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Cotidiano

Entrevista: Doria fala de lockdown, cloroquina e expectativas para 2021

“Será um país entristecido e machucado”, avalia o governador sobre o ano que vem

Por Agência Estado

18 Maio 2020 às 12:15 • Última atualização 18 Maio 2020 às 13:33

O “lockdown”, medida mais rígida na escala do isolamento social, será decretado no Estado de São Paulo se o comitê estadual de saúde julgar necessário para conter o número de casos de covid-19 e evitar o colapso do sistema de saúde.

“Não haverá nenhuma decisão de ordem política nem de inibir e nem de aplicar, exceto aquela determinada pela saúde”, afirmou o governador de São Paulo, João Doria (PSDB), em entrevista exclusiva ao Estadão.

Doria também falou sobre cloroquina, risco de saques e assaltos e a expectativa para 2021. “Será um país entristecido e machucado”, diz. A seguir, os principais trechos da entrevista:

Doria – Foto: Governo do Estado de São Paulo_15.05.2020

Se houver alguma decisão federal sobre uso da cloroquina que seja diferente daquilo que os médicos entendem como correto, como o senhor agirá?

Em São Paulo vai prevalecer a decisão médica, da ciência e da saúde. Nenhuma decisão de ordem política, pessoal, personalista, partidária ou ideológica será colocada à frente da ciência. Se qualquer manifestação, ainda que por decreto do governo federal, ferir os princípios da ciência e da proteção à vida, aqui não será praticado. Iremos à Justiça se necessário.

O Estado havia comprado 3 mil respiradores, mas o fornecedor só entregará 1,2 mil. Há risco de São Paulo não conseguir montar tantas UTIs quanto precisa?

Esse fornecedor chinês nos garantiu parte de uma nova remessa, de 1.280 respiradores. Posso antecipar que conseguimos mais mil respiradores, que chegarão até 15 de junho. São 2.380 respiradores, que atendem a nossa necessidade básica para ampliação de leitos de UTI. Além disso, também tivemos o compromisso… Agora já não se sabe mais, mas tivemos o compromisso do Ministério da Saúde de fornecer 200 respiradores. Nós temos de ter mais respiradores, mais leitos básicos, e ter equipe suficiente: paramédicos, enfermeiros, fisioterapeutas e médicos. Na próxima semana, abriremos mais um hospital de campanha, em Heliópolis. Se necessário, abriremos um quarto, na região metropolitana. Temos capacidade para isso.

Há uma situação de conforto?

Neste momento, (a situação) está sob controle. Nós não temos neste momento – e é sempre preciso enfatizar isso, neste momento – risco de colapso. A demanda na região metropolitana cresceu, mas ainda está controlável. A chegada de novos respiradores nos ajudará a manter uma margem de segurança razoável. No interior, o índice também é seguro neste momento. Mas é preciso ter muito cuidado, porque a velocidade com que essa doença se expande é muito grande.

De que forma confusão no governo federal atrapalha o enfrentamento à doença?

Tínhamos uma ótima relação com o ministro Luiz Henrique Mandetta. Ele foi republicano e técnico. Na troca, ficamos no aguardo de que o novo ministro, Nelson Teich, pudesse seguir a mesma linha. E foi o que aconteceu. Ele agiu como um médico agiria. Os 200 respiradores estavam previstos em etapas. O ministro teve o cuidado de dizer que houve uma frustração no número de respiradores comprados pelo governo federal, mas que designaria 25 respiradores, em lotes de 25, até alcançar os 200. Sendo que a necessidade é de 3 mil – é importante ressaltar que são 200 respiradores dos 3 mil que estamos necessitando. Aqui vivem 46 milhões de brasileiros e é o epicentro do coronavírus.

Como o senhor vê a possível chegada de um nome da área militar para o posto?

Eu não tenho objeções a quem venha da área militar, desde que tenha conhecimento, preparo e, no caso específico da saúde, compromisso com a saúde e a ciência.

O governo federal aponta que, dada a crise econômica, há risco de saques, assaltos. As autoridades de segurança pública do Estado também veem isso?

Isso é falso. É mais uma falsidade e uma má orientação do governo federal. O maior risco é à vida das pessoas. Não é saque nem assalto. O vírus não escolhe quem vai atingir – está em todas as classes socioeconômicas, em todas as idades, independentemente do sexo. É lamentável que tenhamos no Brasil informações dessa natureza (de saques e assaltos).

Por que São Paulo não consegue aumentar o isolamento?

