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Televisão

Um passado mais que presente

Enquanto não volta aos estúdios, Paulo Betti se emociona com as reprises de “A Vida da Gente” e “Império”

Por TV Press

24 abr 2021 às 09:54

A pandemia deixou Paulo Betti mais sensível. Ator dedicado e sempre envolvido em algum projeto, há muito que Paulo não ficava tanto tempo fora do ar. Ele assume que, internamente, a saudade dos estúdios convive com a sensação de finitude e a impressão de que agora é um mero espectador do tempo.

“O momento é complicado. Grande parte do mundo está praticando o isolamento e com o risco iminente de morte rondando. Por isso, estamos rejeitando o outro, com medo de uma possível infecção. Viver dessa forma me deixa muito à flor da pele”, justifica.

Na tentativa de se distrair, o ator agora encontra alento e diversão justamente nas novelas. Seja para matar as saudades de atuar ou dos parceiros de cena, ele tem se emocionado com a reprise de “A Vida da Gente” na faixa das seis, onde deu vida ao machista Jonas.

Além disso, ele se preparou para colocar o horário das 21h em sua rotina com a reestreia de “Império”, onde viveu o controverso Téo, papel que marcou seu reencontro com tipos de forte apelo popular.

“Nunca fui de assistir a meus trabalhos. Mas tem sido uma experiência interessante. Me vejo mais novo, ao lado de amigos que já se foram e outros que estou ansioso para reencontrar. Novela é algo cansativo, mas que eu adoro fazer. Muito bom perceber que fiz bons trabalhos nos últimos anos”, celebra.

Nascido na pequena Rafard e criado em Sorocaba, ambas no interior de São Paulo, Paulo é o mais jovem de uma família de 15 irmãos. Após uma infância em um meio humilde e operário, o fascínio pelas artes o levou a partir para a capital em busca de novas possibilidades. Já conhecido dos palcos, estreou na tevê em “Como Salvar Meu Casamento”, produzida pela extinta Tupi, em 1980.

Com passagens pela Band e Manchete, foi na Globo que ele conquistou seus personagens mais famosos, como o Timóteo de “Tieta”, o Ypiranga de “A Indomada” e o Joãozinho de “O Fim do Mundo”, entre outros.

Aos 68 anos, Paulo se orgulha de ter conseguido conciliar o vídeo, os palcos e o cinema com desenvoltura. “Na tevê, quase todos os papéis me foram dados. No teatro e nos filmes, tenho mais poder de seleção e autonomia”, ressalta o ator que, por enquanto, evita fazer tantos planos para quando tudo voltar ao normal.

“Já tive diversos projetos adiados ou cancelados. Na hora que as coisas forem de fato acontecer, estarei pronto e feliz de voltar ao trabalho”, avisa.

O papel de Téo em “Império” foi originalmente escrito por Aguinaldo Silva para José Wilker, que faleceu em 2013 e era um dos melhores amigos de Paulo – Foto: Divulgação

A comédia domina grande parte de seus personagens em novelas, como o Ypiranga de “A Indomada” e o Téo de “Império”. Como foi encarar o tom mais dramático e naturalista de “A Vida da Gente”?

Dificílimo (risos). Nos ensaios, ficava desesperado por ver meus companheiros de elenco muito afinados com a proposta da trama e eu ainda meio perdido. Minha saída foi estudar bem o texto. Há muitos anos que eu chegava aos estúdios apenas com as minhas falas memorizadas e pronto. O Jonas me tirou do “piloto automático”. Estudava tudo para entender a intenção de cada cena e como aqueles diálogos se relacionavam com a história em geral. Além disso, tive dificuldades de me distanciar do personagem.

Como assim?

O fato dele se separar depois de 30 anos de casado e em seguida viver uma nova história com uma mulher mais nova me aproximou demais do Jonas. Ele tinha componentes que mexiam com a minha própria vida e isso me desagradava um pouco. Para fazê-lo bem, eu não podia julgá-lo.

O Jonas protagoniza diversas cenas de puro machismo em “A Vida da Gente”. Como o público enxerga as atitudes do personagem nessa nova exibição?

A resposta está bem mais crítica. Ele acabou terminando a novela como uma espécie de vilão e isso está mais nítido agora. A discussão sobre o machismo é muito atual e importante. E Jonas é um cara que tem um certo orgulho de estar em forma, de ser um homem viril. Ele ficou muito chateado por ter de comprar o sêmen do próprio irmão para poder engravidar a esposa, pois ficou parecendo que ele era impotente. O texto não deixou que ele sofresse só no final. Ele praticava o mal, mas também tinha seus reveses. Era um sujeito de grande complexidade.

Em qual momento as dúvidas sobre como interpretá-lo se dissiparam?

Quando entendi que, mesmo nos momentos em que Jonas era cruel, cômico ou dramático, tinha de manter os dois pés no chão e fazer meu trabalho sem exageros. Era minha primeira novela naturalista e foi um grande aprendizado. Fiquei apaixonado pelo texto da Lícia (Manzo, autora). Tinha o frescor de uma autora estreante no posto de titular, mas com a experiência de ter sido colaboradora de outros grandes profissionais.

Como você recebeu a notícia da reprise da trama na faixa das seis?

Me emocionei, acredita? Há um ano que estou recluso em casa e isso tem me deixado muito sensível. Tudo me faz chorar. Vi as cenas do “teaser” de apresentação da reprise e chorei por ver Dona Nicette (Bruno), as meninas Fernanda (Vasconcellos) e Marjorie (Estiano). É uma história muito forte sobre laços familiares em um momento onde a saudade tem comandado a vida das pessoas. Pela primeira vez, todos os dias, sento no sofá e paro para ver uma trama da qual participei.

Você não se assistia por autocrítica ou pura falta de tempo?

As duas coisas. Em plena pandemia, ver a novela se tornou um dos meus programas favoritos. Revejo os colegas e também encaro o meu envelhecimento. Há 10 anos, estava no meio da jornada da minha vida, às vésperas dos meus 60 anos. Agora, próximo dos 70, parece que passou uma eternidade. Já me vejo no outono, quase entrando no inverno da minha vida (risos).

Você está na tevê há pouco mais de quatro décadas e é um dos mais frutíferos atores da Globo. Como avalia esse período de pausa nos trabalhos por conta do coronavírus?

É claro que estou com saudade dos estúdios, mas é um momento de reflexão. Estou feliz de ver que fiz trabalhos importantes nos últimos anos e que a emissora tem escolhido essas histórias para ocupar o horário nobre. “Império” também volta ao ar agora e foi um trabalho delicioso.

O Téo de “Império” foi um tipo bem popular. Quais suas principais lembranças desse trabalho?

Téo foi meu maior sucesso recente na tevê, amado e odiado na mesma medida. Um trabalho muito comentado e que me deu muitas alegrias. Algumas críticas diziam que eu o interpretava de forma caricata. Mas o acho um sujeito totalmente possível. Me inspirei nos gays que existem dentro de mim, mas também nos muitos que conheço. Acho que Téo vai fazer muito “barulho” de novo.

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