Câncer ‘ataca’ parentes e finanças

Além do abalo psicológico, pacientes oncológicos e família sofrem com aumento nas despesas, perda de peso e rotina alterada


O diagnóstico do câncer provoca um baque psicológico para o paciente e a família. Depois do primeiro impacto, ocorrem outras desestruturações que ficam evidentes com o passar do tempo. Além do psicológico, o câncer afeta os aspectos financeiro, familiar e nutricional. A presença de profissionais especializados é essencial durante e depois do tratamento para garantir qualidade de vida.

O aposentado José Fernandes, 64 anos, mora em Americana e em 2007 descobriu um câncer na boca. Ele passou por quimioterapia e radioterapia na Unicamp (Universidade Estadual de Campinas). Fernandes ainda teve um câncer no pulmão e fez duas cirurgias em 2009.

Foto: João Carlos Nascimento - O Liberal
Aposentado José Fernandes, de Americana, precisou de ajuda profissional para sair de uma forte depressão

Ele conta que passou pelos tratamentos sem o apoio familiar. “Aí veio o problema psicológico. No primeiro momento não sente, mas quando está sozinho e analisa, pensa: ‘poxa vida, olha o que está acontecendo’. Foi algo sério, não foi brincadeira”, desabafou, em conversa com o LIBERAL.

Fernandes precisou de ajuda profissional para sair da profunda melancolia em que se encontrava. Passou a fazer terapia, descobriu o artesanato e o cultivo da terra.

“Hoje levanto cedo, faço caminhada para manter, porque para me colocar de pé foi só a poder de psicólogo. Eu estava muito nervoso. Passei a valorizar o que eu fiz, e não o que os outros fizeram para mim”, contou o aposentado.

Peso

O tratamento de câncer demanda que o paciente esteja bem nutrido, o que se torna um desafio quando o apetite é afetado pelos remédios. Manter-se dentro de um peso mínimo é uma verdadeira luta.

A estudante Gabriele, de 14 anos, também luta contra a balança, mas pelo caminho oposto. Ela mora com os pais, o vendedor Fernando Pelegrini, de 51 anos, e sua esposa, a operadora de máquina Dirce de Andrade Pelegrini, de 48 anos, em Americana.

Foto: Marcelo Rocha / O Liberal
Gabriele com os pais

O organismo da garota deixou de produzir hormônios após a glândula hipófise ter sido removida junto com um tumor. O procedimento foi realizado no Hospital Boldrini e considerado um sucesso. Ao chegar em casa, contudo, uma surpresa aconteceu literalmente do dia para a noite. Gabriele inchou, ganhando muitos quilos por conta de um desequilíbrio provocado pela falta dos hormônios.

Desde então, a garota já fez dietas e exercícios físicos, sem resultados. O que tem ajudado a adolescente é uma injeção para controle de diabetes. Em seis meses, ela conseguiu perder cinco quilos.

A operadora de caixa Kelly Gomes, de 33 anos, moradora de Santa Bárbara d’Oeste, tem um gasto mensal de cerca de R$ 2 mil para custear seu tratamento. Esse valor inclui gasto com convênio médico, remédios, alimentação especial para evitar a desnutrição.

Ela recebe um benefício pelo INSS (Instituto Nacional de Seguridade Social), mas ele não paga todas as contas. O jeito encontrado por ela foi lançar mão de rifas e montar um bazar.

“Somos batalhadores e estamos lutando pela vida dignamente, honestamente, ao contrário de muitas pessoas que são fracas, igual quem me abandonou no meio do caminho”, desabafou.

“Não sobrou nada daquela vida que eu tinha. Perdi casamento, perdi emprego, muitas pessoas que eu achava que eram amigos. Não posso trabalhar, mas ganhei milhares de orações e vários outros amigos verdadeiros”, afirmou.

Apoio familiar

A psicóloga Isabel Cristina Cirino alerta que familiares de pessoas com câncer também precisam de apoio para conseguir se manterem firmes ao lado dos pacientes.

A profissional atuou no Hemoam (Fundação Hospitalar de Hematologia e Hemoterapia do Amazonas), acompanhando os médicos no momento em que informavam o diagnóstico aos pacientes. Hoje, ela mora em Americana e segue atendendo pacientes oncológicos por meio do voluntariado.

“A primeira coisa que eu digo é: nunca desistir. A segunda: sempre ter acompanhamento profissional, tanto com médico clínico quanto com psicólogo. O paciente tem que ter atendimento psicológico, mas o suporte para a família é essencial. Senão como vai lidar com a situação? Acaba ficando doente também”, explicou.

Suporte

As prefeituras da região oferecem apoio a pacientes com câncer. Em Sumaré, o serviço de atendimento domiciliar atua junto a pessoas acamadas. A cidade também fornece fraldas e suplementos alimentares.
A Secretaria de Saúde de Americana informou que esse tipo de suporte é feito pelo prestador do serviço e não pelo município – no caso, o hospital onde o paciente realiza o tratamento.

Em Santa Bárbara d’Oeste, todo paciente continua em acompanhamento na especialidade do município (oncologia) até iniciar o tratamento, durante ou ainda após o seu término.

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