Escola não é lugar para tabu

Assuntos polêmicos, como sexualidade, preconceito, armamento, aborto e drogas não podem ser excluídos do universo escolar, apontam especialistas


Parte das preocupações dos pais envolvendo a educação de seus filhos é como abordar temas polêmicos e considerados tabus pela sociedade. Aborto, preconceito, sexualidade, violência, feminismo e drogas, por exemplo, são assuntos tratados como verdadeiros bichos de sete cabeças por muitas famílias e podem causar mal-estar quando colocado à mesa. No entanto, esse tipo de “embaraço” não deve ocorrer dentro das escolas, onde esses temas podem – e devem – ser discutidos, de acordo com educadores ouvidos pela Revista L.

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Parte das preocupações dos pais envolvendo a educação de seus filhos é como abordar temas polêmicos

“Sempre existiu um grande preconceito e mitificação em torno de alguns temas, como a questão das drogas, do aborto e da sexualidade. A gente busca sempre, na medida do possível, abordá-los de uma forma correta”, explica Fábio Kawakami, diretor administrativo do colégio Anglo Cezanne, de Americana. “Esses temas devem ser debatidos, de uma forma politizada e com crítica, mas de uma maneira respeitosa, com tolerância. O mais importante para as crianças e adolescentes é aprender a viver com essas diferenças”, ressalta.

Para Volnei Antonio Sacardo, diretor pedagógico do Colégio Antares, a escola não pode se negar a discutir esses assuntos com os alunos. “Mesmo que não ditos, eles vão acompanhar qualquer tipo de aglomeração social, inclusive a escolar. Você pode achar que a questão de gênero não é algo para ser discutido, mas a criança não está isenta de viver numa sociedade em que ela exista”, ressalta.

“A escola não pode ser uma ilha. As tensões que estão do lado de fora também estão dentro dela”, destaca Sacardo. E, Kawakami, complementa: “A diferença é que nas escolas, quando existe esse tipo de debate, você tem uma mediação”. Para isso, diz ele, o professor deve sempre debater sobre os argumentos em que cada estudante se sustenta. “Devemos mostrar para o aluno que é necessário, primeiro, compreender o fenômeno para poder se posicionar sobre ele, de uma forma autônoma e crítica, não meramente reproduzindo opiniões de outra pessoa, mas, principalmente, de forma respeitosa e ética com aquelas pessoas que você discorda”, salienta.

Proibir o debate não é o caminho

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Para muitos desses pais, as escolas estão se tornando espaços de ideologia polícia, o que, segundo os especialistas, é uma bobagem

Um dos principais problemas em proibir o debate de temas ditos polêmicos, seja em casa ou no âmbito escolar, é fazer com que ele se torne um tabu. Nos últimos anos, tem ganhado força no Brasil o pensamento de pais e responsáveis de que assuntos como aborto, sexualidade e drogas, por exemplo, não devem ser apresentados nas salas de aula. Para muitos desses pais, as escolas estão se tornando espaços de ideologia polícia, o que, segundo os especialistas, é uma bobagem.

Volnei Sacardo, diretor pedagógico do Colégio Antares acredita que há uma explicação para isso. “Quando ocorrem as crises econômicas, como essa que tem afetado o Brasil, geralmente há uma tendência de se radicalizar as posições. Esses assuntos, no entanto, acompanham as pessoas. Independentemente de nós gostarmos deles ou não, eles estão por aí, espalhados no cotidiano. Você não consegue formar um cidadão do mundo negligenciando ou proibindo informações. O que não pode haver é proibição”, aponta.

O diretor do Cezanne, Fábio Kawakami, entende que as redes sociais têm um papel de destaque na polarização vivida pela sociedade brasileira. “Quando alguém posta sobre um assunto polêmico, por exemplo igualdade de gênero, você vai ver várias pessoas que vão criticar, e na maioria das vezes, de forma agressiva. Essa agressividade existe porque a pessoa está ‘escondida’ atrás do celular ou do computador e isso faz com que o comportamento agressivo se torne mais fácil. É um péssimo hábito de entrar no embate, não no debate”, lamenta.

