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Revista L Educação

Lição de casa é coisa séria

Interesse dos pais pelo desenvolvimento escolar dos filhos, através do auxílio nas tarefas escolares, ajuda a garantir equilíbrio emocional e valorização dos estudos

Por Isabella Holouka

11 de novembro de 2021, às 07h37

Aos 10 anos, Giuseppe Pires Zoppi deseja ser confeiteiro e sabe da importância do conhecimento para realizar seu sonho de trabalhar na cozinha.

Ele é aluno no 5º ano do ensino fundamental no Ciep (Centro Integrado de Educação Pública) Professora Oniva de Moura Brizola, no bairro Antônio Zanaga, em Americana, elege a matemática como matéria predileta e conta fazer as tarefas escolares diariamente com a mãe, a dona de casa de 45 anos, Valéria Pires Zoppi, ou o pai, o professor de informática e administração, de 47 anos, Adenilson José Zoppi.

Giuseppe e Valéria: o pequeno prefere estar acompanhado na hora da lição – Foto: Marcelo Rocha / O Liberal

“Eu começo acordando, vou fazer a aula on-line, descanso um pouco, e se não tiver aula à tarde, já vou fazer a lição. E vou fazendo matemática, geografia, português. Quando meus pais estão disponíveis, eu gosto de sempre fazer com eles, e não sozinho”, conta o menino.

Os pais acompanham as lições de Giuseppe, atentos para o caso de alguma dúvida, e a necessidade de explicar, pensar juntos, ou pesquisar na internet.

“Quando eu não sei explicar alguma coisa, porque já não lembro mais, e o pai dele também não sabe, pesquisamos para relembrar e acabamos aprendendo juntos”, conta a mãe.

Como principais desafios, Valéria cita disciplina e organização dos horários. “Quando a criança tem o apoio da família, isso se torna mais fácil. Deve ser muito difícil para a criança não ter com quem contar, principalmente porque há atividades para fazer em conjunto, em família”, acrescenta.

Barbara Santarosa, hoteleira de 36 anos, e Glaucio Franco Bacchin, gerente geral de indústria, de 46, fazem questão de acompanhar as tarefas escolares de Cecília, de 6 anos, estudante do 1º ano do ensino fundamental no Colégio Politec, no Parque Residencial Nardini.

Glaucio e Bárbara fazem questão de acompanhar as tarefas escolares da filha Cecília, aluna do 1º ano do ensino fundamental – Foto: Marcelo Rocha / O Liberal

As atividades do dia a dia costumam ter o acompanhamento da mãe, as tarefas de inglês são feitas exclusivamente com o pai, e os três se reúnem para as propostas artísticas.

“Já fizemos testes, deixamos ela fazendo sozinha, e eu percebi que o tempo aumenta, porque ela se distrai, e acontecem erros de falta de atenção. Então eu prefiro acompanhar, ver a evolução da letra, da compreensão de texto. Também quero ver o que a escola está propondo. E é um momento para passar junto, eu faço tudo da maneira mais leve que eu posso, para que ela se lembre depois, e tenha essa memória afetiva”, comenta Bárbara.

O esforço da mãe Queila Pastorin Costa, técnica contábil de 37 anos, e do pai Ricardo Souza Costa, gerente regional de 38 anos, para não deixar a rotina de trabalho e a distância atrapalharem o apoio ao filho Gabriel Pastorin Costa, de 8 anos, representa o maior desafio de muitas famílias.

Estudante da 3ª série na Emef (Escola Municipal de Ensino Fundamental) Florestan Fernandes, no bairro Morada do Sol, o menino fica sob os cuidados dos avós enquanto os pais trabalham, e a ajuda para a lição de casa é através de ligação telefônica.

A avó Nair ajuda o neto Gabriel a cumprir a rotina de estudos, que tem ainda a participação dos pais – Foto: Marcelo Rocha / O Liberal

“Ele tem o apoio dos avós, que o colocam para fazer, e incentivam a não deixar de lado o que não sabe, e depois nós ajudamos em tempo real por telefone. Pesquisamos e explicamos, para que ele tenha um ensinamento, e não fique copiando da internet. Não podemos deixar que a rotina de estudos pare”, conta Queila.

Aprendizagem

A lição de casa é fundamental para que o desenvolvimento cognitivo da criança não esteja restrito ao ambiente escolar. Além disso, as tarefas auxiliam o estudante na criação de um hábito de estudo, independentemente da escola, algo que lhe será útil por toda a vida.

Neste sentido, o apoio dos pais ou responsáveis é essencial para o equilíbrio emocional aos pequenos e demonstra o valor da educação.

“Isso se reflete na forma como a criança vê a escola, ela não se sente sozinha e desamparada. É claro que a tarefa de casa é atribuição da criança, os pais não podem fazer por ela, mas sim orientar, e a criança precisa disso. Frustração pelas dúvidas não tiradas e sentimento de solidão
trazem consequências graves na aprendizagem. E os pais, por não acompanharem as tarefas, podem ter ainda mais dificuldade para perceber”, explica a pesquisadora da Unesp (Universidade Estadual de São Paulo), Andreia Cristiane Silva Wiezzel, que tem doutorado sobre lição de casa.

A especialista lista algumas dicas para que os pais tenham boas experiências na condução da lição de seus filhos, como fracionar as atividades quando a demanda for muito grande, manter o ambiente de estudos organizado e com o mínimo de distrações, além de manter-se atento às necessidades da criança.

Para estimular a independência, o ideal é ausentar-se gradualmente, depois que a alfabetização for concluída, mas continuar à disposição, demonstrando que ela pode pedir ajuda se precisar.

Infelizmente, os casos em que a paciência falta e os conflitos aparecem são comuns. A pesquisadora sugere que, quando isso ocorrer, os pais escolham um momento com mais equilíbrio emocional para as tarefas escolares. “Se não, ao invés de ser uma coisa boa para a criança, a tarefa se torna destrutiva, com efeito exatamente contrário do que buscamos”, argumenta.

Habilidades

Com uma metodologia de ensino diferenciada, o NEI (Núcleo de Educação Integrada), da Fundação Romi, em Santa Bárbara d’Oeste, mostra que as lições de casa não precisam necessariamente ser longos questionários de respostas simples e objetivas – pelo contrário, a escola aposta em tarefas significativas e que valorizam a vivência do estudante nos ciclos dos ensinos fundamental e médio.

“Partimos do pressuposto de que o sujeito precisa estar ativo no processo, ele não é um mero receptor de informação. Então damos menos tarefas, porque eles passam mais tempo na escola, com o ensino semi-integral e integral, e buscamos tarefas diferentes e significativas”, explica Ericka Correa Vitta, diretora da escola, que cita atividades relacionadas à leitura, observação, reflexão e resolução de problemas cotidianos envolvendo também as famílias.

“Assim sistematizamos competências e habilidades, e não conhecimentos isolados. Damos sentido à aprendizagem e ao conhecimento. E a criança tem uma aprendizagem muito melhor quando vê sentido no que está fazendo”, conclui.

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