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Revista Pet

Cães-guias: muito mais que amigos

Em uma analogia, a relação entre o tutor e o cão-guia é a seguinte: a pessoa seria o cérebro e o cão, os olhos

Por Isabella Holouka

28 abr 2021 às 07:19

“Um cão-guia não é só um cachorro desviando de obstáculos, é alguém que cuida de você o tempo todo, é uma parceria total”, relata o sorocabano de 26 anos Murilo Delgado, assistente de relacionamento do Instituto Magnus, sobre sua cachorra Baduska, de quem é tutor há cerca de dois anos.

“Com ela tenho confiança e segurança para ir a qualquer lugar”, conta. Além da liberdade conquistada na companhia de Baduska, Murilo afirma que os cães auxiliam as pessoas com deficiência visual a terem mais interações sociais no cotidiano. “O cão aproxima as pessoas, bastante diferente da bengala, que acaba virando uma barreira”, afirma ele.

O treinamento dos cães-guia envolve, basicamente, ensinamentos para que eles desviem de obstáculos ou encontrem coisas, de acordo com a necessidade do dono.

Murilo e sua cã Baduska – Foto: Divulgação

No Brasil, costumam ser treinados cães das raças labrador ou golden retriever, que têm altas taxas de sucesso no trabalho, além de se adaptarem bem ao clima brasileiro, serem de porte médio e terem boa aceitação social. No mundo, mais de 30 raças são utilizadas, dentre elas o husky siberiano e o dálmata, por exemplo.

O Instituto Magnus, localizado em Salto de Pirapora (no interior do Estado de São Paulo, distante cerca de 142 km de Americana) é uma iniciativa sem fins lucrativos que desde 2018 realiza o treinamento e a formação dos cães-guia, além da capacitação de seus usuários.

Desde o início das atividades foram entregues 30 cães, sendo que a meta é a formação de 60 em um ano. Há cerca de 500 pessoas de todo o Brasil na lista de espera da instituição. São apenas três escolas do gênero no país, e o Instituto Magnus se destaca como o maior da América Latina.

Não há um censo oficial indicando quantas pessoas possuem um cão-guia no Brasil, mas o Instituto estima que existam menos de 200 cães-guia ativos atualmente. A legislação brasileira não prevê nenhum tipo de incentivo ou isenção fiscal, nem para o usuário de cão-guia nem para a empresa que o fornece, mas a circulação livre e sem restrições dos cachorros é garantida pela lei nº 11.126, de 27 de junho de 2005.

Nem toda pessoa com deficiência visual está apta ao uso do cão-guia, como explica Murilo. “Pessoa tem que ter autonomia. O cão-guia vai auxiliar, mas o caminho é ela que precisa saber. Em uma analogia, é como se a pessoa fosse o cérebro, e o cão, os olhos”.

A história dos cães-guia inicia na maternidade. Os filhotes ficam com as mães nos primeiros 70 dias de vida, período em que também passam por estímulos e testes. Após este período, os cães são encaminhados para famílias voluntárias socializadoras que têm como missão a primeira etapa da formação do cachorro: apresentá-lo ao mundo, ensinar as regras básicas de higiene e comportamento e levá-lo para os mais diferentes locais para que ele se acostume à exposição.

Depois de um ano o cão volta ao Instituto Magnus, onde fica de 3 a 5 meses em treinamento específico. Terminado o treinamento, o Instituto entrevista candidatos e analisa critérios que devem ser compatíveis com o comportamento do cão. “É um casamento arranjado”, sinaliza Murilo.

Escolhido o candidato, tal pessoa tem acesso ao hotel do Instituto, onde convive com o cão por 15 dias para adaptação e aprendizagem. Depois, o cão passa outros 15 dias com seu tutor, em casa, para que então ocorra a doação, momento que o tutor assume os custos da vida do cachorro, embora a dupla continue acompanhada pelo Instituto.

Os cães trabalham por cerca de 8 anos, se aposentando aos 9 ou 10. Depois da aposentadoria eles são doados para famílias cadastradas, e o Instituto tem o compromisso de substituir o cão para que a pessoa com deficiência visual não fique desassistida.

“Em 2021 estimamos a entrega de mais 18 cães, mas não temos como ter uma meta ou certeza. Levamos sempre em conta o bem-estar, a saúde e a qualidade de vida deles”, conclui Murilo. 

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