só soube da informação no dia seguinte.

O caso foi encaminhado para a Comarca de Piracicaba, onde as testemunhas foram novamente intimadas e ouvidas, sendo proferida a sentença de culpado. O réu, porém, apresentou-se à polícia apenas nove meses após a sentença ser promulgada. No dia 7 de setembro de 1896, iniciou-se novo julgamento, que agora possuía representação de defesa. Dumas foi interrogado e, em seu depoimento, disse que no dia do ocorrido estava em um sítio próximo à Estação onde prestava serviços, e que, tendo seguido em direção a Campinas, encontrou-se com Seawright sobre a da ponte do Ribeirão Quilombo.  Conta ele que, ao tentar atravessar a ponte, foi barrado pela vítima, que o disse para voltar a sua casa, pois não atravessaria. Seawright lhe dera, então, duas chicotadas com reio de tatu e empunhou da algibeira um revólver, tendo também atiçado o cavalo que montava para que o pisoteasse.

O réu argumenta que, vendo-se sem meios de defesa que não fosse a agressão, deu-lhe duas pancadas com o cacete que trazia consigo, e que, neste momento, a vítima derrubou o revólver e o chicote, que foi apanhado por ele ao seguir caminho. Seawright, no entanto, teria seguido para uma venda nas proximidades.  Dumas acrescentou também que havia inimizade entre ele e o irmão de Seawright, o que poderia ter sido motivo para a agressão. Após longa deliberação, a sentença foi dada em favor de Dumas, que foi absolvido por legítima defesa no dia 5 de outubro de 1896.

Como dito anteriormente, este processo traz um amplo panorama geográfico, do modo de vida e do cotidiano do próspero bairro, bem como a sua formação populacional, carregada de vários personagens históricos, em sua maioria imigrantes e descendentes das várias nacionalidades que formaram o município. Outro aspecto que podemos avaliar nessa pesquisa é que neste núcleo habitacional, apesar de já existirem comércios, como a loja de negociantes, sapataria, entre outras, ainda havia forte proporção rural.

Ao contrário do que vemos em outras bibliografias sobre a história do município, seu processo de formação traz vários conflitos ainda não publicados, seja entre conterrâneos, entre os outros vários grupos que se fixaram na localidade por vontade própria e ou mesmo aqueles que, de alguma forma, se sentiram obrigados a permanecer. Seja por diferenças de etnias, ideológicas e ou contradições culturais, a verdade dos fatos é que nem sempre a convivência entre esses grupos era passiva e harmoniosa. Aos poucos, as pesquisas realizadas vão trazendo essas histórias à luz.

Outro fato que não se pode ignorar é que, apesar do nome da vila e posteriormente do município fazerem referência aos americanos, a maioria dos personagens relatam que não falavam inglês. Ainda nos dias atuais, visitantes e estrangeiros que por aqui passam têm enraizado em sua imaginação que os americanenses têm o inglês como língua materna, fato este que não condiz com a realidade, sendo mais uma circunstância que não é corroborada na desconstrução da historiografia oficial, trazendo relações de poder que operam ainda nos dias atuais.

*Elizabete Carla Guedes é membro do grupo Historiadores Independentes de Carioba, dedicado à pesquisa histórica sobre Americana

Historiadores de Carioba

Blog abastecido pelo grupo Historiadores Independentes de Carioba, que se dedica à pesquisa histórica sobre Americana.