‘Tento fazer com que esqueçam’, diz funcionário de hospital

Hospital de Câncer Infantil de Barretos acumula histórias de solidariedade, como a do Tio Mazinho


“Às vezes eu penso num passe de mágica. Eu peço, meu Deus me dá um poder de chegar e arrancar a doença. Mas o que eu posso fazer que considero como um remédio é fazer com que esqueçam que estão num hospital, arrancar um sorriso. Quando consigo, você não tem noção de como eu me sinto”. A declaração é de Sinomar Rogerio Gonçalves, de 47 anos. Ou, para as crianças e adolescentes do Hospital de Câncer Infantil de Barretos, apenas “tio Mazinho”.

Ele comanda a brinquedoteca do hospital. Brinca com os pequenos, conversa e aconselha os adolescentes, e sonha em trabalhar como professor desses pacientes, que podem passar anos morando em Barretos para o tratamento contra o câncer.

Foto: João Carlos Nascimento - O Liberal
Tio Mazinho comanda a brinquedoteca do hospital

Mazinho trabalhou por dez anos na cozinha do hospital antes de ser transferido para a lanchonete da ala infantil. Lá, logo foi promovido a brinquedista. Seu jeito alegre e riso fácil chamaram a atenção da diretoria, atenta ao objetivo de tornar o ambiente o mais acolhedor possível aos pequenos que estão enfrentando essa grande batalha.

“O tratamento é terrível, eu choro, eu rio, eu chego em casa eu sonho com eles. A gente não quer que eles faleçam. Me magoa muito. Mas a gente sabe que é útil, que faço o bem, e que vale a pena. Se eu pudesse curar todos, nossa”, contou ele ao LIBERAL. A reportagem visitou o hospital no dia 25 de março.

A brinquedoteca onde Mazinho fica é em formato de navio. O hospital optou por uma estética que remete ao universo marinho, e cada setor tem uma cor e um animal. O centro cirúrgico, por exemplo, é um tubarão. Já a radioterapia, uma tartaruga.

“Os maiores têm essa compreensão do que estão passando, mas os menores não. Vão crescer e ter algumas lembranças. De forma lúdica a gente tenta quebrar um pouco esse gelo que é o tratamento oncológico, tão traumático quando as crianças passam por isso”, explicou o médico Carlos Cavalcante, que há cinco anos atua no Hospital Infantil.

ESTRUTURA

A unidade conta com 22 leitos de internação e seis de Unidade de Terapia Intensiva. Em média, chegam 600 novos casos por ano, entre crianças e adolescentes, da qual a metade acaba diagnosticada com câncer.

A instituição atende todas as especialidades cirúrgicas envolvendo a oncopediatria, e se destaca no tratamento de leucemia. A inauguração de um novo prédio no início de abril ampliou de três para 13 o número de leitos para transplante de medula.

Foto: João Carlos Nascimento - O Liberal
Unidade conta com 22 leitos de internação e seis de Unidade de Terapia Intensiva

O Hospital conta com três professores da rede pública que dão aulas aos pacientes, que fazem provas enviadas pelos municípios de origem para que, ao término do tratamento, eles retornem à série compatível com a idade.

A instituição possui ainda uma fábrica de próteses, que atende à demanda dos pacientes que precisam passar por amputação de membros, e a casa de apoio Lar do Amor. O espaço é mantido pelo hospital e suporta 30 famílias. Como recebe muitos pacientes indígenas, a casa de apoio conta inclusive com uma casa em formato de oca para que a família se sinta acolhida.

Cavalcante destacou que há atualmente no Brasil dois desafios para o câncer infantil: a busca por tratamentos que deixem menos sequelas, com protocolos de drogas menos tóxicas, e o diagnóstico precoce.

“A criança não tem como você prevenir. Uma chance de cura de 85%, 90%, pode cair para 20% se a doença se espalhar. A migração da família até chegar no centro de oncologia e a demora até alguém pensar em câncer, que pode levar meses, fazem com que doença progrida e às vezes a gente perca essas crianças”, lamentou.

Os sintomas variam de acordo com o tipo do câncer, mas o médico indicou alguns sinais que merecem atenção. Os pais e médicos precisam observar situações como manchas roxas, febre, perda de peso, sudorese noturna e lesões com queixas progressivas de dor.

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