Exposição revive paixão por Senna e atrai fãs de todo o mundo

Até o momento, 11 mil pessoas visitaram a mostra - a maioria, 55%, é formada por italianos; segundo a organização, 15% do total são brasileiros


Não há como não se lembrar exatamente onde se estava naquela manhã de domingo, 1.º de maio de 1994. O telão, à frente, exibe a câmera do cockpit da Williams FW16 pilotada pelo brasileiro Ayrton Senna naquele início do GP de San Marino, em Ímola. No fone de ouvido entregue a cada um dos que ingressam na exposição, o ronco dos motores e todo o som ambiente daquela corrida transportam o visitante para aquele momento.

Então vem a curva Tamburello. O acidente. A câmera que se apaga. E o espectador é levado a uma viagem, em retrospectiva, pela carreira do piloto brasileiro, tricampeão de Fórmula 1 e um dos maiores vencedores da história do automobilismo mundial. O Estado visitou a exposição Ayrton Mágico – A Alma Além dos Limites, em cartaz no Museu Multimídia Autódromo de Ímola Checco Costa, que funciona no autódromo.

A história de Senna ficou marcada para Ímola pelo fim trágico. A morte do piloto aos 34 anos comoveu o mundo, forçou a Fórmula 1 a rever padrões de segurança, interferiu inclusive no traçado do autódromo da cidade, na região de Bolonha – oficialmente, Autódromo Internacional Enzo e Dino Ferrari.

“Ayrton Senna e Ímola são hoje uma coisa só. Um vínculo indissolúvel ligará para sempre Senna à nossa cidade: impensável, não celebrar o 25.º aniversário daquele maldito 1.º de maio com uma grande exposição dedicada a ele, aqui em Imola, no Museu do Autódromo que o viu correr pela última vez”, afirma ao Estado o curador da mostra, Matteo Brusa.

Hoje subutilizado – perdeu espaço na principal categoria do automobilismo com a ascensão dos traçados modernos em países orientais -, o circuito sediou provas da Fórmula 1 entre 1980 e 2006. A memória de Senna é onipresente. No alambrado próximo à curva Tamburello, bandeiras de diversos países, mensagens, fotografias e flores disputam cada centímetro. Parece um santuário. A poucos metros dali, um monumento em bronze com o piloto cabisbaixo e pensativo estava enrolado pela bandeira do Brasil. Obra do escultor italiano Stefano Pierotti, foi instalado em 1997.

Ayrton Mágico estreou em 10 de abril. Estava prevista para ficar em cartaz até o fim de novembro, mas os organizadores decidiram estender até 3 de maio do ano que vem. A ideia é aproveitar o Ayrton Senna Day, celebrado pela cidade de Ímola em todo 1.º de maio, quando hordas de fãs costumam visitar o local. Conforme o Estado apurou, contatos vêm sendo feitos com a Embaixada Brasileira na Itália e com o Instituto Ayrton Senna com o objetivo de tentar, em seguida, levar a exposição ao Brasil. A mostra foi montada com investimentos da região da Emilia-Romagna, da área metropolitana de Bolonha e da cidade de Ímola, além do Instituto Ayrton Senna e do grupo de comunicação italiano RAI.

Foram dois meses de trabalho para a montagem do espaço. Trabalharam ali cerca de 40 pessoas, entre engenheiros, arquitetos, eletricistas e gráficos. O investimento foi de 500 mil euros (R$ 2,2 milhões).

Até o momento, 11 mil pessoas visitaram a mostra – a maioria, 55%, é formada por italianos; segundo a organização, 15% do total são brasileiros. O curador Brusa relembra que os italianos sempre tiveram grande admiração por Senna. “Quando ele corria, conseguiu minar uma fé quase religiosa dos ferraristas. A torcida italiana dividiu-se entre Ferrari e Ayrton Senna, e isso mostra o quão grande ele foi”, afirma. “Este amor ainda está vivo. Vejo emoção todos os dias nos olhos dos visitantes italianos, o que prova aquilo que ele representou e ainda representa para nós.” Para Brusa, o maior desafio da montagem foi “conseguir lembrar de Senna com respeito e poesia, sem cair na dramatização da tragédia”.

TEMAS. O Museu Multimídia criado no autódromo é uma tentativa de revitalizar o espaço, aproveitando os áureos tempos de Fórmula 1 e a nostalgia de entusiastas do automobilismo para que o autódromo siga movimentado. Ayrton Senna é a primeira exposição do espaço.

Multimídia e enriquecida com capacetes, macacões e bólidos originais, a mostra foi organizada segundo um percurso, dividida em cinco temas. “Fizemos uma narrativa harmônica e orgânica”, explica Brusa. “Cada momento da história e da montagem faz parte de um todo.”

O início coloca o espectador a bordo da Williams no fatídico GP de San Marino de 1994. No instante final da vida de Senna, o flashback retoma para o começo de sua carreira, em seu histórico kart de número 17. Este é o ambiente favorito do curador. “Aqui você realmente está com Ayrton, nos olhos dele, em seus pensamentos diante daquele maldito muro”, comenta, aludindo à imagem de que “antes da morte revivemos nossas vidas como em um filme”

O segundo momento da exposição aborda a estreia do piloto na Fórmula 1, com sua lendária Toleman. É quando a exposição recorda o primeiro GP de Senna em San Marino, em 1984, e sua conhecida faceta de “fazedor de poles”. Em Ímola, Senna largou na primeira posição em oito das 11 corridas disputadas.

No ambiente seguinte, o espectador é surpreendido com o barulho da chuva. Trata-se a uma ode ao talento do brasileiro em pilotar com condições temporais adversas, destacando as provas de Montecarlo em 1984, Ímola em 1991 e Donington em 1993.

O quarto aspecto é a perseverança – com todo o peso dos discursos quase místicos utilizados por Senna, em suas entrevistas. O momento escolhido é a sua vitória no GP Brasil de 1991, quando ele perdeu a quarta marcha na 28.ª volta, depois a terceira e a quinta. E, mesmo assim, venceu a corrida.

A rivalidade com o francês Alain Prost é o tema do quinto espaço, com cenas inesquecíveis de ultrapassagens, rusgas e momentos épicos. “Alain, sinto sua falta”, é o que Senna diz em áudio capturado naquela manhã de Ímola, antes da largada. O francês, tetracampeão mundial, havia encerrado sua carreira na temporada anterior.

RATZENEBERGER – A convite de um festival de grafite que ocorreu no Autódromo de Ímola no fim de setembro, o muralista brasileiro Eduardo Kobra pintou um retrato do piloto Ayrton Senna no paredão que hoje abriga o Museu Multimídia. Para o curador da mostra, foi uma feliz coincidência. “Um diálogo perfeito e poético”, comenta ele, sobre a obra do artista.

Brusa aponta uma semelhança entre a exposição e o mural: a homenagem ao piloto austríaco Roland Ratzenberger (1960-1994), que morreu em acidente nos treinos naquele mesmo fim de semana. Ayrton Senna disputou sua derradeira corrida com uma bandeirinha da Áustria – pretendia homenagear o colega ao fim da prova, balançando a flâmula vermelha e branca.

“A exposição termina com esse último desejo de Ayrton: ostentar a bandeira austríaca. No mural de Kobra também há essa referência, uma pequena bandeira austríaca. Maravilhoso”, diz o curador.

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