Lugar de expansão e desenvolvimento

Formada inicialmente pelos migrantes que trabalhavam na cidade vizinha, a região da Zona Leste se tornou um dos propulsores da economia barbarense


A expansão populacional e o desenvolvimento de Santa Bárbara d’Oeste nas últimas décadas está estritamente ligada à migração e à Zona Leste. Este é um ponto comum nos relatos de historiadores, moradores e comerciantes ao Liberal. Uma área que no início servia como espaço “dormitório” de quem trabalhava na vizinha Americana ganhou força nos setores de serviços e comércio nos últimos anos, atualmente é praticamente autossuficiente e um propulsor da economia do município.

Foto: Marcelo Rocha - O Liberal
A importância da migração para a cidade e para a Zona Leste, inclusive, é reconhecida simbolicamente em um espaço inaugurado há três anos

A importância da migração para a cidade e para a Zona Leste, inclusive, é reconhecida simbolicamente em um espaço inaugurado há três anos. A rotatória da Avenida Santa Bárbara recebeu 21 bandeiras e foi denominada de Memorial da Migração. Além das bandeiras Nacional, do Estado de São Paulo e da barbarense, o Memorial conta com as bandeiras dos municípios de Águas de Santa Bárbara, Assis, Candido Mota, Dracena, Fernandópolis, Jales, Junqueirópolis, Mirassol, Palmeira d’Oeste, Presidente Prudente, Pompéia, Registro, Santa Fé do Sul, Santa Rita d’Oeste, São José do Rio Preto, Tupi Paulista e Votuporanga, além de uma bandeira branca em homenagem às demais cidades de onde vieram os moradores acolhidos em seu território.

“Esse espaço tem grande valor simbólico. Representa a história de milhares de pessoas que hoje formam a Zona Leste”, aponta o prefeito Denis Andia (PV).

Crescimento foi ‘de caso pensado’

Foto: Marcelo Rocah - O Liberal
Pressão imobiliária de Americana levou ao investimento de Santa Bárbara em sua “cidade nova”, explica historiador

“Foi de caso pensado”. É o que destaca o historiador Antonio Carlos Angolini ao falar do crescimento da Zona Leste, em Santa Bárbara Oeste, após a chegada de migrantes que, inicialmente, utilizavam o território barbarense como “cidade dormitório”. O incentivo da prefeitura à criação de bolsões habitacionais na área também se deve a uma estratégia política envolvendo a vizinha Americana, explica o estudioso.

Angolini recorda que o primeiro loteamento na região foi aprovado em 1964. “Depois, mais tarde, na administração do prefeito Isaías Herminio Romano, tinha uma pressão imobiliária vindo de Americana, porque Americana estava em um franco desenvolvimento por causa das tecelagens, tinha mão de obra de sobra. E Americana não tem facilidade de lotear loteamentos mais populares por falta de terrenos. Lembro que Americana começou a pressionar. Tinha um vereador querendo fazer plebiscito, pegar mais uma parte da Zona Leste para americana. Santa Bárbara começou a ficar preocupada em perder território”, conta o historiador.

Ele relembra que conversou com Romano a respeito, que afirmou que era preciso aprovar uma série de loteamentos para se criar uma “Cidade Nova”, termo que deu origem a um dos bairros locais. “Eu achei ele muito inteligente. Imediatamente, o prefeito Romano respondeu: ‘nós temos que construir um muro para conter o crescimento de Americana para dentro do território de Santa Bárbara, porque lá tá precisando e aqui nós temos terra sobrando. O problema mora sempre na divisa. Se nós liberamos para americana uma faixa de terra nós não resolvemos, só vamos transferir o problema da divisa pra mais perto de nós”, relata o historiador.

Ele também relata que a administração barbarense busca mais expressão política, aumentar o número de eleitores.

Com o tempo, o contexto foi invertido. “Hoje, não temos mais perfil de abrigar pessoas que vêm para Americana. Hoje, o pessoal está vindo para a própria Santa Bárbara. A Zona Leste, hoje, tem pujança, tem comércio forte, tem vida. Hoje, eles se julgam mais barbarenses”, acrescenta.

