‘Gig economy’ ganha espaço nas telas em documentário

Filme aborda reflexos da disseminação de aplicativos de prestação de serviços na vida de pessoas que estão no ramo


Agência de notícias focada em questões relacionadas ao mundo do trabalho e uma das referências no combate ao trabalho escravo, a Repórter Brasil lançou no último dia 1º de junho o documentário “GIG – A Uberização do Trabalho”, que aborda os reflexos da disseminação de aplicativos de prestação de serviços na vida de pessoas que aderiram a esse tipo de atividade profissional.

A produção do filme começou há cerca de dois anos, quando este tipo de plataforma começou a ganhar espaço.

Foto: Divulgação
Cena do documentário mostra entregador se alimentando em uma calçada

“O momento ainda era de completa euforia com relação ao surgimento desses aplicativos, mas havia uma série de questões relacionadas principalmente as relações de trabalho que se geravam, que estavam sendo pouco debatidas”, aponta Carlos Juliano Barros, jornalista, documentarista e mestre em Geografia Humana pela USP. Ele dirige a obra junto com Caue Angeli e Maurício Monteiro Filho.

O documentário traz entrevistas com pesquisadores e com quem trabalha neste segmento. Para Carlos, todas essas plataformas se baseiam em um conceito de esvaziamento da categoria de trabalhador e promoção da categoria de empreendedor. “Mas a gente percebe que boa parte desses aplicativos têm mecanismo de controle do trabalho que geram subordinação e uma série de outros expedientes que geram uma intensificação e precarização do trabalho”, avalia.

Foto: Arquivo / O Liberal
Motoristas de aplicativos ainda enfrentam problemas na busca por uma renda

Durante o trabalho de campo, a equipe de filmagem captou imagens como as de entregadores utilizando bicicletas alugadas, trabalhadores almoçando sentados na calçada, motoboy acidentado e motoristas comentando sobre pesadelos que têm com os riscos diários que vivem.

O filme estreou na Mostra Ecofalante de Cinema e vai seguir circulando por sessões de cinemas, universidades e outros festivais. A próxima etapa da Repórter Brasil é tentar emplacá-lo em canais de televisão.

99 e Uber: autonomia

A 99 e Uber informaram que os motoristas que são seus parceiros têm autonomia para definir sua jornada de trabalho e, portanto, não há metas, número mínimo de viagens ou horas a cumprir, assim como o trabalhador é livre para escolher quais pedidos atender.

Foto: Divulgação / Uber
Aplicativos ganham espaço, mas terão de passar por mudanças em relação aos trabalhadores, segundo especialistas

As plataformas, no entanto, podem encerrar a parceria com um motorista realizou sucessivos cancelamentos injustificados. Ambas destacam que a violação de leis de trânsito, que incluem estar descansado para dirigir, pode levar ao rompimento da parceria com o motorista.

Comunicaram ainda que disponibilizam seguro acidente aos motoristas. Em relação aos direitos destes profissionais, as empresas citam cobertura contra acidentes pessoais.

Por trás da pauta: Qual é o custo da sua comodidade?

Como seu tênis daquela marca famosa foi produzido? Quem construiu o palco daquele show que você foi e quanto receberam? Seu lixo e esgoto vão para o lugar correto? Como viveram e foram abatidos os animais que chegaram ao seu prato? Eis algumas das respostas que não são tão simples de responder, devido às diversas cadeias que envolvem, sejam as de mercado ou as sociais.

E, ainda neste raciocínio, o motorista de aplicativo que o levou até aquela balada, quantas horas ele trabalha por dia? Quais são seus direitos trabalhistas? A entrada dele e de centenas de milhares de profissionais do ramo no mercado brasileiro nos últimos anos gerou qual reflexo para outras categorias, trânsito, economia e saúde pública? Como se comportam diante disso as empresas detentoras destas plataformas e o poder público?

Foto: Pixabay
Questões relacionadas ao lado humano da situação do transporte devem receber atenção especial

Essas foram algumas das perguntas que nortearam minha apuração nesta série especial. Certamente, não foi possível responder todas ao leitor, especialmente as que dependiam de informações que não chegaram. Uma das principais delas, não respondida pela Prefeitura de Americana, é: quando será colocada em prática a lei, já aprovada na câmara em 2017, que vai impor normas ao exercício desta atividade?

Esta é uma pergunta que estava o tempo todo implícita nos olhares de apreensão de taxistas que conversavam com a reportagem, por minutos a fio, sem que recebessem qualquer pedido de viagem, em pontos da cidade.

Já em um minishopping, motoristas de aplicativos recebiam chamadas sucessivas enquanto conversavam com a reportagem. No caso deles, outras perguntas que não saberiam responder: quando irei para casa hoje? Algum assaltante está fingindo ser outra pessoa pelo aplicativo para me assaltar?

A maior dificuldade em toda a produção desta pauta, por incrível que pareça, foi falar com passageiros que utilizam o transporte por aplicativo. A maioria estava sempre com pressa ou dizia que “não tinha interesse” em falar sobre sua experiência com este tipo de serviço. Como se não tivessem qualquer relação com a pauta.

Esta série também é uma busca por mostrar que todos estão interligados por meio das cadeias de consumo e, reconhecer isso, é um ato de empatia. O que fazer? Eis mais uma pergunta abrangente, mas assumir seu papel político na sociedade é um começo.

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