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Futebol europeu

Ceferin revela traição de presidente da Juventus e diz que Superliga ‘está morta’

Presidente da Uefa comentou ações para frear movimento dos 12 clubes mais ricos do mundo que queriam nova liga

Por Agência Estado

25 abr 2021 às 10:37 • Última atualização 25 abr 2021 às 10:52

O presidente da Uefa, Aleksander Ceferin, fez uma analogia curiosa sobre as consequências da criação da Superliga Europeia, projeto que fracassou três dias depois de ser anunciado. O dirigente afirmou que a guerra de dez dias na Eslovênia, há 30 anos, lhe ajudou a estar preparado para tomar medidas contra a competição que quase dividiu o futebol europeu na semana passada.

“Psicologicamente, isso foi um impacto para mim”, apontou Ceferin sobre o controverso torneio, criado por 12 dos maiores clubes da Europa, mas que logo sofreu uma debandada de times diante da pressão dos torcedores, políticos e personalidades do futebol e desmoronou rapidamente. “Foi algo semelhante a uma guerra. Não posso comparar, mas ambas situações foram estressantes. A tensão era semelhante”.

A tarefa imediata de Ceferin era colocar freio em 12 dos clubes mais ricos do mundo, que ameaçaram se separar para criar um competição que era a antítese das regras do futebol europeu. “Crianças mimadas não podem me desestabilizar”, afirmou ele.

Para o dirigente esloveno, foi particularmente difícil digerir a decepção que a Juventus lhe teria causado. Ele tinha uma relação muito próxima com Andrea Agnelli, presidente do clube de Turim e cuja filha é afilhada do líder da Uefa.

Como presidente da Associação dos Clubes Europeus, Agnelli e o resto dos clubes concordaram há duas semanas em mudar o formato da Liga dos Campeões a partir da temporada 2024/2025, como forma de deixar para trás as ameaças de uma Superliga.

Mas, pouco tempo depois, Ceferin teve novas preocupações de que Agnelli descumprisse o seu compromisso de se manter nas competições da Uefa. O esloveno estava na estrada a caminho da Suíça e começou a ligar para o presidente da Juventus. Não houve resposta e os piores receios do líder da Uefa começaram a cristalizar-se.

“O pior dia foi o sábado, porque então percebi que era pura traição, que algumas pessoas haviam mentido para nós durante anos”, relatou Ceferin. “Foi realmente estranho, porque eu não sabia exatamente o que iria acontecer no dia seguinte”.

O plano da Superliga, que originalmente vazou em janeiro, estava em andamento, ativado por 12 clubes: Manchester City, Arsenal, Manchester United, Tottenham, Liverpool, Chelsea, Atlético de Madrid, Barcelona, Real Madrid, Milan, Juventus e Inter de Milão. “Recebi telefonemas de três ou quatro clubes que diziam: ‘Sentimos muito, mas temos que dizer de outra forma que estamos fora'”, contou Ceferin.

As ligas da Inglaterra, Espanha e Itália realizaram reuniões de emergência. De repente, suas principais competições correram o risco de serem afetadas, pois o vínculo que lhes permitia ter lugares em torneios europeus poderia ser cortado.

A direção da Federação Inglesa de Futebol contactou o governo do primeiro-ministro do Reino Unido, Boris Johnson, para pedir ajuda, a fim de manter intacta a liga esportiva mais popular do país.

Em resposta, foi divulgado um comunicado conjunto da Uefa, ligas e federações da Inglaterra, Espanha e Itália. Eles alertaram que o “projeto cínico” seria rejeitado por meios legais. Todos os clubes que aderiram à iniciativa separatista seriam excluídos das competições existentes.

O maior grupo, de seis clubes ingleses, seria, portanto, expulso da Premier League, e seus jogadores não poderiam fazer parte de suas respectivas seleções. Mas o grupo de clubes fundadores da Superliga, apelidado de “dúzia suja” por Ceferin, continuou a sua iniciativa até domingo à noite, ao abrir um site que não dava muitos detalhes sobre a competição (especialmente o torneio feminino) e apresentar um logotipo claramente improvisado.

Ceferin ficou furioso. Ele prosseguiu com os planos de informar uma renovada Liga dos Campeões e a lançou contra as “víboras” dos clubes rebeldes, criticando particularmente o vice-presidente do Manchester United, Ed Woodward, e o “mentiroso” Agnelli, por quem afirmou que foi traído.

A Uefa não perdeu tempo em tomar medidas para erradicar a ideia da Superliga antes que se abrisse a possibilidade de contestações legais que levariam a longos processos judiciais. Ceferin recebeu ajuda de Boris Johnson, que ameaçou decretar regras para impedir o novo torneio.

Ele também recebeu sinais de apoio à Liga dos Campeões por parte dos jogadores da própria Premier League. Na Inglaterra, os protestos dos torcedores cresceram e o esloveno detectou algumas rachaduras na aliança do projeto. Com a oportunidade de falar no Congresso da Uefa para 55 países, na cidade suíça de Montreux, na terça-feira, Ceferin fez um apelo direto aos proprietários da Premier League.

“Senhores, vocês cometeram um grande erro”, enfatizou. “Alguns dirão que é ganância, outros que foi desdém, arrogância, leviandade ou total ignorância da cultura futebolística da Inglaterra. Não importa. O que importa é que ainda dá tempo de mudar de ideia. Todos cometemos erros”, discursou.

Agora, Ceferin quer que Real Madrid, Barcelona e, principalmente a Juventus, os únicos três clubes que ainda não confirmaram a saída da Superliga, aceitem a derrota publicamente e renunciem a quaisquer tentativas futuras de ir adiante com a ideia separatista.

“Acho que ela está morta”, opinou. “Nem você e eu estaremos mais no esporte nem no futebol se isso acontecer novamente”. Ceferin negou ter desejo de vingança. No entanto, ele reconheceu que prevalecerão suspeitas sobre certos clubes e suas razões para agir.

“Eu ainda acho que vou confiar nas pessoas, porque aqueles nos quais tinha segurança não me traíram, exceto Agnelli”, pontuou. “Dos outros, eu duvidei o tempo todo, todo mundo”, acrescentou. Como então consertar a relação com o presidente da Juventus? “Não há mais relacionamento. E nunca haverá novamente”, salientou o líder da Uefa.

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