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Celebridades

Ouro de tolo

Feita às pressas, “Pecado Capital” questionava valores com altas doses de realismo há 45 anos

Por Geraldo Bessa / TV Press

29 dez 2020 às 08:32

O taxista Carlão, papel de Francisco Cuoco e a mocinha proletária Lucinha, de Betty Faria, os protagonistas da trama - Foto: Divulgação - Tv Globo

Algumas novelas conseguem captar a realidade de forma muito particular. Exibida há exatos 45 anos, “Pecado Capital”, de Janete Clair, é um desses casos. Contemporânea, suburbana e com personagens totalmente humanizados, a novela foi um marco para a época justamente pelo apelo e identificação que criou com o público a partir das ambiguidades e ambições de suas histórias.

“É preciso respeitar a autora que tem coragem de matar o mocinho da novela. Janete escrevia de forma muito bem estruturada e deixava margem para o imponderável. Foi uma novela de superlativos e olha que nem era para ter ido ao ar”, relembra Francisco Cuoco, o protagonista Carlão. Em agosto de 1975, a censura militar barrou a exibição de “Roque Santeiro”, de Dias Gomes, no dia da estreia. A Globo acabou colocando na faixa das oito um compacto de “Selva de Pedra” enquanto pensava em outra novela para exibir no horário.

A solução foi doméstica. Sabendo da eficiência para escrever histórias fortes e de apelo popular, a emissora escalou Janete Clair, que era casada com Dias Gomes, e encomendou uma novela para ser pré-produzida em cerca de três meses. Sem fazer grandes exigências, Janete teve de inventar personagens e histórias pensando nos atores que fariam “Roque Santeiro”.

Sendo assim, criou o taxista Carlão para Cuoco, o empresário Salviano para Lima Duarte e a mocinha proletária Lucinha para Betty Faria – na trama proibida, o trio interpretaria Roque Santeiro, Sinhozinho Malta e Viúva Porcina, respectivamente.

Na história, Lucinha e Carlão são noivos e pretendem se casar assim que conseguirem melhorar de vida. Ela trabalha como operária de uma grande confecção e ele é taxista. O primeiro capítulo apresenta um assalto a um banco e o fruto desse roubo, uma mala contendo 800 mil cruzeiros –uma fortuna na época –, é deixada no carro de Carlão.

A partir daí, o protagonista se torna um anti-herói com a dúvida de usufruir ou devolver a quantia. Uma das cúmplices do assalto, Eunice, de Rosamaria Murtinho, acaba descobrindo que o dinheiro estava com Carlão e se aproxima dele.

Apaixonada e de olho na fortuna, ela faz de tudo para ficar com o taxista e acaba o afastando de Lucinha. “A Eunice era a grande vilã da história. Louca e obsessiva, ela não fazia muito juízo do que era certo e errado. Acabou arrastando o Carlão para a lama”, destaca Rosamaria.

A derrocada do protagonista contrastava com o caminho seguido pela mocinha que, ao ser descoberta como modelo – manequim na época -, acabou conhecendo e se envolvendo com o viúvo Salviano Lisboa, papel de Lima Duarte.

Sucesso de audiência.
Ambientada no Méier, bairro da Zona Norte do Rio de Janeiro, a novela foi dirigida por Daniel Filho e Jardel Mello e se revelou um sucesso de audiência ao longo de seus 167 capítulos. Com atuações de destaque de nomes como Débora Duarte, Mário Lago, Luiz Armando Queiróz, Maria Pompeu, Dennis Carvalho e André Valli, a produção ainda foi importante para renovar a assinatura de Janete Clair.

“Ela nunca tinha sido tão realista na carreira”, destaca a figurinista Marília Carneiro. De comum acordo com a autora e Daniel Filho, em vez de produzir figurinos para a novela, Marília andou pelas ruas do subúrbio carioca e persuadiu pessoas a trocar as roupas que estavam usando por novas peças.

As músicas que embalaram a trama também se revelaram antológicas. Em vez de recorrer a uma trilha totalmente original, pela primeira vez, as novelas da Globo se abriam para o acervo das gravadoras. A única encomenda foi a canção de abertura. Três compositores receberam a sinopse e estavam no páreo para entoar o tema. Paulinho da Viola se sagrou vencedor com o samba de mesmo nome da novela.

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