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Artigos de leitores

A demonização das mídias

Por Isabella Pichiguelli

14 jul 2020 às 08:15

Os termos ‘perseguição demoníaca’ ou ‘ataque do inimigo’ fazem referência a ações de seres malignos que tentam atrapalhar, infernizar ou até mesmo destruir relacionamentos, planos e vidas, segundo as crenças de muitos de nós. Não há nada danoso no fato de crer em demônios e em suas ações no mundo. As diversas religiosidades em nossa sociedade devem ser respeitadas, indubitavelmente.

De modo paralelo, porém, ocorre muitas vezes um fenômeno pseudorreligioso que afeta nossas relações sociais: a demonização de acontecimentos da vida, que, geralmente, conduz às faltas de autocrítica e de responsabilidade.

Quando isso ocorre, não se trata mais de crer na atuação de demônios no mundo, mas de atribuir à ação demoníaca toda e qualquer coisa ruim que aconteça na vida. Isso pode levar a não mais examinar a si mesmo, assumir culpas próprias ou mudar comportamentos, pois tudo de ruim ocorre por causa do ‘ataque’ do inimigo.

Como resultado, erros vão sendo perpetuados despercebidamente ou simplesmente absolvidos, afinal, não há o que ser revisto, pois o mal está sempre do outro lado: nos demônios. É muito parecido, aliás, com o que acontece a partir de mensagens propagadas mais ou menos dessa forma: “Preste atenção! Essa verdade não vai passar na grande mídia. A mídia manipula. Não seja enganado”. É o início da demonização das mídias.
Com a mídia demonizada, é fácil cair na tentação de achar que não é mais necessário examinar o conteúdo que se propaga como verdade. E essa é uma das grandes artimanhas da indústria das fake news, uma parte de sua receita de sucesso.

Aos que não querem ser enganados, entretanto, não há receita de sucesso. Pelo menos, não uma receita simples. Há, somente, um primeiro e constante passo: examinar e discernir sobre tudo e todos, sempre, a começar de nós mesmos.

*Isabella Pichiguelli é jornalista, mestra em Comunicação e Cultura, e pesquisadora

Colaboração

Artigos de opinião enviados pelos leitores do LIBERAL. Para colaborar, envie os textos, com 1.800 caracteres (já contando os espaços), para o e-mail opiniao@liberal.com.br.