'Roma': na TV ou no cinema, um luxo de filme

Filme de Alfonso Cuarón teve lançamento nos cinemas e termina nesta quarta sua temporada no Kinoplex Itaim


Na tela do cinema, tudo fica maior, e a imagem e o som podem ser usufruídos na sua totalidade. Talvez não seja a mesma coisa para usuários da Netflix. A provedora global de filmes e séries via streaming, atualmente com mais de 100 milhões de assinantes, chega ao seu público por outras telas. Graças a um a deferência especial – contratual -, Roma teve lançamento nos cinemas e termina nesta quarta sua temporada no Kinoplex Itaim.

Isso permitiu que o filme chegasse ao Globo de Ouro e esteja papando prêmios de associações de críticos. Não apenas nos EUA. Entrou na lista de melhores do ano do Divirta-se, do jornal O Estado de S. Paulo. Com toda certeza irá para o Oscar. Faz diferença ver o filme na TV ou no cinema? Com certeza, mas quanto? Logo na abertura, Cleo, a doméstica, lava o piso da garagem onde fica o carrão da família. O lugar é estreito, o carro é largo. Exige muita perícia para ser estacionado. Na água estagnada no piso, por um momento, vislumbra-se a passagem de um avião.

Foto: Divulgação
Filme teve lançamento nos cinemas e termina nesta quarta sua temporada no Kinoplex Itaim

Quase não se nota na TV, mas se Alfonso Cuarón colocou a informação é porque ela faz algum sentido. Há outro avião, no desfecho, quando Cleo está subindo a escada para o terraço em que lava a roupa. Cleo que estás en el cielo. Cuarón, de 57 anos, é casado – desde 2011 – com Sheherazade Goldsmith. Pode ser mera coincidência, mas Xerazade, na mitologia, é a narradora das 1001 Noites. Como contador de histórias, faz todo sentido que o cineasta tenha sido atraído por ela.

A história de uma família – a dele -, pelo olhar da doméstica, Cleo. Pai e mãe separam-se, a própria Cleo arranja esse namorado que a leva ao cinema. Ela engravida, ele some. Só reaparece como integrante das milícias que promovem o massacre de estudantes de Corpus Christi, o chamado “Halconazo, na Cidade do México, em 1971. O filme mistura o público e o privado. A história da família é também a do México. Se as mulheres (a babá, a mãe) forjaram a sensibilidade de Alfonso, o mundo em que ele se criou, fundamentado na injustiça social, também ajudou a definir o propósito humanitário de seu cinema.

Fotografado em preto e branco – um luxo de imagem -, Roma tinha tudo contra. Por um desses milagres de que a arte está cheia, deu tudo certo. Cuarón fez filmes pequenos como E Sua Mãe também, grandiosos como Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban. Nessa era de tantas fantasias científicas, depois de Stanley Kubrick – 2001 -, talvez nenhum outro cineasta tenha encarado o desafio da epopeia espacial como ele em Gravidade. Não por acaso, ganhou o Oscar de direção. Roma é dedicado à babá que inspirou Cleo, Libo. Só um grande artista para nos fazer compartilhar, com elevado grau de fruição estética, a emoção.

Numa cena admirável, Cleo entra no mar para salvar as crianças. Não importa que não saiba nadar. Age no instinto. Depois, chora. “Yo no lo quería” (o próprio bebê). As Cleos do mundo não têm tempo para ser mães porque estão criando, com amor, os filhos dos outros. Mas raros são Alfonsos, como Cuarón.