Jovens conectados e a influência das redes sociais

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“Quando os jovens ficam apenas sob influência do que eles leem nas redes sociais, desenvolvem uma opinião muito restrita e reduzida”

Na opinião do diretor do Colégio Cezanne, Fábio Kawakami, muitas vezes os “temas sociais” chegam à sala de aula trazidos pelos próprios alunos. “Quando algum tema vira ‘meme’, ou seja, ‘bomba’ na internet, cabe à escola encaixar isso nas disciplinas, o que é muito viável”, aponta. “Quando os jovens ficam apenas sob influência do que eles leem nas redes sociais, desenvolvem uma opinião muito restrita e reduzida. Esse debate é sempre no sentido de enriquecer, pegar o que eles ouviram e o que está circulando e ampliar essa visão”.

Segundo ele, quando a criança traz uma dúvida para dentro da sala de aula, é papel do professor desmistificar a questão. Kawakami aponta para o perigo de determinado assunto se tornar um tabu. “O adolescente precisa aprender a debater esses assuntos sem ser preconceituoso”.

Já para Mirielly Carrara, orientadora educacional do colégio Dom Bosco, a informação precisa ser sempre completa e abordar os dois lados, sem se esquecer dos valores fundamentais à sociedade, como os direitos humanos e o respeito ao próximo. “A nossa história sempre limita nossa maneira de ver o mundo”, afirma a especialista, formada em Ciências Sociais. “O papel da escola é ampliar esse horizonte”, acredita.

A difícil missão de ‘educar’… os pais

Foto: João Carlos Nascimento - O Liberal
Boa parte da visão mais conservadora da família, para Mirielly, começa a ter forma na internet e nas redes sociais

Ligados com o que acontecem no mundo, as crianças e jovens, cheios de curiosidade, usam da escola para sanarem dúvidas e questionarem sobre o mundo em que vivem – sem se esquivar dos assuntos “espinhentos”. Nesse cenário, de acordo com Mirielly Carrara, orientadora educacional do colégio Dom Bosco, uma das missões mais difíceis dos professores é educar não só os pequenos, mas também seus pais.

“Hoje o desafio é criar uma ligação com os pais em relação à diversidade. As crianças e adolescentes são muito mais abertos do que as famílias”, afirma. Segundo a especialista, a escola não pode e nem deve fugir dos assuntos polêmicos, mesmo que eles não sejam do agrado dos pais. “Vamos dar espaço e os professores têm liberdade para falar de todos os assuntos, guardadas as proporções da idade e do contexto. Nós somos enfáticos na ideia de não haver proselitismo, porque temos que dar margem para todos os tipos de ideia para conviverem com a diversidade”.

Boa parte dessa visão mais conservadora da família, para Mirielly, começa a ter forma na internet e nas redes sociais. “Esses temas sempre foram debatidos na escola, mas acho que hoje existe uma necessidade de se criar uma ‘vida da aparência’. Isso é preocupante, porque nesse tipo de vida, não existem contradições e conflitos”, explica a orientadora. “Os jovens têm interesses nesses temas e é natural que os pais tenham medo, mas esses não são mais assuntos privados. Aquela família igual à da propaganda de margarina já não existe”, ressalta.

‘Escola Sem Partido’ gera discussão

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Ana Maria diz que escola não é lugar de senso comum; Volnei aponta que o “Escola Sem Partido”, por si só, figura como um movimento político;

Os idealizadores do “Escola Sem Partido” usam como argumento para justificar a criação do movimento a “preocupação com o grau de contaminação político-ideológica das escolas brasileiras”. Os organizadores dizem representar pais e estudantes contrários ao que eles chamam de “doutrinação ideológica” dentro das salas de aula. Além disso, existem os projetos de lei que, em sua maioria, seguem o modelo de um anteprojeto elaborado e defendido pelo próprio movimento. Esse anteprojeto se diz ser “contra o abuso da liberdade de ensinar”.