A força do comércio e indústria

Foto: Marcelo Rocha - O Liberal
Atualmente, segundo estudioso, setores são responsáveis pela cidade resistir à crise e atraem até moradores de outras cidades

A autossuficiência criada na Zona Leste de Santa Bárbara d´Oeste ocorreu, segundo o historiador Antonio Carlos Angolini, principalmente pela força que o comércio e indústria ganharam. “Temos muitas tecelagens, muitas fábricas na Zona Leste. É esse migrante. O migrante que veio, não veio por causa de Santa Bárbara, veio por causa de Americana, mas acabou favorecendo o desenvolvimento de Santa Bárbara, chegando a dobrar nossa população. Hoje gera emprego ali na região”, acrescenta.

Segundo Angolini, o fortalecimento do setor faz até com que pessoas venham de cidades vizinhas para comprar mercadorias em atacadões da região. “O pessoal vem de fora para comprar para revender nas suas cidades. Eu vou sempre lá e vejo caravanas que vêm de Minas, de vários lugares para fazer compras em Santa Bárbara”, completa.

E o crescimento segue ocorrendo, observa. “Hoje, que a [Rodovia] Bandeirantes passou aqui. Tem quase 20 prédios em construção. Tem tantos prédios em construção nos loteamentos novos”.

Santa Bárbara é dividida em duas partes

Para o pesquisador, com a criação da Zona Leste, Santa Bárbara d’Oeste é hoje uma cidade dividida, pelo menos, em duas: a cidade velha e a cidade nova. E com perfis diferentes. “Desde o visual, [os moradores] são muito diferentes, porque na parte central a grande maioria são descendentes de italianos. Então, a gente percebe uma diferença. Esses migrantes todos vieram todos com um outro perfil”, conta.

O estudioso afirma que as distinções também ocorrem no modo de vida. “Hoje andamos por Santa Bárbara [na região central] à noite e está tudo fechado, 8, 7 horas. Se vai para a Zona Leste tá todo mundo sentado na calçada, conversando. Ainda tem aquela característica mais provinciana mesmo, de cidades antigas. Mantêm isso que eles trouxeram das cidades deles”, compara, observando que o medo e insegurança contemporâneos também influenciam neste cenário que aponta existir na área central.

Testemunha da expansão

Quando Inácio Luis Souto chegou na Vila Mollon, em Santa Bárbara d’Oeste, há 40 anos, encontrou ali sete ruas e estrada de terra. “Dessas sete ruas pra baixo era tudo algodão. Ali onde era o shopping (Tivoli) hoje, tudo ali era lavoura. E aí, imediatamente começou a lotear”, relembra o cabeleireiro, que hoje tem 72 anos e veio com a família da pequena cidade paranaense de Douradina, que atualmente tem uma população estimada de 8,6 mil habitantes.

Foto: Marcelo Rocha - O Liberal
Quando chegou à Vila Mollon, há 40 anos, cabeleireiro Inácio Souto encontrou sete ruas e estrada de terra

Antes de chegar ao Mollon, no entanto, morou na Cidade Jardim e no Parque Gramado, em Americana. Depois, em território barbarense, viu e contribuiu com o crescimento da Zona Leste. “Foi difícil naquele tempo, porque se você precisasse fazer uma compra você tinha que ir longe. Não é igual hoje. Hoje nós temos o Supermercado Crema do lado, tem o Tenda, o Higa e tem outros mercados, tudo perto. Então, naquele tempo não tinha nada. Tinha que ir pra Americana. Santa Bárbara, naquele tempo, quase se podia dizer que era dormitório”, recorda.

Apesar da infraestrutura ser limitada na época, relembra dois pontos fortes. O primeiro eram as oportunidades de emprego. “Passavam carros de som nas ruas pedindo pessoas para trabalhar na Santista, na Fibra, na Goodyear, na Ripasa [empresas das imediações]. O povo foi vindo do sítio e foi formando essa vila”, conta.

Outra boa memória é em relação ao acolhimento. “O bairro Mollon é formado 99,9% de gente do sítio, do Paraná, esse lado aqui de Jales, Votuporanga. Eu falo porque eu lido com o povo aqui do bairro há 40 anos. É por isso que esse bairro é muito bom pra gente morar”, enaltece.