Olhos do mestre

Alfonso Cuarón conversa pelo telefone com a reportagem do jornal O Estado de S. Paulo. Admite que até agora, por mais reconfortante que seja, ainda tem certa dificuldade para acolher o sucesso internacional de público e crítica de seu novo longa, Roma</i. Produzido pela Netflix, o filme rompeu a exclusividade que a produtora impõe a seus autores. Chegou à provedora de filmes na sexta, 14, e no mesmo dia estreou numa sala de São Paulo, o Kinoplex Itaim, para uma sessão diária, gratuita, que dura até… Hoje! Os ingressos, disputadíssimos, foram obtidos no site da Netflix. Roma ganhou o Leão de Ouro em Veneza, está indicado em várias categorias do Globo de Ouro e, com toda certeza, irá para o Oscar – que Cuarón já recebeu, o de direção, por Gravidade, em 2014. Qual é a dificuldade do autor para assimilar essa acolhida triunfal?

“É meu filme mais pessoal. Tem muito de autobiográfico, também, e eu tenho a impressão de que toda a minha vida e carreira foi uma preparação para chegar aqui. A partir de um momento, dei-me conta de que tinha de contar essa história, liberar-me dos meus fantasmas. Mas tanto quanto o filme era necessário para mim, eu duvidava que pudesse interessar aos outros. Cheguei a comentar com meu irmão que muito provavelmente ninguém iria vê-lo. Foi realmente uma grande surpresa, uma catarse, receber aquela ovação em Veneza. E, logo em seguida, o Leão. Meu filme mais pessoal tocou as pessoas, tornou-se universal, e isso não tem preço. É uma coisa que me emociona profundamente.”

Roma não tem nenhuma vinculação com a capital italiana. É o bairro de classe média da Cidade do México em que Alfonso cresceu. O filme é dedicado à doméstica que o criou, e que inspirou a personagem Cleo, interpretada por Yalitza Aparicio. “Num sentido mais amplo, é um filme sobre e dedicado às mulheres que forjaram o homem que sou.” Sendo um projeto tão pessoal, Cuarón abriu mão de muitas parcerias e colaborações. “Senti que tinha de escrever sozinho, dirigir, manejar a câmera, até montar. Pode parecer uma coisa megalomaníaca, mas como estou operando no registro das lembranças, da memória, senti que não podia dividir isso com ninguém. Era como eu via, como me lembrava das coisas. Decidi que tinha de filmar exatamente nos locais, e a Netflix, que se tornou parceira desde a primeira hora, apoiou minha decisão. O problema é que, quando chegavam aos locais, eles haviam mudado muito, ou nem existiam. Tive de reconstruí-los, e a Netflix continuou parceira.”

Qual é o sentido de fazer com imagem e som de ponta – câmera de 65 mm, som digital multicanal – um filme que o público massivo vai ver em outras plataformas? “Por isso, desde o contrato, tratei de me assegurar de que Roma teria lançamento simultâneo em salas. Tem gente que acha que fiz isso somente de olho no Oscar, mas como, se era um projeto tão arriscado que eu não tinha distanciamento de pensar sequer como poderia sair, se é que ia sair? Depois da repercussão em Veneza, a Netflix chegou a ampliar as salas. Fiquei muito feliz.” Roma não é só a história de uma família, pelo ângulo da doméstica Cléo.

A família implode, pai e mãe separam-se. Para Cuarón, essa história é também do México. Mistura o público e privado. Um célebre massacre, reconstituído nos mínimos detalhes. “Não faria sentido não dar esse testemunho. Sou um produto de tudo isso.” Algumas cenas já entraram para a história – o massacre, o salvamento no mar.

Entrevistada pelo jornal O Estado de S. Paulo, Yalitza Aparicio já disse como foi feita a segunda. Agora, quem conta é o diretor. “Filmamos numa enseada e com grande risco, apesar de toda as precauções, porque Yalitza não sabia nadar. Houve uma tormenta tropical na região, que deixou o mar mais revolto. Pior – danificou a grua, na qual estava a câmera. Filmamos mais de uma vez, sem nunca saber se ia dar certo. Os deuses do cinema ajudaram. É um filme que poderia ter saído todo errado. Só o que ouço das pessoas é o oposto.”

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