Tanto para Volnei Antonio Sacardo (Antares), quanto para Fábio Kawakami (Cezanne), o “Escola Sem Partido”, por si só, figura como um movimento político. “Tem um conceito complicado, que é de você impor para a escola uma determinada norma de conduta em relação ao debate político, porém, essa imposição, por si só, já é política”, diz Kawakami. “É um movimento que surgiu de uma classe mais conservadora e que não quer que haja ‘doutrinamento’ da esquerda em relação às crianças, o que é justo. Por outro lado, não prega a proibição do pensamento conservador: esse seria permitido”, explica o diretor, exaltando o cerne contraditório do movimento.

“Hoje, devido a essa polarização, tenta-se fazer uma patrulha sobre a escola. Porque é mais fácil você tentar controlar a escola do que controlar as outras atividades sociais do filho, do que um programa de televisão, uma propaganda, etc.”, complementa Sacardo. “Os técnicos do MEC deram um parecer de que é um absurdo as escolas não tomarem posições. A vantagem é que nós fazemos [os debates] baseados na ciência”.

Segundo Ana Maria da Silva Fortes Aguiar, diretora-geral do Colégio Antares, escola não é lugar de senso comum. “Exigimos que os professores sejam estudiosos, porque senão eles serão senso comum. As grandes discussões devem ser sempre baseadas na ciência e a gente não vai se negar a discutir essas questões do cotidiano”.

Mirielly Carrara, orientadora educacional do Dom Bosco sustenta, no entanto, que a sociedade como um todo exagera na questão do poder que o professor tem em influenciar os alunos. “Claro que o proselitismo [ação de tentar converter uma ou várias pessoas em prol de determinada causa, doutrina ou ideologia] existe, e é preciso tomar cuidado, mas não acredito que isso seja maioria. O que existe são professores que inspiram, seja por suas posturas ou pelas defesas de certos ideais, e os pais têm medo disso”, diz. “Todos esses temas os alunos vão encontrar na sociedade, na faculdade, e precisamos prepará-los. O movimento ‘Escola sem Partido’ está criando um problema, não falando sobre um problema”, reforça.

Expectativas de futuro

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De acordo com Fábio Kawakami, diretor administrativo do colégio Anglo Cezanne, a preparação desses jovens deve começar já na infância

Outro assunto discutido pela Revista L com os especialistas foi a mudança do mercado de trabalho e a falta de expectativas do jovem no futuro. De acordo com eles, ensinar jovens que buscam uma boa profissão já não é o suficiente: é consenso que, para um mercado de trabalho cada vez mais competitivo, é necessário desenvolver habilidades e competências.

“[Os jovens] têm uma perspectiva negativa sobre o futuro, mas essa perspectiva não nasceu com eles”, avalia o diretor pedagógico do Antares, Volnei Sacardo. “É extremamente difícil ser jovem nesse mundo pós-moderno em que a gente vive, que não inclui o jovem em seu plano de futuro. O jovem só entra no discurso dos adultos quando é pelo consumo, tratando-o como um pequeno consumidor”, aponta. Ana Maria da Silva Fortes Aguiar, diretora-geral do Antares, reforça que é necessário preparar o aluno para as mudanças. “Você tem que desenvolver competências para lidar com diferentes situações, com imprevistos e improvisos”.

De acordo com Fábio Kawakami, diretor administrativo do colégio Anglo Cezanne, a preparação desses jovens deve começar já na infância. “Hoje a gente tem que preparar o aluno para uma profissão, muitas vezes, que ainda não existe. Em países desenvolvidos, temos robôs fazendo o trabalho de médicos”, exemplifica. Segundo o diretor, o aluno tem que estar preparado para uma realidade que ainda é desconhecida. “A escola não pode mais se limitar a ensinar para o vestibular, isso é pouco. É preciso prepará-los para ter autonomia no cotidiano e na carreira”.

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