Das superações à calmaria

Foto: Marcelo Rocha - O Liberal
Após vencer obstáculos como morar na rua, comer restos de comida e até um câncer, Valdir Brandão celebra a tranquilidade da aposentadoria em sua segunda cidade natal

Depois de deixar a pequena cidade baiana de Ibiquera – que hoje tem 4 mil habitantes – para vir à capital paulista, Valdir Brandão superou uma série de obstáculos, como dormir na rua, comer restos de comida e vencer um câncer até conseguir sossego em uma outra cidade: Santa Bárbara d’Oeste. Na Zona Leste, mais especificamente no Planalto do Sol 2, ele encontrou um ar menos poluído, após recomendação médica, e hoje, aos 68 anos, celebra as amizades feitas na região e a constatação de que a área se desenvolveu e colhe mais frutos bons do que reflexos negativos. “Vim pra cá em 1999. Eu vim pelo seguinte: porque eu estava com um probleminha de saúde. Aquela poluição de São Paulo estava me prejudicando muito. Então, eu entrei com minha aposentadoria, saiu e aí eu vim pra cá. Gostei do visual da cidade. Já tinha uns parentes que moravam ali no Jardim Brasília.”, afirma.

Hoje, pode se sentir oficialmente como um barbarense. Até título de cidadão da cidade recebeu na Câmara. Também se envolveu com movimentos sociais e até hoje é membro da associação de moradores do bairro. Sente orgulho de ter atuado em diferentes causas, como na saúde e trânsito. “Tem tudo aqui agora. A Zona Leste cresceu e você não precisa sair”.

Visão empreendedora

Há exatos 40 anos, a família Melo migrou do Paraná para o Estado de São Paulo, mais especificamente para Santa Bárbara d’Oeste. A aposta inicial do patriarca, que veio com a mulher e dez filhos foi a compra de um pequeno bar na Vila Mollon. Do bar foi para uma mercearia, da mercearia para um mini-mercado e dali para a criação do Supermercado Crema. Um crescimento ligado à expansão simultânea da Zona Leste. Hoje, o negócio se tornou uma rede de três unidades, duas em território barbarense e uma recentemente inaugurada na vizinha Americana.

Um dos proprietários da rede, Antônio Aparecido de Melo, o Cido, conta que o pai conseguiu enxergar cedo o aspecto promissor da Zona Leste para o empreendedorismo. “A quantidade de caminhões que chegavam durante a semana de mudança ali era extraordinário. Meu pai era um senhor que não tinha muita leitura, mas ele via que aquilo ali seria um futuro tremendo pra gente. Ele sempre dizia: ‘aqui vai ser o lugar onde nós vamos prosperar e as coisas vão acontecer’”, relembra.

Foto: Marcelo Rocha - O Liberal
Há 40 anos, a família Melo chegava à Zona Leste e o patriarca percebia o potencial para investir em um comércio

Ele destaca o caráter acolhedor da população da área que, assim como a família Melo, tinham vindo do sítio, da lavoura. “E o negócio foi só prosperando, a divisa foi ficando um sucesso. Jardim Ipiranga, Mollon, Cidade Nova, Jardim Europa, aquilo foi virando um círculo de pessoas ali, virou uma cidade”, recorda.

Uma empresa com quatro funcionários já tinha entre 40 e 50 depois de um ano, segundo o empresário. Então, veio o prédio próprio e o fim do aluguel, e expansões a cada dois anos.

Uma pérola barbarense

Foto: Divulgação
Uma das figuras mais ilustres de Santa Bárbara, Pérola Byington nasceu na Fazenda Barrocão e se tornou referência nacional da assistência social

Uma das figuras mais ilustres de Santa Bárbara d’Oeste nasceu na Zona Leste da cidade e, assim como diversos moradores da região, pertencia a uma família que veio de fora. Pérola Ellis Byington veio ao mundo na Fazenda Barrocão, em 3 de dezembro de 1879. Filha de Mary Ellis McIntyre e Robert D. H. McIntyre, ambos descendentes de famílias que migraram dos Estados Unidos após a Guerra da Secessão. Se envolveu em vastos projetos de assistência social e adquiriu uma longa experiência neste setor, em trabalhos realizados junto à Cruz Vermelha dos EUA e do Brasil.