Porque temos uma dupla comunicação para a opinião pública. Governadores e prefeitos, em sua maioria, fazem esforço pelo isolamento, mostram a importância da medida para proteção à saúde e à vida e recomendam que as pessoas fiquem em casa. Por outro lado, o governo federal, por meio do presidente da República, orienta exatamente o inverso. (O presidente) não usa máscaras quando deveria utilizar, promove aglomerações, se pronuncia contrariamente ao isolamento, classifica o coronavírus de uma gripezinha e resfriadozinho, e em vez de estar em casa se diverte, passeando de Jet Ski, fazendo exercício de tiro, promovendo churrasco ou tendo a intenção de fazê-lo.

Um tema sempre na mesa é o ‘lockdown’. O senhor disse que ele poderá ser implementado, se os protocolos recomendarem. Quais protocolos são esses?

São diversos tipos de protocolos, local e regional. Quem vai dizer se a necessidade motiva aplicação ou não é o comitê de saúde. Não haverá nenhuma decisão de ordem política nem de inibir e nem de aplicar, exceto aquela determinada pela saúde.

Eles têm alguma ligação com a lotação das UTIs?

O fundamental de todo o esforço do isolamento social está exatamente em não sobrecarregar as redes pública e privada. Se não tivermos leitos para o atendimento primário e leitos para o atendimento em UTI, o risco é aumentar não só infecção e a gravidade da infecção, como o número de óbitos. E é tudo que nós não desejamos.

Como seria o ‘lockdown’?

Seria o nível de isolamento próximo do absoluto. Só se deslocam quem está em áreas de absoluta necessidade: segurança pública, saúde, serviços básicos, como luz, telefone, água, transporte público, e abastecimento, como farmácias e supermercados. É um isolamento mais duro e mais rigoroso. Mas, repito, embora esse protocolo exista, ele neste momento não está colocado para aplicação. Mas é sempre importante ressaltar que, se houver essa necessidade, e se ela for determinada por um crescimento rápido e inesperado do coronavírus, nós colocaremos em ação.

Qual está sendo a maior dificuldade no gerenciamento da crise?

Enfrentar os dois vírus: o coronavírus e o ‘Bolsonaro vírus’. Não sei qual é pior.

O presidente disse para “pegarem pesado” com o senhor. O senhor já sente maior pressão?

Nenhuma. Nenhum empresário me telefonou em função dessa reunião em que o presidente pediu para jogarem pesado. Não recebi nenhum telefonema, nenhum WhatsApp, nenhum e-mail, nenhuma visita. Os empresários de São Paulo, aqueles que são verdadeiramente empresários, participaram dessa reunião em respeito à condição do presidente ocupar o cargo que ocupa. Mas são conscientes, pais de família, seres humanos, e têm inteligência suficiente para saber que nenhuma pressão vai mudar a nossa ideia de proteger vidas.

E como o senhor lida com a pressão vinda dos prefeitos?

Os prefeitos têm sido corretos no diálogo com o Estado, na sua maioria. São muito poucos os que procuraram tomar decisões equivocadas – que, aliás, todas elas foram afetadas pelo Ministério Público e também pelo Tribunal de Justiça, que têm agido, diga-se de passagem, de forma muito correta também. O diálogo foi fortalecido pela criação do Conselho Municipalista, com 16 prefeitos que representam as 16 regiões metropolitanas do Estado.

Sua gestão teve dois atritos com a do prefeito Bruno Covas: sobre fiscalização do uso de máscaras e sobre o mega rodízio. Há questões a serem ajustadas?

As relações seguem muito boas, sobretudo entre o Bruno Covas e eu. Às vezes, ajustes de equipe, um momento tenso de uma pandemia, fazem parte do dia a dia de uma mega metrópole e de um mega Estado. Mas o diálogo entre os secretários de Transportes segue fluido. O entendimento depois daquele momento em que o secretário acabou sendo surpreendido com uma medida que não havia sido dialogada previamente com ele (o rodízio) foi sanado.

Se pensarmos que vamos sobreviver à pandemia, como o senhor vê o País em 2021?

Vejo o País muito entristecido e machucado. Primeiro pelas mortes e pelas pessoas que foram vítimas do coronavírus. Mesmo entre as que sobreviverem, muitas terão problemas congênitos oriundos de comorbidades agravadas pelo coronavírus. E a tristeza. Todas as pessoas que perdem entes queridos ficam um longo tempo com essa tristeza no coração, na lembrança, na alma. O Brasil será um País mais triste em 2021. E triste pela falta de liderança, por ter um presidente que não lidera adequadamente, que não tem compaixão.

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.