Em meio à crise, continue em frente

Mário Sérgio Cortella explica como encontrar motivação em meio às adversidades, desmitifica a “sorte” e ressalta a importância de se preparar


Foto: João Carlos Nascimento - O Liberal
Em seu último livro solo, “A Sorte Segue a Coragem”, o filósofo ressalta que sorte vai muito além do misticismo

A recessão econômica no país gerou um sentimento de insegurança e reforçou o pessimismo no brasileiro. A eleição de um novo presidente parece não ter melhorado as expectativas de alguns. O fato é que, enquanto o Brasil não mostrar melhoras significativas no bolso e qualidade de vida das pessoas, encontrar ânimo será difícil.

Durante um bate-papo com o professor e filósofo Mário Sérgio Cortella, em seu escritório em São Paulo, ele cita a frase bíblica “Levanta-te e anda” que sugere, em meio à crise, a necessidade de continuar em frente, com cautela, mas caminhando sempre. Em seu último livro solo, “A Sorte Segue a Coragem”, o filósofo ressalta que sorte vai muito além do misticismo. São oportunidades que passam por nós diariamente e aproveitá-las requer preparo e uma boa dose de coragem.

Como eliminar o pensamento pessimista do “o que eu faço não é bom”, “o Brasil não vai para frente” e ter mais esperança?

A motivação é uma coisa do indivíduo, não é possível motivar alguém. Você consegue estimular, mas não motivar. A motivação é uma aporta que abre se dentro para fora. Motivação é aquilo que impulsiona, que anima uma pessoa a algo fazer. Nós, nos quatro anos mais recentes, estamos vivendo um desanimo, uma perda dessa alma. E esse momento de desanimação só pode ser enfrentado com a clareza daquilo que nossos avós já diziam “não há mal que sempre dure, nem bem que nunca se acabe”. Uma pessoa que desanima a fazer algo que está no dia a dia dela é porque ela está muito aprisionada dentro do momento. É claro que o momento importa, mas aquilo que será o nosso momento futuro precisa ser olhado também, como um tempo de chegada.

E como enfrentar isso?
A maneira de enfrentar esse desanimo e até pessimismo é ter clareza de que ele é passageiro. Mas o desanimo não passará por si só, ele não depende só de circunstancias que são exteriores a mim. Depende de minha iniciativa, da minha capacidade de ir a busca. Às vezes me perguntam o que você espera do Brasil… eu digo que nada! Porque eu não gosto de esperar, eu gosto de buscar, de ir atrás. A noção de espera dá a sensação de que eu sento e aguardo e isso não é bom.

Como encontrar motivação no trabalho?

Eu tenho um livro chamado “Qual é a Tua Obra?” no qual faço uma distinção entre trabalho e emprego. Trabalho é fonte de vida. Há muitas pessoas que trabalham, mas não têm emprego, isto é, elas têm atividades… elas cuidam da família, cuidam de outras pessoas, elas são profissionais livres naquilo que fazem mas não têm um emprego no sentido usual do termo, formalizado, ligado a instituições. É difícil quando a gente vive uma turbulência como a nossa, deixar de lado o emprego que oferece algumas garantias. Machado de Assis dizia que nem sempre recuar é fugir. Muitas vezes recuar é ser capaz de dar um passo estratégico e, mesmo que eu deseje um passo diferenciado, um emprego novo ou novo cargo, eu preciso entender que este momento não é necessariamente positivo para essa condição. Paulinho da Viola um dia cantou um conselho: “faça como o velho marinheiro que, em meio ao nevoeiro, leva o barco devagar”. Levar o barco devagar não é ficar parado, mas é saber que em um nevoeiro, na ausência de clareza, deve-se tomar cautelas.

O que quis dizer com “A Sorte Segue a Coragem”, que é o título do seu último livro? A sorte não é algo místico, que independe de nós?

A sorte pode ser traduzida de vários modos. “A sorte segue a coragem” é uma expressão dos antigos latinos, significa que muitas vezes se diz “olha como essa pessoa tem sorte! Tudo dando errado e para ela dá certo”… Na verdade o que ela faz é preparar a coragem, de maneira que, encontrando a ocasião a circunstância, possa aproveitá-la. Quem é caipira como eu [Cortella é natural de Londrina/PR] costuma dizer que o cavalo não passa arriado duas vezes, quer dizer, “presta atenção nas ocasiões que estão a sua volta”. Mas não basta o cavalo passar arreado, eu preciso saber montar, eu preciso estar preparado para permanecer em cima dele, eu preciso ter habilidade para conduzi-lo, eu preciso inclusive prestar atenção para saber se de fato é um cavalo.

E como se dribla esse medo?
A gente dribla o medo com coragem! E eu terei mais coragem para driblá-lo quanto mais eu estiver preparado para enfrentá-lo. O medo é positivo. Por exemplo, eu criei os meus três filhos e netos de maneira que eles tenham medo de atravessar a rua e serem atropelados, mas que não deixem de atravessar. Que eles prestem a atenção, mas atravessem. Que eles temam o rio, o mar, a água da piscina, mas não deixem de mergulhar. E a maneira de enfrentar o medo de se afogar é aprender a nadar direito.

Nesta entrevista, Cortella falou também sobre a importância do “Não” na relação entre pais e filhos e, principalmente, para a formação da personalidade dos jovens e crianças, no desenvolvimento do respeito mútuo e da capacidade de conviver com outras pessoas.

Porque o “Não” hoje é, muitas vezes, recebido como insulto pessoal?

Ter disciplina não é perder a liberdade. A disciplina é a organização da liberdade, uma pessoa será mais livre quanto mais disciplinada ela for, e faz parte da disciplina a oportunidade de escolhas e toda escolha é uma abdicação. Por isso o “Não” tem que ter o seu lugar no cotidiano entre pais e filhos e, se ele deixou de ter, é preciso entender isso como forma de desamor, mesmo que distraído.

O livro “Familia: urgências e turbulências” [Ed. Cortez, 2017] surgiu porque me irritei com uns pais e mães acovardados a frente de suas tarefas na educação dos filhos. Basta de “o amor aceita tudo”. A frase correta é “porque eu te amo, eu não quero que você faça isso”. […] O amor que cuida, o amor verdadeiro é capaz também de negar, seja para adultos ou crianças. O amor que tudo aceita é leviano e irresponsável! O jovem ou criança que recusa o “não” terá que aprender a fazê-lo.

As pessoas não gostam muito da palavra castigo, porém, quando eu penso em castigo, eu penso em responsabilização, não estou pensando em agressão, em ferir alguém. Por exemplo, se um adulto como eu fizer o que não deve será privado de propriedade, de liberdade… uma criança que faz o que não deve, o contrário do que foi combinado com os pais ou tutores, precisa ser privada de liberdade momentânea, ser restrita na sua condição de uso de propriedade [seja um brinquedo ou uma atividade] de maneira que ela entenda que isso é necessário para se formar uma personalidade decente.

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