Nos anos 1920, quando o estado de São Paulo passava por grandes mudanças culturais e comerciais, as diferenças sociais começaram a se acentuar e eram altas as taxas de mortalidade, principalmente infantil.

Foi neste contexto que, em 1930, surgiu a Cruzada Pró-Infância, fundada por Pérola em parceria com a educadora sanitária Maria Antonieta de Castro. A Cruzada nasceu com o objetivo de coordenar e ampliar os esforços feitos em prol das crianças e das gestantes, mas com o tempo essa ideia cresceu e o programa da Cruzada incluía uma grande variedade de atividades.

Sempre junto de Maria Antonieta, Pérola Byington criou dispensários com serviços de clínica geral, higiene infantil e pré-natal; organizou parques e creches; criou bibliotecas infantis e patrocinou a criação de um lactário. Procurou influenciar autoridades para a execução de programas voltados ao cumprimento dos direitos da mulher e, no Brasil, foi uma das primeiras a defender a divulgação das causas de mortalidade no parto e pós-parto, com o objetivo de melhorar o pré-natal.

Em 1959 ela inaugurou o Hospital Infantil e Maternidade da Cruzada Pró-infância onde, além dos atendimentos à população, eram oferecidos cursos de formação para estagiários acadêmicos. Para manter o funcionamento da Cruzada, sensibilizou muitos profissionais a contribuírem voluntariamente com a causa.

Pérola Byington foi diretora-geral da Cruzada desde a fundação até a sua morte, em 1963, e seu nome ficou associado à história da assistência à infância e maternidade no Brasil.

Uma aposta certeira

“Eu trabalhava na rua naquela época, eu vendia de porta em porta. Vindo de Piracicaba, na hora que eu estava na SP-304, a SP ainda pequenininha, uma mão que vinha e outra que ia, eu avistei pra cá todo aquele empreendimento que estava aqui nessa região e uma casinha em uma quadra, uma na outra e muita terra. Uma expansão dessa região da Zona Leste. Pensei comigo: ‘aí é o lugar pra eu começar minha vida’”. A declaração é de José Mário Biela, proprietário do grupo Cristiantex, e se refere a um vislumbre que teve há 40 anos. Uma aposta sobre um potencial para empreender que acertou em cheio. Hoje, é dono de uma das lojas de referência da Cidade Nova, um dos principais bairros da região barbarense que, assim como muitos outros moradores, também acolheu sua família em 1979.

De Adamantina (SP), ele veio com 14 familiares no chamado êxodo rural de décadas passadas. Foram cinco expansões da Cristiantex desde o início. Em seus 39 anos, passou de “uma lojinha pequena” de 4 por 8 metros, com um funcionário, para um showroom de 2,6 mil metros quadrados e um prédio de 5,3 mil, com 70 colaboradores. Mas no início, relembra José Mário, não foi fácil. “Não tinha asfalto, era terra; não tinha telefone; água também não tinha, tinha poço. Tinha que trazer água de caminhão”, conta o empresário.

Foto: Marcelo Rocha - O Liberal
Há 40 anos, José Mário Biela viu potencial para empreender em um Cidade Nova sem asfalto e água encanada

A ideia do comerciante, então, foi oferecer em sua loja produtos essenciais para os moradores daquela área, trazendo solução a uma outra dificuldade que encontravam. “O cliente, naquela época, comprava no carnê porque ele não tinha carro pra ir longe, e [comprava] onde ele tinha seu crédito com mais facilidade”, relembra. Hoje, oferece móveis, roupas, calçados, eletroeletrônicos, brinquedos e papelaria e o cenário da clientela é outro: atende não apenas clientes das proximidades como até de cidades vizinhas. Há cinco anos, inaugurou em Americana uma unidade de móveis planejados, a Difratelli Fatto Planejados.

PERFIL MANTIDO. Após ver sua aposta de décadas passadas ser certeira, José Mário avalia que foi mantido o potencial imobiliário e empreendedor da Zona Leste. “Está vindo muita loja pra cá, principalmente aqui na Avenida Santa Bárbara”, analisa.

LIBERAL VIRTUAL Acesse agora

Receba nossa newsletter!