Remédios exigem esforço de pacientes e familiares

Desabastecimentos e preços altos comprometem tratamentos contra o câncer


A dificuldade de acesso a medicamentos essenciais para o tratamento de um câncer é outro entrave no caminho para a cura que reúne histórias que, vez ou outra, acabam com um final triste. Uma delas é de Fabiano da Silva Fernandes, de 38 anos.

Morador do Jardim Sumarezinho, em Hortolândia, ele morreu no dia 20 de fevereiro à espera de um remédio auxiliar à quimioterapia que realizava no Hospital das Clínicas da Unicamp.

Foto: Marina Zanaki / O Liberal
Maria Luiza da Silva Fernandes

Fabiano precisava do medicamento Filgrastim, de 300 mg, que o ajudaria a lidar com a queda na imunidade relacionada ao tratamento contra o câncer nos testículos.

O Filgrastim é considerado de alto custo e sua compra é de responsabilidade do Ministério da Saúde. Houve atraso na entrega por parte do órgão federal.

“Estou com uma dor terrível de ter acontecido isso com meu filho, ele era meu companheiro. Nem todo mundo tem dinheiro”, desabafou a dona de casa Maria Luiza da Silva Fernandes, de 63 anos, mãe
do paciente.

Fabiano passou pela primeira sessão de quimioterapia e recebeu o medicamento no hospital. Como reagiu bem, foi liberado com a orientação de que a família retirasse o Filgrastim em uma farmácia de alto custo. A irmã do paciente, a malabarista Luciana da Silva Fernandes, de 39 anos, passou três semanas procurando o remédio, sem sucesso. Ela foi a quatro farmácias de alto custo da região, sempre com a informação de que o medicamento estava em falta.

Além de caro – uma caixa custa entre R$ 600 e R$ 700 – o Filgrastim não é facilmente encontrado em farmácias convencionais. Uma amiga acabou conseguindo uma caixa diretamente com o laboratório, mas Fabiano teve tempo de tomar apenas uma ampola antes de receber a segunda dose de quimioterapia.

O procedimento precisou ser interrompido após ele passar mal. Horas depois, Fabiano morreu. Na certidão de óbito, consta que a morte foi causada por enfisema pulmonar e parada cardíaca. Além do câncer, Fabiano fazia tratamento para esquizofrenia. Seu câncer foi descoberto em metástase.

O Ministério da Saúde informou, no final de fevereiro, que estava finalizando o processo de compra e que a previsão era encaminhar ao Estado 6,3 mil unidades do produto no mês de março. O prazo previsto em portaria para a entrega, de acordo com a pasta estadual, era 20 de dezembro do ano passado.

Foto: Marcelo Rocha / O Liberal
Recepcionista Tamires contou que o avô ficou quase dois meses sem conseguir tomar remédio que controla doença

A falta de medicamentos importantes ao tratamento do câncer não se restringe ao Filgrastim. A recepcionista Tamires Ribeiro dos Santos, de 28 anos, contou que o avô de 80 anos ficou quase dois meses sem conseguir tomar o medicamento Talidomida, usado para conter o avanço de um câncer.

Adolfo Ribeiro da Silva, aposentado, morador de Americana, foi diagnosticado com mieloma. A cura seria alcançada por meio do transplante da medula óssea. Pela idade, o tratamento foi descartado e o médico optou pela Talidomida.

“É um medicamento que ele não pode ficar sem. No período em que não tomou, ficou amarelo, perdeu peso. O médico disse que não tem o que fazer, não dá para substituir”, disse Tamires.

O desabastecimento de Talidomida ocorreu em função de problemas do laboratório, segundo a Prefeitura de Americana levantou junto ao DRS 7 – Departamento Regional de Saúde. Tanto o governo estadual quanto federal foram procurados, mas não se posicionaram sobre a falta. O abastecimento em Americana foi normalizado em 7 de março.

Associações fornecem remédios

Duas instituições do chamado terceiro setor – ou seja, entidades sem fins lucrativos – oferecem, entre outros suportes, remédios que as famílias não conseguem comprar. A Rede Feminina de Combate ao Câncer de Santa Bárbara d’Oeste e a Uniap (Unidade de Apoio aos Portadores de Câncer) de Americana garantem esse auxílio aos pacientes.

Dos cinco principais produtos farmacêuticos mais solicitados pelos pacientes junto à Uniap, dois são utilizados para controle da dor, algo essencial quando se fala em qualidade de vida dos pacientes. Além de Morfina e Tramol, o suplemento Adera, o Cilostazol (previne acidente vascular cerebral) e protetor solar estão entre os produtos que os pacientes mais precisam.

Foto: Marina Zanaki / O Liberal
Rede Feminina de Combate ao Câncer de Santa Bárbara garante auxílio

O vendedor Fernando Pelegrini, de 51 anos, encontrou na Uniap a solução para conseguir a reposição hormonal (R$ 140 por mês) e o remédio para emagrecimento (R$ 350 a cada 10 dias) que sua filha Gabriele, de 14 anos, precisa. A garota teve um câncer no cérebro e precisou retirar a glândula hipófise em cirurgia realizada no Hospital Boldrini.

“Senão não teria condições. Estou desempregado, e está muito difícil o mercado”, desabafou. Gabriele é uma das trigêmeas do casal, que paga as contas com a renda mensal da mãe, a operadora de máquina Dirce de Andrade Pelegrini, de 48 anos.

Em 2018, a família precisou contar com a ajuda de familiares e amigos para comprar a Desmopressina, substância de alto custo para o controle diurético que é fornecida pelo SUS (Sistema Único de Saúde) e que ficou em falta por três meses.

Tanto governo estadual quanto Ministério da Saúde foram procurados sobre o desabastecimento ocorrido no passado, mas não responderam. A Prefeitura de Americana disse que a paciente está retirando o medicamento de forma regular.

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