Diagnóstico precoce esbarra em fila e despreparo médico

Demora em conseguir acesso a exames e desconhecimento profissional atrasam identificação


Considerado fundamental para as chances de cura, o diagnóstico precoce é um dos maiores desafios enfrentados pelos pacientes com câncer na RPT (Região do Polo Têxtil). Um dos entraves que dificulta a rapidez nesse processo são as filas para realização de exames.

Somente para ultrassom de mama existe uma fila de 1.202 pedidos na rede pública de Americana, segundo a Secretaria de Saúde. Nos casos de suspeita de câncer, esse exame geralmente é solicitado após alguma alteração ter sido identificada na mamografia.

Foto: Arquivo / O Liberal
Somente para ultrassom de mama existe uma espera de 1.200 pedidos na rede pública de Americana

Esse é o caso da aposentada Marize Aparecida Salvador, de 62 anos, que aguarda desde o ano passado a realização de um ultrassom. Ela procurou a UBS (Unidade Básica de Saúde) do Antonio Zanaga após perceber um caroço no seio.

A mamografia apontou uma alteração e o laudo indicava um ultrassom. Segundo a prefeitura, o pedido desse segundo exame foi feito em maio. Contudo, até o momento ela não foi chamada. Marize questionou o posto de saúde ao longo do ano passado, enquanto sentia o caroço aumentando. Desesperada e sem sequer uma previsão de quando conseguiria fazer o ultrassom, ela procurou outros caminhos.

A aposentada soube de um mutirão de mamografias realizado durante a campanha do Outubro Rosa, por meio de uma carreta do Hospital do Câncer de Barretos trazida a Americana pela campanha Rosa do Bem.

Ela fez nova mamografia e foi encaminhada ao Hospital do Amor, em Campinas, para mais exames, incluindo ultrassom e biópsia. Marize recebeu o diagnóstico de câncer e começou quimioterapia para diminuir o tumor antes de realizar a cirurgia.

“Estou na terceira sessão pelo Hospital de Barretos e estou esperando até hoje o ultrassom pela rede pública. Se eu tivesse começado o tratamento no começo, talvez nem precisaria ter feito a quimio para diminuir o tumor”, disse a aposentada em entrevista concedida em março ao LIBERAL. Atualmente, o tumor passou de quatro para dois centímetros.

A Prefeitura de Americana disse que concluiu a compra de serviços de 13 tipos de ultrassons e que estão previstos até 2,2 mil exames de mama. O prazo previsto para começar a chamar os pacientes é o meio de abril.

Foto: João Carlos Nascimento - O Liberal
Kelly descobriu um câncer no reto em 2015

A dificuldade de ter acesso ao diagnóstico não é restrita à rede pública. A operadora de caixa Kelly Gomes, de 33 anos, moradora do São Fernando, em Santa Bárbara d’Oeste, descobriu um câncer no reto em 2015, após uma “saga” de quase seis meses. Ela passou por diversos médicos particulares relatando sangramentos.

“O diagnóstico demorou muito, os médicos não se atentam a isso. No meu caso, tenho o histórico de quatro pessoas na família que tiveram câncer, duas delas falecidas. A gente chega explicando a situação e eles falam que sou muito nova, que deve ser veia entupida, problema no intestino ou psicológico”, contou Kelly.

Após uma hemorragia que durou dez horas, Kelly conseguiu convencer um médico que precisava realizar uma colonoscopia. Quando finalmente conseguiu o diagnóstico, ele veio com o peso de que a doença havia se espalhado, tornando-se metastática.

Busca ativa

A oncologista Tatiana Bonvino e Silva, que atua no Caism (Centro de Atenção Integral à Saúde da Mulher) da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) e no São Lucas Saúde, aponta que o acesso a exames é um dos entraves para conseguir o diagnóstico precoce no SUS (Sistema Único de Saúde).

Ela estima que somente para o exame de colonoscopia exista hoje uma fila de dois anos de espera na rede pública. “A cada passo para o diagnóstico o paciente entra em uma fila que demanda uma espera, e muitas vezes é muito prolongada”, afirmou.

A médica também defende uma busca ativa de casos na Atenção Básica durante as consultas periódicas, com uma observação por parte dos médicos para os pacientes com alto risco de desenvolver neoplasias.

No sistema privado, ela destacou que a demora do paciente em procurar o profissional atrasa o diagnóstico. “A gente tem que se observar mais, perceber como nosso corpo funciona e ficar atento a qualquer coisa fora do normal”, alertou.

“A Inglaterra está incorporando a prevenção de câncer nos admissionais e exames regulares das empresas, por que não pensar em estratégia semelhante no Brasil?”, sugere o oncologista da Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica, Gustavo Girotto.

Coordenador de Assistência do Inca (Instituto Nacional do Câncer), Gélcio Luiz Quintella Mendes explicou que a disciplina de oncologia tem abordagem restrita durante a faculdade de medicina, e isso também acaba dificultando a identificação dos sintomas iniciais da doença. “Até bem pouco tempo atrás pouquíssimas faculdades tinham o curso de oncologia, ela era ensinada de forma mais espalhada durante o curso”.

LIBERAL VIRTUAL Acesse agora